Mais etanol na gasolina: entenda o que muda para os motoristas com a nova mistura aprovada pelo governo
Foto: Pexels/Engin Akyurt
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o aumento da quantidade de etanol anidro misturado à gasolina. A partir de 1º de agosto, a proporção passará dos atuais 30% para 32%, em medida válida por 180 dias, com possibilidade de prorrogação por mais seis meses.
A decisão marca mais um capítulo da trajetória do etanol no Brasil, iniciada em 1975 com a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), lançado pelo governo federal como resposta à crise mundial do petróleo. Anos depois, em 1979, o Fiat 147 a álcool popularizou o combustível no país, que ganhou ainda mais espaço com a chegada dos veículos flex.
Segundo a professora Adriana Ferreira Palhares, do Departamento de Engenharia Química da UFSCar, o aumento da mistura traz vantagens ambientais, já que o etanol contribui para elevar a octanagem do combustível, favorecendo motores mais eficientes e menos poluentes. No entanto, também exige atenção a algumas características do biocombustível.
"O etanol atrai água. Em misturas com uma grande quantidade de etanol, o controle de qualidade de toda a cadeia logística precisa ser muito mais rigoroso para evitar corrosão de tanques e componentes dos veículos, principalmente os mais antigos, que não foram projetados para esse tipo de combustível", explica.
A docente destaca ainda que o etanol possui menor densidade energética do que a gasolina, o que significa que produz menos energia por litro. Além disso, seu preço pode sofrer oscilações em função dos períodos de entressafra da cana-de-açúcar.
"O etanol tem menor eficiência energética, é higroscópico, ou seja, absorve água com facilidade, e isso pode comprometer a qualidade do combustível ao longo da cadeia logística. Também há a questão do preço, que depende das entressafras", afirma.
Brasil não é o único país a adotar a mistura
Embora seja referência mundial na produção de etanol a partir da cana-de-açúcar, o Brasil não está sozinho na utilização do biocombustível.
De acordo com Adriana Palhares, os Estados Unidos utilizam misturas entre 10% e 15% de etanol na gasolina, enquanto a maior parte dos países da União Europeia trabalha com percentuais entre 5% e 10%, impulsionados por metas de descarbonização.
Outros países também vêm ampliando a participação do etanol. O Paraguai já utiliza misturas próximas de 25%, enquanto a Índia estabeleceu um cronograma para atingir 20% de etanol na gasolina como estratégia para reduzir a dependência das importações de petróleo.
Híbridos movidos a etanol podem ser alternativa
Para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, a professora destaca que o país também pode investir em outras fontes renováveis, como o biometano produzido a partir de resíduos do agronegócio e o hidrogênio verde obtido por meio de energia eólica e solar.
Outra alternativa apontada pela pesquisadora é a expansão dos veículos híbridos movidos a etanol.
"A hibridização combina o motor elétrico com um motor a combustão abastecido com etanol. Dessa forma, é possível aumentar a eficiência dos veículos sem depender imediatamente de uma ampla infraestrutura nacional de recarga para carros totalmente elétricos", explica.
Impactos variam conforme o tipo de veículo
O professor André Bernardo, também do Departamento de Engenharia Química da UFSCar, explica que a maior participação do etanol na gasolina pode afetar de maneira diferente os veículos.
Segundo ele, tanto o etanol quanto o biodiesel possuem menor densidade energética, fazendo com que os veículos percorram menos quilômetros com a mesma quantidade de combustível.
Nos veículos flex, a mudança tende a não provocar impactos significativos. Já nos automóveis movidos exclusivamente a gasolina — especialmente modelos antigos ou importados que não são flex — a nova mistura pode reduzir o desempenho e aumentar o desgaste de alguns componentes.
"Com mais etanol na gasolina, os carros vão rodar menos quilômetros com o tanque. Os veículos flex praticamente não sentirão diferença, mas os carros que não são flex podem apresentar problemas mecânicos, como entupimento de bicos injetores", conclui o pesquisador.
Texto: Pedro Guilherme
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