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Caso de Sam Neill evidencia avanço de terapia celular desenvolvida pela USP com quase 90% de eficácia contra câncer no sangue

Publicado em 14/07/2026 Por Rádio UFSCar Ouvir Baixar
Caso de Sam Neill evidencia avanço de terapia celular desenvolvida pela USP com quase 90% de eficácia contra câncer no sangue

Foto: Reprodução


Tecnologia brasileira produzida no Hemocentro da USP de Ribeirão Preto apresentou resultados promissores no tratamento de pacientes com leucemia e linfoma e pode ampliar o acesso à terapia pelo SUS.


O diagnóstico de câncer do ator Sam Neill, conhecido mundialmente pela franquia Jurassic Park, chamou a atenção para os avanços da imunoterapia. Em 2023, o artista revelou que enfrentou um linfoma e passou por tratamentos que utilizam o próprio sistema imunológico para combater a doença.


No Brasil, uma pesquisa desenvolvida pelo Hemocentro da USP de Ribeirão Preto tem alcançado resultados promissores com esse mesmo princípio. Uma terapia celular CAR T produzida integralmente no país apresentou quase 90% de eficácia no tratamento de pacientes com linfoma e leucemia, dois tipos de câncer do sangue.


A terapia celular CAR T consiste em coletar linfócitos T, células do sistema imunológico do próprio paciente, e modificá-los geneticamente em laboratório para que passem a reconhecer e atacar especificamente as células cancerígenas. Após essa modificação, as células são reinfundidas na corrente sanguínea do paciente.


Segundo o médico hematologista e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, Diego Clé, o receptor criado em laboratório é desenhado para reconhecer um alvo específico.


"A gente pega os linfócitos T da corrente sanguínea dos pacientes e, através de engenharia genética, faz com que eles expressem um novo receptor, chamado CAR. Quando essas células retornam ao organismo, reconhecem o alvo para o qual foram treinadas e ativam mecanismos que levam à morte da célula doente."


Além da alta efetividade, a terapia apresenta outra vantagem importante: os efeitos colaterais tendem a ser mais leves do que aqueles provocados por medicamentos ou tratamentos convencionais.


Embora a terapia CAR T já exista comercialmente, sua utilização ainda é limitada pelo alto custo. Atualmente, o tratamento custa cerca de R$ 2,5 milhões por paciente, além de depender de um número reduzido de laboratórios e farmacêuticas capazes de produzi-lo.


A principal inovação da equipe do Hemocentro da USP foi desenvolver uma terapia CAR T 100% nacional, utilizando tecnologia, expertise e insumos próprios, dominando toda a cadeia de produção.


De acordo com Diego Clé, isso permitirá reduzir significativamente o custo do tratamento.


"A gente estima que o nosso produto vai chegar a um quarto ou até um quinto do valor atual, dependendo da escala de produção. Isso é muito importante para o nosso sistema de saúde."


Segundo o pesquisador, cerca de 3 mil brasileiros precisam da terapia CAR T todos os anos apenas para o tratamento de linfoma e leucemia. Nos valores atuais, oferecer esse tratamento a todos consumiria praticamente todo o orçamento anual destinado à oncologia no Ministério da Saúde, tornando sua incorporação ao SUS inviável.


Outro impacto destacado pelo estudo é o fortalecimento da pesquisa científica nacional. A estrutura criada no Hemocentro da USP reúne pesquisadores, equipes clínicas e apoio das principais agências públicas de fomento, como FAPESP, CNPq e Finep, permitindo que pesquisas básicas sejam transformadas em tratamentos para pacientes.


Além da oncologia, a expectativa é ampliar a aplicação da tecnologia para outras doenças. Os próximos estudos deverão avaliar o uso da terapia CAR T em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico e miastenia gravis, aproveitando toda a estrutura científica e regulatória construída pelo projeto.


Os estudos clínicos com pacientes portadores de linfoma e leucemia seguem em andamento no Hemocentro da USP de Ribeirão Preto e devem continuar por pelo menos mais um ano, até que os resultados sejam consolidados. Segundo os pesquisadores, o objetivo é ampliar o acesso da população brasileira às terapias celulares avançadas e colocar o país entre os principais centros de desenvolvimento desse tipo de tratamento.


Texto: Daniel Monteiro e Isabela Gandini

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