Rico Dalasam – Orgunga

Rico Dalasam – Orgunga

“Negros gays rappers, quantos no Brasil? Devem haver vários, tantos tão bom quanto os foda que rima uma cota, tirando os que tão, né? E ninguém nota”. Se você nunca ouviu falar de Jeferson Ricardo da Silva, ex-cabeleireiro da cidade de Taboão da Serra, conhecido pela alcunha de Rico Dalasam desde que, orgulhosamente, se afirmou como o primeiro negro assumidamente gay fazendo rap no Brasil, é porque você não se ligou no que acontece de melhor no contexto do rap e do pop brasileiro há um bom tempo e, nas melhores das hipóteses, esteve tão ocupado com o seu próprio nariz neste último ano que mal reparou que, enquanto o mundo girava e clamava por representatividade no contexto sociocultural, a história da música brasileira já fazia questão de eleger suas novas vozes e líderes.

Vamos combinar que se tratando de rap (e da música, em geral) a questão da dominação masculina cisgênero e heterossexual é pura realidade, né não? Se a história do rap ainda caminha a passos curtos no sentido de dar o devido destaque às mulheres do movimento hip hop como BrisaFlow e Sara Donato, em se tratando do espaço para personalidades como Dalasam e MC Gra, que fogem ao padrão heteronormativo presente no estilo, a situação não podia ser um pouco melhor. E como bem afirma o rapper no verso “Me chama o Zeitgeist que eu vou daqui”, é chegada a hora e vez desses artistas darem o close e representarem em peso a voz daqueles que não se contentam com os mesmo destaques nas capas e noticiários mais tradicionais.

ricodalasam

Orgunga, primeiro disco do rapper, que ao pé da letra é a abreviação do seu discurso pró orgulho negro e gay, surpreende com o tamanho salto de qualidade fonográfica, devido às boas parcerias nas batidas com Mahal Pita, Filiph Neo, Pifo, Arthur Joly, Xuxa Levy e Duani, quando comparado ao EP Modo Diverso (2015); em se tratando de temática, é também mais ousado e objetivo que seu primeiro registro. O lado A é exatamente o que o rapper promete na concepção do disco, seu orgulho, sua maior conquista, exposto e biografado em linhas de maneira enfática que versam sobre vencer e se firmar a partir da própria cultura, com o próprio esforço, sendo negro e gay em uma sociedade maçante e opressora; com quatro faixas que vão do trap à música africana e oriental (principalmente árabe) para provar que Dalasam é muito mais do que uma possível ideia ou uma modinha passageira, ele é fato realizado e, veja só, tem muito pra dizer. Enquanto que “Milimili” questiona a secular apropriação cultural praticada pelos brancos, o remix de “Riquíssima”, presente no primeiro EP, e a biográfica “Dalasam” abrem o caminho para o single e hit “Esse Close eu Dei”, de longe a melhor faixa do registo, fechando o lado A com o melhor do artista em sua vertente mais pop.

Faixas mais íntimas e românticas como “Drama” e “Honestamente” dão início ao segundo momento, mantendo sempre a coesão do álbum em alto nível e apresentando também o necessário lado mais pessoal do rapper. E se cabe aqui uma crítica à Orgunga, ela se direciona exatamente às últimas duas faixas do registro; mais ousadas e dissonantes no contexto do disco, a radiofônica “Relógios” e o samba trap de “Vambora” poderiam ser o respiro criativo do artista em um trabalho mais extenso, e mesmo quebrando a linearidade sem comprometer a qualidade, as faixas acabam sobrando e confundindo o que podia vir a ser um disco rápido e muito objetivo.

Enquanto que a “geração do lacre” de Liniker, Tássia Reis, Karol Conka, As Bahias e a Cozinha Mineira e o próprio Dalasam escrevem mais um capítulo da música brasileira contemporânea com discos como Orgunga, outros ainda parecem fechar os olhos e se recusam a dar o devido destaque àqueles que não só se arriscam a falar, mas que detêm a propriedade do discurso e incomodam muita gente entregando aquilo que prometem. Se o rap sempre foi feito de voz e atitude pra questionar e representar o meio do qual emerge, nada mais apropriado do que Rico Dalasam ser sim a voz e a vez de toda uma geração. E que responsabilidade hein.

Raul Ribeiro, programador musical na Rádio UFSCar


A seguir, a lista de faixas que você escuta de segunda a sexta às 10h. Você também pode ouvir o álbum na íntegra no domingo às 15h aqui na 95,3 FM, escute diferente!

Segunda-feira

1 – Milimili

2 – Riquíssima – Remix

Terça-feira

3 – Dalasam

4 – Esse Close Eu Dei

Quarta-feira

5 – Drama

6 – Honestamente

Quinta-feira

7 – Relógios

Sexta-feira

8 – Vambora

Compartilhar