Rádio UFSCar entrevista a banda Black Papa

Escrito por em 14/06/2016

No início de junho, a big band paulistana Black Papa lançou seu primeiro EP chamado Suor. O trabalho apresenta cinco faixas recheadas de muito groove e suingue com letras ásperas e sinceras.

Formada por Rafael “Bisquit” Moura no vocal, Rico Manzano no teclado, Raphael Becheli “Brecha” na guitarra, Ralf Jenger no baixo, Jorge Soul na bateria, Chico Toledo no trompete, Eudes Santos no trombone e Marcel Enderle no sax tenor; o EP foi gravado no estúdio C4 Flap, mixado por Fernando Sobreira Rala e Marcel Enderle, masterizado por Renato Soares e Felipe Aranha na bateria.

Para conhecer melhor a Black Papa, nós fizemos uma entrevista com os caras. Confere aí.

Entrevista

Hugo Safatle: Vocês são uma banda bem recente e acabaram de lançar o primeiro EP Suor. Como surgiu a banda? Vocês juntaram os oito integrantes de uma vez para o primeiro ensaio?

Banda Black Papa: Na verdade a banda já tem quase 3 anos, entretanto tivemos várias formações no decorrer desses anos, dos integrantes da primeira formação restaram o Rico Manzano (teclado), o Rafael Moura “Bisquit” (vocalista) e o Raphael Becheli “Brecha” (guitarrista). A banda surgiu literalmente em uma garagem, a garagem do Rico, foi um encontro bem inusitado que uma amiga nossa, a Vivi (ex-backing vocal), apresentou o Rico para o Bisquit, Brecha e para o Marcelo (ex-baterista), daí surgiu a banda, que nem tinha nome na época, chamamos também o Rafael Nakazato (ex-baixista) para integrar a banda, a nossa ideia era estudar o Funk e suas vertentes, e assim começamos os ensaios tocando os covers de Curtis Mayfield, Funkadelic, Parliament, Sly and the Family Stone, James Brown entre outros. Na metaleira muita gente já passou pela Black Papa, com destaque para o Bruno Lúcio (ex-trompete) e Felipe Nossor (ex-saxofonista). Também vale citar que a bateria do EP foi gravada pelo nosso saudoso Felipe Aranha, que esteve conosco por quase um ano. Aos poucos a banda foi tomando uma forma mais fixa e chegamos à formação atual, mas sabemos que cada um que passou pela banda foi muito importante para sermos o que somos hoje em dia.

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Hugo Safatle: Vocês buscam trazer uma mensagem política e ideológica no som da Black Papa, além do peso dos instrumentos. Como funciona o processo de criação e composição? Com oito cabeças trampando juntas rola briga de vez em quando?

Banda Black Papa: Alguém sempre traz uma letra, uma base, uma melodia ou uma música mais estruturada já, e a banda, em conjunto, dá o seu retoque final, cada um coloca o seu instrumento, a sua interpretação e dá suas ideias para aprimorar a música. Apesar da composição nascer de um ou mais integrantes, o resultado final do trabalho é coletivo. Desentendimentos sempre rolam e sempre vão rolar, uma banda é uma família, nós convivemos juntos, mas sempre estamos dispostos a nos unir para um bem maior, que é o projeto Black Papa. Precisamos acalmar nosso ego, e no mundo da música parece que ele se aflora ainda mais, mas esse é um trabalho cotidiano de cada individuo e estamos, como todos, nessa luta também.

Hugo Safatle: Muita gente acha que o funk é só dança e alegria, sem espaço para tratar de assuntos sérios. Como é inserir críticas sociais e políticas em canções tão alto astral, como é o caso das faixas “Não Vamos Nos Calar” e “Em Nome de Deus”?

Banda Black Papa: Na verdade o Funk é muito mais do que dança e alegria, a dança e alegria são a expressão dele. O Funk surgiu como forma de protesto artístico de músicos negros norte-americanos em meados da década de 60, que se identificavam com aquele estilo musical que estava sendo criado por negros e que era tocado, a princípio, para negros, reforçando a cultura black, abrindo espaço para o negro que era reprimido por se expressar, seja pela música ou seja pela dança. Já a palavra Funk, quer dizer “Suor”, que tem sua origem na palavra “lu-fuki”, da língua africana kikongo, que significa odor corporal. Apesar de parecer ofensiva essa denominação, os músicos negros de jazz da época utilizam a palavra Funky ou Lu-Fuki para elogiar as obras musicais de artistas, querendo dizer que aquilo veio por meio de muito esforço, trabalho duro e suor! E também suar é natural, é a expressão do ser humano por meio de sua atividade física, ou seja, não há nada de errado em suar, e nosso EP começa bem por aí!

As críticas sociais e políticas surgiram naturalmente em nossas letras, já estávamos engasgados com isso há algum tempo e de alguma forma isso tinha que sair. Sempre quisemos utilizar a música como meio de comunicação, e se podemos conseguir unir a dança, o alto astral e a energia positiva com uma letra de conteúdo político e social, ou seja lá qual for, pois também versamos sobre questões que vão do Taoísmo de Lao-Tsé à história de Maria Bonita e Lampião, para nós será sempre um prazer compartilhar isto com o nosso público. Também enxergamos esse momento da nossa história como politizador, não temos mais espaços para pessoas em cima do muro, pois os que se consideram em cima do muro já fazem parte de um lado e mal sabem, e quando falamos em lados não estamos falando de partido A ou B, e sim de uma premissa fundamental para nós, você quer um mundo mais unido e igualitário ou mais segregado e desigual? O medo ainda nos torna inertes…

Hugo Safatle: Vocês têm o trabalho do George Clinton e de outros artistas dos anos 70/80 como principais referências. Na época do P-Funk, o funk e o disco eram totalmente pop. Na atualidade, esse gênero musical, principalmente no Brasil, vive no underground e no independente. Como a Black Papa vê essa cena atualmente? Vocês acham que existe uma cena do funk no Brasil?

Banda Black Papa: Sim, existe! De fato ela está um pouco apagada no Brasil, mas essa é uma de nossas missões, retomar essa cultura Funk/Soul no Brasil. Temos grandes nomes dessa cena musical, como Tim Maia, Di Mello, Lady Zu, Dom Salvador, Cassiano, Hyldon, Gerson King Combo, Ed Motta, Tony Tornado, Carlos Dafé, União Black, Banda Black Rio, Sandra de Sá, entre muitos outros, e a maioria deles estão na ativa até hoje! Na gringa o Funk é um pouco mais presente no mainstream atualmente, mas no passado teve luta franca contra a Disco, enquanto a Disco tomava o mainstream, o funk resolveu ficar no underground, daí nasceu o Hip Hop. Claro que o funk hoje está com outra roupagem, mas o hit do momento “Uptown Funk”, do Bruno Mars e do produtor Mark Ronson, é uma baita groove! Apesar do Funk não estar tocando em rádios e de não ser divulgado na grande mídia, é um estilo musical muito aceito pelo público em geral, então sempre haverá espaço para o Funk. Muitas pessoas se identificam com o nosso som pois realmente não existe muitas bandas de Funk novas, mas acredito que tudo isso seja um processo e, aos poucos, quanto mais bandas de Funk, maior a difusão desse gênero musical. É interessante também observar que existem muitas Web Rádios de Funk/Groove, como a Radio Good Stuff, e muitos DJ’s da nova geração que também divulgam o Funk/Groove, como o DJ Thiago Un e o DJ Chade ou da velha guarda como o KL Jay e o DJ Hum. Aqui eu poderia destacar 3 bandas como as principais novas bandas de Funk de São Paulo, como Charlie e os Marretas, Black Mantra e, claro, a Banda Black Papa! Quem sabe não sabe rola um festival de Funk em breve por aqui…

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Hugo Safatle: A gente sabe que tem muitas casas de shows que dão preferência pra banda cover, principalmente quando se trata de um grupo de funk soul que o pessoal quer ver, como James Brown, Earth Wind & Fire, Kool & The Gang, entre outros. Como a Black Papa, que faz um som autoral, lida com isso?

Banda Black Papa: A Black Papa começou como uma banda de covers e em nossas apresentações fomos aos poucos inserindo nossas músicas autorais. Apesar da galera sempre querer ouvir os clássicos de Funk, está cada vez mais claro para nós que a galera está vindo em nossos shows para ouvir as nossas músicas, o público está se identificando com a mensagem que passamos, com a performance e com o contexto todo que criamos no palco, baseado no Mito da Nave Mãe de George Clinton, na qual a Black Papa veio de Vênus para trazer “Paz e União”. Essa brincadeira toda criou uma identidade e adoramos ela, e a tal Nave Mãe está mais presente em nossas vidas do que esperávamos rs. É muito bonito ver as pessoas cantando junto nossas músicas e isso nos dá, cada vez mais, vontade de seguir fundo nisso tudo. Sobre as casas de shows, elas vão abrir espaço para quem chamar público, seja autoral, seja cover, ainda mantemos uma mescla entre canções autorais e covers em nossas apresentações para conseguirmos tocar em mais lugares, mas no futuro, com certeza, a ideia é não tocarmos mais covers em nossos shows, ou apenas um ou outro como forma de prestígio e não necessidade.

Hugo Safatle: Agora que o EP foi lançado, como vem sendo o recebimento do público em relação ao trabalho de vocês? Como tá agenda da banda? Tocar em São Carlos tá nos planos da Black Papa?

Banda Black Papa: Entendemos agora como uma nova fase da banda, temos um material autoral e uma equipe que está trabalhando conosco, e isso tudo tem gerado bastante resultado. Lançamos o EP no dia 06/06/2016 (666! rsss), e até o momento tivemos ótimas críticas e propostas (as pessoas também gostaram muito da arte do EP, que foi feita pelo Alexandre Minhá), as coisas estão acontecendo para nós, e com muito trabalho, esforço e suor temos convicção que as coisas vão dar certo. Enfim, até o momento três rádios já se interessaram em tocar nosso som, estamos com shows marcados em São Paulo para junho e julho, estamos fechando shows no interior de São Paulo para julho, agosto e setembro, e estamos com boas propostas de shows fora do Estado também. Aliás, o show de lançamento oficial do EP será dia 18 de junho no Grazie a Dio.

Nunca tocamos em São Carlos, mas sabemos que existem ótimas casas de shows e também o Festival Contato, seria um prazer para nós aterrissar a Nave Mãe por aí!

Hugo Safatle: Galera, valeu pela atenção. Se rolou alguma coisa que eu esqueci de perguntar, fiquem à vontade, o espaço é de vocês.

Banda Black Papa: Nós que agradecemos a oportunidade! Na verdade só queríamos agradecer a todos que apoiaram o Financiamento Coletivo do nosso EP, a Plataforma de Financiamento Coletiva “Partio” e todas as pessoas que acreditam e sempre acreditarem em nós. Um salve para todo vocês, para quem quiser nos conhecer melhor, aí estão as nossas redes sociais, material, matéria jornalística, site e etc.:

http://www.bandablackpapa.com

https://soundcloud.com/banda-black-papa

https://www.facebook.com/bandablackpapa?fref=ts

http://noisey.vice.com/pt_br/blog/black-papa-ep-lancamento

https://www.instagram.com/bandablackpapa/

https://twitter.com/bandablackpapa

https://www.youtube.com/channel/UCShbOSb5wclC1qMxXlKdu9A

Até mais, terráqueos!

Banda Black Papa

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