Pesquisadora da USP afirma que melhoria na distribuição da renda pode ter provocado reação conservadora

Escrito por em 06/06/2018

Pesquisadora da USP afirma que melhoria na distribuição da renda pode ter provocado reação conservadora

Mais de 20 pesquisadores de diversas áreas das ciências sociais realizaram um grande estudo sobre as desigualdades no Brasil. O resultado desse trabalho está livro “Trajetórias das desigualdades: como o Brasil mudou nos últimos 50 anos”. Na obra, Marta Arretche, professora da USP e coordenadora da pesquisa, destaca que há duas versões sobre essa realidade.

“A primeira argumenta que, durante o período democrático, a desigualdade no Brasil permaneceu constante, com os mais ricos se apropriando de um quarto da riqueza nacional. Essa versão é verdadeira e os trabalhos que a sustentam são muito convincentes”, disse. Já a outra versão diz que, durante o período democrático, a desigualdade no Brasil caiu muito, e caiu ainda mais rapidamente do que em outros países que lograram ser igualitários na mesma época. “Essa versão também é verdadeira”, explica Marta.

E por mais estranho que possa parecer, as duas versões são verdadeiras porque tratam de questões diferentes. A primeira trata da concentração da riqueza no topo da pirâmide, do quanto o 1% mais rico se apropria do total da riqueza nacional. A segunda trata dos outros 99%. E o que aconteceu nesse grande contingente de 99% foi um razoável grau de inclusão. No período democrático, de 1984 até 2015, os mais pobres tiveram ganhos relativos maiores do que os mais ricos. Houve inclusão no acesso ao sistema público de saúde e ao sistema público de educação; o salário mínimo real aumentou consideravelmente. “Esse foi um atributo da democracia brasileira”, comemora Marta.

A pesquisadora lembra que os maiores avanços em termos de inclusão social ocorreram durante os governos de esquerda, mas também ocorreram sob os outros governos, porque, no período de transição para a democracia, havia um entendimento bastante compartilhado de que a democracia não ia sobreviver no Brasil se não fosse reduzida a pobreza e a desigualdade. E foram criadas políticas para isso. Marta exemplificou sua afirmação citando a aprovação, em 2013, da Proposta de Emenda à Constituição que estendeu aos empregados domésticos os direitos trabalhistas usufruídos pelos demais trabalhadores urbanos e rurais. Essa extensão de direitos, que beneficiou os muito pobres, teria impactado fortemente o orçamento dos menos pobres que dependiam dos serviços dos primeiros.

“À medida que o salário desses trabalhadores menos qualificados começou a crescer, por força da lei, a classe média se sentiu prejudicada. Esta perversidade, característica de sociedades muito desiguais, é um grande desafio para a democracia”, diz Marta. Mais informações sobre o livro “Trajetórias das desigualdades: como o Brasil mudou nos últimos 50 anos”, no site da Editora UNESP.

 


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