Um novo ponto de vista, por Guilherme de Carli: A falsa união

Escrito por em 22/06/2013

Há alguns dias escrevi um artigo a respeito das manifestações no Brasil. Eu estava otimista ao ver o povo se mobilizando e o governo tendo que alterar sua agenda por conta dos acontecimentos; até então as pessoas realmente pareciam estar unidas em seus gritos de protestos e palavras de ordem. Todo esse otimismo, infelizmente, perdeu-se com os últimos “protestos” ocorridos pelo país, principalmente no segundo ato de São Carlos do qual participei.

Quando cheguei no Mercado Municipal de São Carlos- local marcado para a saída da manifestação que deveria lutar pela redução dos preços da passagem de ônibus, pela melhoria do sistema do transporte coletivo e pela não renovação do contrato da empresa Athenas Paulista-, senti uma grande satisfação ao ver a quantidade de pessoas ali presentes todas prontas para transformar a cidade e exercer conjuntamente a cidania. Passado esse impacto inicial, comecei a perceber os cartazes, os comentários, as bandeiras do Brasil e as caras pintadas com as cores nacionais exaltanto um patriotismo venenoso para o nosso ato. Havia também fotógrafos preocupados em registrar o evento com seriedade e pessoas preocupadas em registrar a si mesmas para postar mais tarde nas redes sociais (o que eu não acho errado quando se trata de estender a temporalidade de uma mensagem que foi feita nas ruas, mas meu pessimismo me leva a crer que não foi essa a intenção).
Na hora marcada, a multidão se pôs em movimento já com uma trajetória planejada, o que considero uma grande desvantagem por se tratar de uma obediência civil desnecessária e ilógica, afinal isso restringe a força e a imprevisibilidade da mobilização. A imprevisibilidade é uma arma política, com ela não se sabe por onde vamos e até quando vamos, causando assim uma tensão tanto nos participantes quanto nos governantes. A imprevisibilidade também impede que a PM tenha uma estratégia totalmente pré-estabelecida, obrigando-os a adaptarem seus mecanismos de repreensão à situação inusitada. Entretanto, parecíamos mais um bando de ovelhas bem treinadas pastoradas pelos agentes de trânsito, tanto que eu posso contar em uma mão as vezes que vi polícia nas ruas.
Com maior desgosto, ouvi cantarem o hino nacional, coros contra a presença de partidos, declarações generalizadas e fora do objetivo proposto, além de “sermões” contra aqueles que, na tentativa de salvar o movimento, subiam nos muros da prefeitura para “vandalizarem” com seus corpos o espaço público. “Sem violência”, berravam os escandalizados com os “arruaceiros”. O nacionalismo tomava conta das pessoas, que se diziam orgulhosas por serem brasileiras. Creio que o ensino de história, filosofia e política deve ser mais incentivado nas escolas, porque pelo visto muitos não percebem que o nacionalismo deu origem à xenofobia, ao imperialismo e aos governos totalitários e autoritários. Para amar o Brasil, não é necessário ser patriota, não é necessário que a nação se supervalorize em relação às outras.
No final dessa festiva passeata, quando as pessoas estavam com os braços cansados de segurar seus cartazes conservadores, o ato perdeu de vez o sentido e se transformou em um carnaval, com direito a cerveja, música e competição de skate. Nesse momento ouvi também estouros, apenas não sei se foi de caráter comemorativo ou uma intenção de assustar as pessoas. Sei apenas que saí de lá transtornado e decepcionado, quase sem esperanças com essa falta de informação histórica e política do povo. Pareceu tudo tão infantil.
Não quero aqui generalizar o movimento: havia sim muitas pessoas conscientizadas ou que pelo menos buscavam aprender o que de fato está acontecendo no país. Eu mesmo estou num constante aprendizado e agora procuro compartilhá-lo, com minhas limitações, a todos que procuram a reflexão e o debate. Também não estou apoiando atos de violência quando critico o caráter pacífico da manifestação, mas questionando a obediência civil e em que pontos ela é positiva ou não.
“O povo unido jamais será vencido”, concordo. Porém, quando ouço isso me pergunto: de qual povo estamos falando? Será que estamos excluindo alguém? Que tipo de povo queremos ser? Politizem-se!

-Guilherme de Carli

Guilherme de Carli atualmente cursa o segundo ano de Ciências Sociais na Universidade Federal de São Carlos, pesquisa ativismo artístico e intervenções urbanas como bolsista em Iniciação Científica CAPES e é membro do grupo de teatro TUSP.

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