Análise sobre as manifestações nacionais por Guilherme de Carli: O colapso do silêncio

Escrito por em 17/06/2013

Nós, cidadãos desamparados, já não suportamos o nosso próprio silêncio. Trabalhar e estudar pelo desenvolvimento do país parece não ser incentivo suficiente para a transformação do atual governo (concentrado no meticuloso jogo de interesses, que vai muito além da política) em um governo honesto e transparente, realmente preocupado com o povo.

Esse governo não só falhou em seu compromisso de garantir o direito a transporte, saúde, segurança e educação de qualidade, como também foi se desvinculando dos movimentos sociais a cada novo mandato.

A velha ânsia do brasileiro por mudanças foi finalmente concretizada após o anúncio dos aumentos das tarifas do transporte público em São Paulo.

Multidões vão às ruas, em várias cidades do Brasil, reivindicar melhorias e erguer a voz contra o descaso daqueles que detêm o poder. Como se não bastasse, enfrentamos também o risco de perder a pouca liberdade que nos resta com um projeto de lei que propõe incluir as manifestações políticas na lei antiterrorismo, com estatuto do nascituro, com PEC 37, que pretende tirar o poder de investigação do Ministério Público, e com negligência das instituições públicas.

A presidente, particularmente, seguiu uma agenda extremamente conservadora desde o início de sua posse: não assistiu aos povos indígenas, que infelizmente devem lutar contra os latifundiários mesmo depois de séculos, nem se pronunciou diante dos protestos contra os presidentes das comissões de Direitos Humanos, Meio Ambiente e Saúde, que são nada mais, nada menos do que um homofóbico racista, um vencedor do prêmio “Motosserra de Ouro”, e um deputado acusado de tráfico de órgãos, respectivamente.

A grande mídia, como era de se esperar, prossegue manipulando a verdadeira situação do que acontece nas ruas. Por outro lado, as redes sociais têm mostrado uma forte resistência contra essa distorção de fatos, possibilitando o compartilhamento de informações e denúncias do abuso da Polícia Militar, que há muito deveria estar extinta (aliás, que nunca deveria ter existido), mas que, pelo visto, o governo faz questão de manter ativa, como herança da Ditadura. Sentimos na pele o que Max Weber quer dizer quando define o Estado como o detentor do monopólio do uso da força.

Mesmo que a ordem do movimento seja pacífica, os ativistas estão sofrendo uma violenta repreensão, que torna o espaço urbano semelhante a um cenário de guerra civil, ainda que não haja reação por parte do povo, a não ser fugir das balas de borracha e das bombas de efeito moral.

Andam criticando por aí a ideia de que “o povo finalmente acordou”, uma vez que os movimentos feministas, negro e LGBTT não pararam desde seu surgimento. Mas a grande diferença (e trunfo) no movimento atual é que, devido a sua abrangência, pessoas de todas as partes se uniram, transpassando os limites da academia ou da política partidária e quebrando com a dicotomia “minoria/maioria”. Temos, inclusive, apoio internacional: brasileiros e pessoas de outras nacionalidades levantam a bandeira para além de nossas fronteiras e vibram com nossos gritos.

Ao contrário do que normalmente se vê no Estado, está surgindo na sociedade um ambiente polifônico, no qual todos podem se expressar, dialogar e buscar conjuntamente por mudanças que beneficiam a todos, independente de classe, gênero, religião ou etnia. E vale ressaltar que as críticas aos gastos bilionários na construção de estádios para Copa tomam conta de várias publicações e vídeos na internet, o que mostra a formação de uma consciência cívica em grande parte da população. Sapere aude! Lutemos para que essa energia não perca sua força, façamos com que ela se espalhe e conquiste os corações de todo o Brasil e do mundo até que a política seja para o povo e que povo seja a política viva.

– Guilherme de Carli

 Guilherme de Carli atualmente cursa o segundo ano de Ciências Sociais na Universidade Federal de São Carlos, pesquisa ativismo artístico e intervenções urbanas como bolsista em Iniciação Científica CAPES e é membro do grupo de teatro TUSP.

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