Xóõ – Xóõ

Escrito por em 02/05/2016

“Um disco sobre amizade”, é assim que Vitor Brauer, vocalista e compositor da mineira Lupe de Lupe e da estreante Xóõ, define esta obra composta pela inquietude e genialidade de uma das figuras mais relevantes para o cenário underground brasileiro. Em parceria com diversos membros da atual cena indie carioca (Baleia, Ventre, SLVDR, Posada e o Clã, Cícero), seria desnecessário uma introdução ao som do supergrupo mineiro/carioca aqui, quando os próprios o fazem na última faixa do compacto “Créditos”. De qualquer maneira, é importante dizer que o registro é, antes de tudo, uma afronta à procrastinação e àquele costume tão nosso de deixar as ideias pra depois. Criado de maneira despretensiosa entre novos amigos, e que – mesmo produzido e mixado no período de apenas uma semana – já apresenta aquela maturidade necessária pra se tornar relevante.

Me arrisco a dizer que a primeira faixa do compacto “Passado Futuro” é o que de mais interessante rolou no ano, em se tratando de música brasileira, até o momento. A canção, inspirada na “Turn the Page, do britânico Mike Skinner, é basicamente uma aula de história e antropologia pra todos aqueles que acreditam que o mundo começou com Mark Zuckerberg monopolizando a internet. Vai dos mistérios do surgimento da humanidade até o “império de fazer a Rainha Vítória suar frio na nuca” pra concluir que, por meio do caos, todos nasceremos da morte. A música bem que poderia carregar o disco todo, que segue com mais sete faixas e alguns bons momentos, mas infelizmente a sequência não mantém a mesma pegada do ótimo single até o final. Vale torcer pra que em um próximo material (e aí sim, com mais planejamento) a banda consiga trilhar um objetivo musical mais coeso a partir de canções como esta. O casamento do spoken word tão verdadeiro do Vitor, com a levada moderna do hip hop jazzístico e guitarrado dos cariocas funcionou, e digo mais: funcionou muito bem.

xoo

“É Tudo Roubado” também merece atenção, já que nasce da boa sacada de trazer um apanhadão de frases tiradas de poesias, citações, músicas, filmes e etc. Uma ironia fina a respeito do triste mito da criatividade mágica. É como se com essa música o grupo gritasse “aqui é tudo roubado e descarado mesmo, e quero ver quem é que vai colocar a mão no fogo pra falar alguma coisa sobre “ser original” hoje em dia”; uma curiosidade quase besta é que a faixa ainda rendeu uma versão com a letra inteira rodada ao contrário pra rolar nos streamings da vida e evitar processos milionários nas costas da galera. Se não vale pela triste necessidade de fazer esse tipo de coisa, ao menos vale pela piada.

“Eu Te Amo” e “Mudança” são mais íntimas, mostram um desconforto e um tanto de desilusão com essas coisas todas do amor, sobrando pra “Cansado”, “Gente Boa” e “Questão de Opinião” expor as questões que permeiam o principal alicerce do disco: Será que estamos doentes? Será que estamos cansados e desiludidos? Será que temos consciência de quem nós somos e de nossa raízes? Ou só estamos assim porque já encheu o saco esse lance todo de joguinhos sociais numa modernidade tão digital e egocêntrica como a nossa? E nesse ponto a alusão explícita ao idioma Xóõ, aquele que fora registrado com a maior quantidade de fonemas no mundo, parece fazer sentido ao grupo que no fim das contas só quer tratar sobre identidade, cultura e comunicação – ou seja – nada melhor do que batizar a banda com o nome de um idioma pra transcrever a ideia.

Xóõ pode até não ser aquela banda brilhante que você vai apresentar pro amiguinho, com lágrimas nos olhos, perguntando porque raios ninguém escuta esse tipo de coisa. Até porque a probabilidade de ele não entender exatamente o que você tomou, pra curtir uma meia hora de um maluco cantando com o sotaque mineiro por cima dumas batidas quebradas, é alta. No entanto, se a maioria ainda vai virar o nariz pra esse tipo de som, a certeza é que outros devem se emocionar com a responsabilidade dos integrantes de apresentar um projeto singular, tão bem desenvolvido e em tão pouco tempo. Tem qualidade, tem contexto, tem mensagem e o principal: é sincero do começo ao fim. Aproveita que não faz nem um mês que o disco saiu e corre pra conhecer antes que os caras lancem coisa nova e isso aqui já vire história também.

Raul Ribeiro, programador musical na Rádio UFSCar


A seguir, a lista de faixas que você escuta de segunda a sexta às 10h. Você também pode ouvir o álbum na íntegra no domingo às 15h, aqui na 95,3 FM, escute diferente!

Segunda-feira

1 – Passado Futuro

2 – É Tudo Roubado

Terça-feira

3 – Cansado

4 – Gente Boa

Quarta-feira

5 – Eu Te Amo

Quinta-feira

6 – Mudança

7 – Questão de Opinião

Sexta-feira

8 – Créditos

Marcado como

Opinião dos Leitores

Deixe um Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos Obrigatórios *


Rádio UFSCar

Tocando agora
TITULO
ARTISTA