Valciãn Calixto – Foda!

Escrito por em 20/06/2016

No final de março, o músico e compositor piauiense Valciãn Calixto, membro do power trio Doce Sal, lançou seu primeiro disco solo chamado Foda!. Assim como Jonathan Tadeu em Minas Gerais, Valciãn faz parte da geração perdida de Terezina, artistas renegados cujo trabalho não passa perto do mainstream, contudo, carrega em si um enorme valor artístico, cultural e social. Afinal de contas, parafraseando o escritor e jornalista austríaco Ernst Fischer “Numa sociedade decadente, a Arte, se for verdadeira, deve também refletir decadência e, a menos que queria trair sua função social, a Arte deve mostrar o mundo como mutável e ajudar a mudá-lo”.

Com uma criatividade singular, Foda! não economiza no experimentalismo e cria um amálgama de ritmos que dão origem à atmosfera perfeita para a poesia lamuriante de Valciãn, que fez todos os arranjos do disco, fora a bateria que foi gravada por seu irmão Marciano Calixto. O álbum foi gravado no ATM estúdio em Terezina e conta com a mixagem e masterização de Arthur Raulino, além das participações de Eryka Alcântara, Agostinho Torres, João Pedro, Ronnyel Seed, Heitor Matos, Joniel Santos entre outros.

Para conhecer melhor o trabalho de Valciãn Calixto, fiz uma entrevista com ele.

Entrevista

Rádio UFSCar – No disco Foda! você trabalha com diversos ritmos diferentes, da regional marcha-rancho ao famoso axé passando pelo rock. Como você chegou a essa sonoridade?

Valciãn Calixto Quando eu era criança meu pai tinha uma banda de baile que tocava de tudo, meus irmãos já tocavam com ele, apesar de novinhos também, contudo eu era ainda mais novo e eles diziam: “tocamos de tudo, até macumba se o contratante pedir”. Então o que foi sucesso e rodou bastante nas rádios nos anos 90 entrava para o repertório dessa banda que se chamava Kura Musical. Mesmo que bastante alheio aos ensaios, o fato de eu fazer as tarefas do colégio na cozinha de casa ouvindo os músicos tocarem Daniela Mercury no terraço acabou marcando meu inconsciente. Meu irmãos cresceram bastante musicalmente com essa história de “tocar de tudo”, sabe, o Marciano (irmão que gravou as baterias do meu disco) consegue distinguir numa virada de bateria o lugar de cada tom, se a frase foi feita de trás pra frente, essas coisas. O Marlúcio (que é meu irmão também, mas não participou do Foda!) quando conseguiu pesquisar e executar a clássica introdução da música Bate-Lata da Banda Beijo me impressionou bastante. Então vem daí a familiaridade com diversos ritmos, fora tudo isso tem a coleção de vinil do meu pai, rica nesse sentido e você encontra desde Pau e Corda, passa pela Família Plokes e chega a Os Incríveis, entre outras coisas.

Rádio UFSCar – Você afirma que o disco conta com a participação de membros da Geração TrisTherezina. O que é a Geração TrisTherezina? Você se considera parte dessa galera?

Valciãn Calixto – Sim. Tiramos esse nome de um poema-cartaz do Torquato Neto por uma questão de a cidade não nos ofertar muitas opções de escoar e realizar nossas produções, tanto que algumas bandas do coletivo ainda nem conseguiram gravar e lançar por conta dessa dificuldade. Teresina é sufocante por isso, como pelo próprio clima também, há um período do ano conhecido como “B R O BRÓ” (diz-se do período que compreende os meses terminados com “bro”, ou seja, de setembro a dezembro) em que as temperaturas ultrapassam ou alcançam diariamente 40 graus, soma-se a isso a baixa umidade do ar, nem 30% da capital é saneada, o que facilita a proliferação de doenças, surtos de dengue, principalmente. Nossos índices de suicídio são vultosos e não há nenhuma frente de atuação visando a compreensão e prevenção desse fenômeno, agora recentemente tivemos três casos de estupro coletivo em menos de um mês e em diferentes municípios do Piauí. Por tudo isso que citei, entre outros fatores, TrisTherezina, com grafia provinciana mesmo, é para que possamos superar isso e nos reconhecermos enquanto um grupo de amigos que tenta produzir a todo custo, vencendo dificuldades, unindo forças e lançando discos, livros, hqs ou o que for para o mundo. Nada tem sido fácil, tampouco impossível.

valciancalixto

Rádio UFSCar – De fato, não é todo dia que chega um material do Piauí para nós. Como é o underground e a cena independente em Piauí? Quais foram as dificuldades que você enfrenta e enfrentou durante a produção do seu primeiro disco Foda!? No que diz respeito ao lançamento do álbum, como tem sido a recepção do público em relação ao seu trabalho?

Valciãn Calixto – Cada dia mais as bandas têm registrado seu material com frequência um pouco maior e qualidade melhor também, coisa que artistas dos anos 80 daqui não conseguiram tanto, por exemplo. Todo dia nasce uma banda nova e todo dia morre uma banda velha ou mesmo nova em Teresina. As próprias bandas têm organizado seus shows, por vezes misturando a turma autoral com a turma cover numa tentativa de conquistar público para as autorais, não sei o quanto isso funciona, mas tem rolado. Dizer que a cena não tem apoio público quase nunca já é de se esperar, por isso a Geração TrisTherezina decidiu fazer as coisas por conta própria, explorando ao máximo nossos limites. Em linhas gerais ainda há pouquíssimos lançamentos, pouquíssimos espaços para shows autorais e público também. Penso que o grande desafio é vencer a resistência do público e essa é uma matemática inexata para quem mexe com isso.

Acho que a maior dificuldade para gravar meu disco foi financeira mesmo. Dos poucos estúdios de gravação que existem na cidade, poucos possuem preço acessível e os que possuem esse valor acessível são bastante procurados e com isso são bem disputados, acabou que meu disco levou seis meses, praticamente, para ser finalizado por conta de agendamento de horário.

Já sobre a recepção, às vezes sinto que o disco tem sido mais ouvido e falado fora do que aqui no Piauí e é muito louco pensar isso, saber, por exemplo, que amiga minha só foi ouvir meu disco porque alguém de quem ela é a fim ouviu e comentou com ela hahahah, olha que loucura. A positividade da repercussão do Foda! em outros estados tem sido boa porque parece que tem impressionado uma galera que meio que desacreditava de mim e da própria música feita por piauienses como um todo. E agora com os shows de lançamento, o interesse da galera está aumentando, o que é ótimo.

Rádio UFSCar – A meu ver, Foda! vai além de apenas um disco, ele é um grito de fúria, um manifesto musical, um punk capaz de navegar em outros ritmos. Você vê o álbum assim? Você acha que seu som contribui para alguma transformação cultural na cidade? Como despertar a consciência coletiva para os temas abordados no disco, como a violência contra a mulher, por exemplo, tema presente na terceira faixa “Sobre Meninas e Porcos”?

Valciãn Calixto – Às vezes eu penso que o disco tem muita informação, seja instrumental ou com o discurso poético, talvez seja presunçoso eu pensar assim, mas estou me baseando no que você mesmo citou na pergunta. Então eu vejo a música como suporte para várias outras coisas, meu entendimento de Arte parte daí, de uma produção que dialoga com outros segmentos, podendo, inclusive, alterá-los a partir da mudança (comportamental, intelectual, corporal etc) que seus agentes por ventura venham sofrer. Tem muito daquela coisa de “estruturas estruturalizadas estruturantes”, nesse sentido o Foda! pode ser um grito, um tapa, um rebolado e o silêncio que provoca desconforto. Quantos anos mulheres e mais mulheres calaram os abusos que sofreram desde o início da humanidade? Parte desse silêncio, uma pequeníssima parte desse silêncio está na faixa “Sobre Meninas e Porcos”, com participação da Eryka Alcântara, integrante da Geração TrisTherezina ou na faixa “Rupy” ou em “Núcleos de um Romance Engavetado” como nas outras músicas do álbum. Todas as pessoas que falaram comigo sobre meu disco comentaram que foi uma experiência nova, diferente, se isso não é despertar a consciência coletiva é pelo menos uma cutucada nessa consciência, então é isso, fazer as pessoas terem um estalo e passarem a pensar com maior frequência em determinados assuntos, é um dos objetivos do disco.

Rádio UFSCar – O que podemos esperar do Valciãn no futuro? Muitos shows marcados? São Carlos tá na rota?

Valciãn Calixto – Esse ano ainda devo lançar mais um material, ainda sem data definida. Estou desenhando alguns clipes na cabeça para passar pro papel. Os shows estão começando a aparecer, mês que vem vamos fazer um evento com todas as bandas da Geração TrisTherezina que vai ser foda também. E mais já para o finalzinho do ano, se der certo uns contatos que estou levantando, posso aparecer pelo Rio e São Paulo hahah, então São Carlos pode ser que role, principalmente se vocês me convidarem.

***

Observando a música não só como um produto, mas como uma forma concreta de expressão cultural e artística, o trabalho de Valciãn Calixto reflete não só a realidade da sua região, o Piauí, como a de todo o Brasil. A geração TrisTherezina, além de cutucar a ferida aberta da nossa sociedade, busca forças para cicatrizá-la e curá-la. As tragédias e desgraças também despertam a empatia, sentimento compartilhado com a música de Valciãn. Em Foda! as correntes são quebradas não apenas na intensa lírica das canções, mas também na revolução musical que é ouvir o rock em perfeita harmonia com o axé e a psicodelia dentro da seresta. Pode ser que a geração perdida de Terezina não carregue uma legião de fãs, mas o seu som e suas poesias já entraram para a história e registra para o mundo, e suas gerações futuras, que algumas pessoas decidiram não se calar e que não se calarão. A história da música piauiense e brasileira será marcada por um grupo de artistas como Valciãn, que de maneira verdadeira e inovadora nos presenteou com uma obra muito foda!

Por Hugo Safatle, programador musical na Rádio UFSCar 95,3 FM


A seguir, a lista de faixas que você escuta de segunda a sexta às 10h. Você também pode ouvir o álbum na íntegra no domingo, às 15h, aqui na 95,3 FM, escute diferente!

Segunda-feira
1 – Agarrado à Minha Frustração
2 – Cerimonialista

Terça-feira
3 – Sobre Meninas e Porcos (part. – Eryka Alcântara)
4 – Marcha-Ranço

Quarta-feira
5 – Pathos
6 – Teoria do Abacaxi

Quinta-feira
7 – Engomando a Calça com Ednardo
8 – Rupy

Sexta-feira
09 – Núcleos de um Romance Engavetado (part. Agostinho Torres, João Pedro, Ronnyel Seed, Heitor Matos e Joniel Santos)
10 – As Incursões de Marco Polo Pelo Interior do Piauhy

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