Tulipa Ruiz – Dancê

Escrito por em 18/05/2015

Se por um lado a denominação “música pra dançar” tem servido muito bem àquelas canções que mal nascem e já caem no consumo popular (e posteriormente não servem pra muita coisa além da baladinha nostalgia); por outro, a mesma denominação é sempre colocada como um território seguro para o artista, de aceitação e diversão garantida. Neste apunhalado enorme de canções de remelexo fácil, muita coisa (pra não dizer zuera) rola solta, e a produção é quase sempre super atualizada às tendências, fórmulas e etc… ficando difícil atingir um limiar em que algo realmente seja tocante pra alguém e ao mesmo tempo cabível de ser mandado às 3h da madruga de uma sexta-feira animada. Nada contra, não quero e nem devo dizer aqui o que é melhor ou pior para o gosto de cada um, é saudável e necessário que esse grupo de música também exista, mas fato é que nada de muito inovador tem sido vinculado em grande parte do que ali está – ou pelo menos, naquilo que mais rola nas rádios comerciais Brasil afora.

Portanto, antes de tudo, é admirável a coragem da paulista Tulipa Ruiz de estampar, logo de cara, o título Dancê para o seu mais novo e terceiro lançamento, produzido pelo irmão guitarrista e produtor Gustavo Ruiz, gravado nos estúdios da Red Bull Station e lançado em parceria da Pomello Produções e da Natura Musical. O disco chega por completo após os dois ótimos singles “Proporcional” e “Virou”, apresentados em abril e no começo de maio, e, não pra menos, tem sido apontado como um dos melhores álbuns do ano em nível nacional até agora.

Conheci o trabalho da Tulipa logo que ela lançou seu primeiro disco – Efêmera (2010) – e lembro de na época ter virado o nariz achando que tinha rolado um abuso da atmosfera “hippie” em seu trabalho, apesar do inegável talento da garota pra cantar e escrever. Com Tudo Tanto (2012) o amadurecimento aconteceu e canções mais interessantes apareceram. Com Dancê (2015), só o fato da cantora ter conseguido se desvincular de certas amarras ainda atreladas ao conceito fajuto de “MPB” (aquele que quer dizer o que música popular brasileira é ou deveria ser), e ter se arriscado a trazer um disco tão divertido de se ouvir, sem a pretensão de querer ser encarada como a nova realidade da música brasileira, já me fez valer a ideia de que o novo lançamento é mesmo o melhor da discografia da cantora.

“Prumo”, a primeira canção do álbum, traduz as ideias de Tulipa para o novo trabalho: muito groove, letras diretas, pouco requinte e o principal: sem escorregar na banalidade. “Proporcional” segue a mesma linha, usando e abusando do set de metais no arranjo e com uma letra divertidíssima sobre as diferenças complementares do amor. “Reclame” e “Tafetá”, a última feita em parceira do compositor e pianista acriano João Donato, são dois sambinhas socialite meio bossa meio groove. “Elixir” e “Jogo do Contente” são pra colocar o volume no talo, o groove das três primeiras músicas se mistura com uma energia rock’n’roll sem perder o passo, melhores do álbum. “Virou”, a parceria com a dupla Felipe e Manuel Cordeiro, começa como a canção mais pop do disco e termina em uma mistura “Brasil latinidades” muito caracteristica da dupla de compositores, melodia deliciosa e arranjos de guitarra bem trabalhados ao longo da música, sucesso na certa. Com direito a oitavadas marcadas no baixo e guitarrada da funk music, a paródia “Físico”, feita em parceira do produtor de longa data Kassin, vem como o último suspiro pop e dance do álbum, antes do mesmo caminhar pro seu final no smooth jazz de “Oldboy” e na belíssima “Algo Maior”, com o Metá Metá, fechando o disco em grande estilo e com energia de sobra pra ser levada aos shows.

O terceiro lançamento de Tulipa Ruiz é um convite bem intencionado a dança sem exageros, ao amor e ao desapego. E como numa noite divertida e inesquecível com as pessoas que realmente importam pra você, tem de tudo pra ser guardado com carinho no coração. Longe de ser encarado como um disco de músicas passageiras, a cantora conseguiu ser objetiva e relevante em seu trabalho mais alto astral, provando que o mundo pode ser mais leve enquanto dançar for a maneira mais bela de se levar a vida.

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 10h, na Rádio UFSCar:

 

Segunda-feira

  1. Prumo
  2. Proporcional

Terça-feira

  1. Tafetá
  2. Elixir

Quarta-feira

  1. Reclame
  2. Expirou

Quinta-feira

  1. Jogo do contente
  2. Virou

Sexta-feira

  1. Físico
  2. Old boy

11. Algo maior

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