Romulo Fróes – Barulho Feio

Escrito por em 29/09/2014

 Sinônimo de barulho é ruído, que pode ser associado à percepção acústica e entendido como poluição sonora não desejada, um som que incomoda como o ruído branco, o chiado caraterístico do chuvisco de um sinal televisivo. Mas também pode ser um ruído visual, se referindo à granulação de uma fotografia de baixa definição, que deixa os contornos embaçados. Nos dois casos, o barulho pode se tornar um elemento que define uma escolha estética.

 Quinze faixa emendadas pelos barulhos cotidianos da cidade, vozes, gritos, sussurros, murmúrios e interferências emergem entre uma faixa e outra, criando, como diz  Romulo, uma espécie de plano sequência sonoro de um  filme que eu imagino em preto e branco.

 A abertura é por conta do inconfundível timbre de saxofone de Thiago França que introduz a melodia rarefeita de “Não há, mas derruba”, uma sonoridade que vai além das expectativas ao intercalar o violão com o contrabaixo de Marcelo Cabral, enquanto o refrão é repetido, revelando novas soluções estéticas.

 E assim, na sequência se descobrem as fotografias que compõem o álbum,  com poucas informações distintas, entre pausas e crescendo, entre mudanças repentinas de tom e caídas silenciosas. Em “Espera” a voz quente do Romulo encontra a cantora Juçara Marçal e ganha uma pressão rítmica frenética. A seguinte “O” é, talvez, o episódio no qual a poesia urbana, que permeia o álbum  inteiro, se destaca em uma harmoniosa colaboração com o artista plástico e compositor Nuno Ramos, com o qual Fróes já tinha trabalhado deste Calado, seu primeiro disco solo.

 O barulho se torna mais presente na faixa “Cadê” em que um zumbido constante é um elemento sonoro essencial que de repente some, assim como em “Se você me quiser” a guitarra distorcida de Guilherme Held grita desesperada e nos remete às explorações extremas do “noise” de matriz rock.

 A faixa “Barulho feio” foi inspirada por uma polêmica surgida na produção da instalação de Nuno Ramos na qual Romulo participou, no âmbito da 29ªBienal de São Paulo, em 2010, rumores que alimentaram um sentimento de frustração, muito bem expressado num jogo no qual o violão e a voz disputam o mesmo espaço com uma guitarra em ressonância.

Num primeiro momento, Barulho Feio poderia parecer um disco sonolento e triste, mas já na segunda passagem podemos perceber que é muito mais, é uma coletânea de reflexões íntimas e introspectivas, nunca banais ou entediantes, sustentadas por uma trama musical que joga com todos os aspectos sonoros, sejam eles convencionais ou extremos.

O barulho pode ser feio, mas é necessário, e também pode ser bonito, depende de como você escuta.

 Paz!

 Mauro Lussi – coordenador da Programação Musical e DJ da Rádio UFSCar

 Segunda-feira

01. Não há, mas derruba

02. Na minha boca

03. Pra comer

Terça-feira

04. Como um raio

05. Poeira

06. Barulho Feio

Quarta-feira

07. Espera

08. Ó

09. Peixinho triste

Quinta-feira

10. Cadê

11. Se você me quiser

12. Noite morta

Sexta-feira

13. O que era meu

14. Para ouvir sua voz

15. A luz dói

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