Rodrigo Amarante – Cavalo

Escrito por em 11/11/2013

A espera por um voo solo de Rodrigo Amarante vem desde 2007, quando o Los Hermanos anunciavam seu hiato, porém, o disco nunca veio. Rodrigo distraiu seus fãs com projetos paralelos e parcerias musicais como se fugisse da responsabilidade e da exposição que um álbum solo acarreta, o que é compreensível. Fazer as coisas sozinho requer coragem, ainda mais para um artista como Amarante: não bastasse ter de encarar a cobrança do público, da crítica, além da auto cobrança, há também a gigantesca pressão e expectativa que uma carreira de sucesso carrega. Agora em 2013 o disco Cavalo chegou e a espera foi finalmente saciada

É importante relembrarmos um pouco do passado de Amarante antes de seguir para a resenha sobre o disco. O compositor surgiu como coadjuvante no Los Hermanos e pouco a pouco foi conquistando espaço até que, no derradeiro fim do grupo, dividia os holofotes pau a pau com Marcelo Camelo. É interessante notar que, ao fim do quarteto, Amarante havia ganhado a fama pela metade mais direta e visceral do Los Hermanos em contraponto à melancolia incontida e arrastada de seu companheiro de banda – fama que manteve em seus projetos paralelos com o Little Joy e a Orquestra Imperial contrastando bastante com o caminho trilhado por Camelo em sua carreira solo.

É surpreendente que Cavalo, primeira empreitada em que Amarante encontra-se só, tenha tanto em comum com a carreira de seu ex-parceiro. O disco é composto principalmente por um apanhado de composições lentas, por vezes melancólicas, calcadas em influências que vão da bossa ao post-rock, sempre cantadas com aquele vocal arrastado característico do hermano. Ao contrário do que se esperava, as composições solo de Amarante puxam mais para o lado de “Sentimental” e “Evaporar” do que para músicas como “Condicional” ou “Deixa o verão”, é seu lado mais contemplativo que transparece em Cavalo.

Surpresas à parte, o álbum é coerente em sua proposta. Segundo o próprio Amarante Cavalo é uma espécie de versão pessoal para o clássico Canções do Exílio de Caetano. Um disco concebido tanto no período de seu auto-exílio quanto no período de retorno, de forma que o disco é extremamente pessoal, discorre sobre voltar do exílio e se descobrir estrangeiro em sua própria casa ou, ainda, se descobrir estrangeiro para si mesmo. Assim, Cavalo marca a redescoberta de Amarante do que é seu, e por isso torna-se tão grandioso, percorrendo seu passado, seus fantasmas ocultos, numa verdadeira jornada de autoconhecimento.

O início do álbum tenta enganar, “Nada em vão” tem uma vibe esperançosa, romântica e parece ser a fresta pela qual os primeiros raios de sol adentram o quarto, aí já se percebe o quanto Amarante amadureceu desde o Los Hermanos. O artista mostra ter dominado a técnica das metáforas sonoras que vinha flertando desde “4”, e, no final da música, deixa implícito no som o que não pode ser carregado pela letra (“Quando eu vejo você / Me olhando assim / Vendo em mim / O que eu vejo em ti”). Na sequência, “Hourglass” segue no eixo ensolarado, sendo uma divertida faixa indie rock, com bateria eletrônica e teclados charmosos, acompanhados por uma linha de baixo pulsante e pelos vocais do cantor. As coisas começam a animar e Amarante já puxa as rédeas de seu cavalo para diminuir o trote. “Mon nom”, cantada em francês, serve pra preparar o solo para “Irene”, faixa-resposta à música de Caetano, a bossa lo-fi se arrasta por 3 minutos numa melancolia de partir o coração, cujo clima é cortado por “Maná”, a neo roda de samba dá uma animada nas coisas na hora certa, mas também é a última a agraciar Cavalo com seus raios de sol.

Escondidas nessa segunda metade maçante do disco estão verdadeiras joias na discografia de Amarante. “The Ribbon”, por exemplo, é uma faixa no mesmo patamar de “Sentimental” ou “Evaporar”, duas de suas melhores obras até então. O combo “I’m Ready” e “Tardei” poderiam ser usados facilmente como trilha sonora para um western spaghetti de primeira e marca o fim de Cavalo como um desses filmes: é palpável aquele plano típico de cavalgada rumo ao horizonte, pôr do sol pintando o céu de laranja, a imensidão do deserto a desafiar o renegado solitário.

Cavalo é um disco solo no sentido literal da palavra, uma incursão pela mente de seu talentoso compositor. Verdadeiramente emocionante.

Henrique Gentil Marcusso
Bolsista em Programação musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta às 9h45, na Rádio UFSCar.

segunda-feira
01 – Nada em vão
02 – Hourglass
terça-feira
03 – Mon nom
04 – Irene
quarta-feira
05 – Maná
06 – Fall Asleep
quinta-feira
07 – The Ribbon
08 – O Cometa
09 – Cavalo
sexta-feira
10 – I’m Ready
11 – Tardei

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