Peixefante – Lorde Pacal

Escrito por em 06/07/2015

Sempre gostei da ideia de álbuns conceituais, gosto do que eles representam. Um trabalho completo, com todas as músicas interligadas, esse tipo de disco tem uma pegada cinematográfica. Não é só ouvir as faixas, mas entrar no clima, viver outra vida e, ao terminar, retornar ao mundo real. Porém, você não volta o mesmo, parece que depois dessa experiência você amadurece. O principal exemplo disso são os trabalhos do Pink Floyd, mas eles não são os únicos.

Recentemente me deparei com a banda goiana Peixefante e seu primeiro álbum Lorde Pacal. Depois de ouvir os primeiros singles, “Por Baixo da Blusa” e “Cruzada Moderna”, a expectativa só foi aumentando em relação ao que viria e o resultado foi muito mais que o esperado. Lorde Pacal é profundo, místico e muito bonito.

Gravado, mixado, masterizado, além de toda parte artística, foi produzida pela própria banda. O disco tem sete faixas divididas em capítulos de uma mesma história, que é narrada por meio de riffs, efeitos e belas melodias. Mas para entender melhor essa história, é preciso saber quem é Pacal. Ele foi um rei maia que governou há muitos séculos. Segundo registros antigos de pirâmides e inscrições feitas pelo próprio Pacal, a humanidade é abençoada de tempos em tempos com a vinda de deuses que trazem ensinamentos sobre a ciência, como ciclos das colheitas e o eixo magnético da Terra. Como também, lições sobre a ilusória vida levada na Terra até nos elevarmos aos céus. Esses deuses são chamados de Serpentes Emplumadas. Sabendo disso, podemos agora entender melhor o álbum, que conta uma espécie de jornada do herói. O disco começa com o início da vida em comunidade, onde o homem pode viver, ao invés de sobreviver, assim, ele não se preocupa com os perigos do mundo e passa a refletir sobre questões que vão além da sua compreensão. A partir daí, vem a consciência de que o mundo que nós vivemos é muito maior do que parece. Então começa a viagem pelo cosmos em busca das respostas universais. A relatividade do tempo nós leva a pensar que dias viajando são anos na Terra e nos damos conta de que sentimos falta do que deixamos em casa, dos parentes, amigos e situações cotidianas. Percebemos que é hora de voltar. Porém, a Terra pode não ser mais a mesma, e a vida como conhecemos poderia não mais existir. Voltaríamos como seres extraterrestres para nossa própria casa. Nós retornaríamos como a serpente emplumada que desce dos céus trazendo luz e conhecimento. Profundo, não?!

Provavelmente essa é a principal qualidade da banda, que já no primeiro trabalho trazem um assunto complexo, a uma questão existencial do eterno retorno. Diferente de muitas bandas que almejam a venda e o mercado com seu primeiro trabalho, Peixefante seguiu seu coração e deixou seus pensamentos fluírem. Com uma sonoridade psicodélica, uma pegada de rock e, claro, um tempero tupiniquim, a banda constrói um som sólido. É bem possível que, ao ouvir o disco, venham alguns nomes na sua mente como Tame Impala e Os Mutantes, mas não se engane, Peixefante não faz o mesmo do mesmo. O som deles é único, cru e meditativo. Ao ouvir, parece que você realmente vê as cores e sente a temperatura. A segunda faixa “Por Baixo da Blusa” traz bastante esse sentimento, com uma melodia linda, um clima melancólico, mas não de tristeza, e sim de descoberta e despedida. Uma sensação que se aproxima daquele frio na barriga que a gente sente ao encarar algo novo. Talvez por esse ser o início da jornada.

Já a terceira faixa do disco “Tão Maior”, o nome já diz tudo. É uma canção grandiosa. Aqui você já percebe cores mais quentes. A quarta faixa “Cruzada Moderna” traz o silêncio seguido da explosão. O começo é sombrio, lento, cadenciado. Até entrar o a explosão do refrão, a combinação de riffs e efeitos, os vocais cantando em coro. “Entrestrelas” exala psicodelia. Completamente introspectiva, a música traz a sensação de que você está à deriva no espaço, vendo estrelas, planetas e cometas passar pela sua frente. “Simples”, penúltima faixa do disco, tem uma pegada folk, em que a voz e violão prevalecem, mas como é característico do som da banda, nunca é só voz e violão. A canção é regada a efeitos, riffs de teclado e os backing vocals dão aquela sensação de embriaguez, o que faz total sentido, já que aqui estamos completamente imersos. E por fim, “Lorde Pacal”, a canção da saudade, o retorno para casa como um ser transformado, iluminado. É a faixa mais progressiva do disco, repleta de altos e baixos. A música navega entre a psicodelia e o rock sem perder a elegância.

Peixefante não é aquela banda que se destaca por um instrumento específico. Não é o tipo de música que você escuta e fala “nossa, olha esse solo de guitarra”. Pelo contrário, o que torna o som deles tão bonito é exatamente o fato de todos os instrumentos estarem presentes na medida certa. Tudo soa bem, tudo se encaixa e se completa. Não é um disco para ouvir as faixas individualmente, mas sim uma obra para ser contemplada integralmente. Se na sua estreia a banda já ultrapassou barreiras, imagina o que o futuro guarda para eles? De uma coisa tenho certeza, Peixefante ainda vai dar o que falar.

Hugo Maia Safatle

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 10h, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

1. Intro

2. Por Baixo da Blusa

Terça-feira

  1. Tão Maior

Quarta-feira

  1. Cruzada Moderna

Quinta-feira

  1. Entrestrelas
  2. Simples

Sexta-feira

  1. Lorde Pacal

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