Paraleloplasmos – Lê Almeida

Escrito por em 06/04/2015

Sabe aqueles dias que você acorda meio assim… depressivo? Sim, às vezes rola, é normal, todo mundo tem dias ruins. Tem gente que sai pra dar uma volta, encher a cara, gente que engole pilha, e tem quem pegue aquela guitarra sujeira mal criada pra botar tudo pra fora logo de uma vez. É o clichê do rock, canções sobre garotas e garotos amargurados, apaixonados, em posição fetal no canto da cama, reclamando pelos cotovelos e por aí vai. Grandes clássicos foram feitos assim, a gente sabe, não precisa tirar uma de machão insensível e falar que esse tipo de coisa não é pra você, quando é sobre amores perdidos e paixões dilaceradas o ressentimento pode instigar a criatividade da melhor maneira possível, queira você ou não.

Mas essa resenha não é sobre clássicos da choradeira inspiradora. Na verdade nem é sobre um clássico, seria uma baita pretensão colocar tal alcunha para o mais recente lançamento do produtor e músico carioca Lê Almeida. Paraleloplasmos, segundo disco – entre tantos outros EPs e singles – da carreira do brother, foi gravado inteiramente por ele e acaba de ser colocado para download pelo seu próprio selo, a Transfusão Records (selo que, aliás, tem aparecido bastante por aqui), e será distribuído no Brasil pela parceria com a Deckdisc, e pela Lost Sound Tapes, IFB e Jigsaw Records, em cassete, MP3, CD e LP nos EUA.

Lê Almeida, que carrega elogios de canais gringos como o The Guardian, Vice e Rolling Stones, é, de fato, uma persona bem instigada. Não é de hoje que ele vem chamando a nossa atenção, já tem mais de 10 anos que a Transfusão tem se tornado referência quando o assunto é produção independente de qualidade. E falando assim, quase não parece que o selo começou no quintal do cara, lá na Baixada Fluminense, produzindo e gravando com muitos (muitos mesmo!) artistas e bandas que simplesmente viraram a cara para tudo o que de comercial e entediante estava rolando no rock  mainstream brasileiro (um beijo pro tiozão do “rock já morreu”). Hoje, com uma estrutura mais preparada e uma sede onde rolam shows, exposições, colagens, fitas cassetes, instrumentos e tudo mais (praticamente um sonho adolescente), batizada de “Escritório” – no centro do RJ, tem muito mais tempo, habilidade e, porque não, contatos.

E o novo disco é fruto disso tudo. Primeiro lançamento totalmente produzido em seu “Escritório”, Paraleloplasmos apresenta uma melhora perceptível em se tratando de arranjos e gravações. Tem violãozinho, teclado, percussão…Tudo no limite, é claro, para não perder aquele jeitinho lo-fi que tanto gostamos. Pra quem ainda não conhece o som do cara, vamos supor que você simplesmente pegasse carona na máquina do tempo de volta pros anos 90, época em que o Nirvana tocava na rádio, que os Smashing Pumpkins e o Dinosaur Jr. lançavam clássico atrás de clássico e que o Pavement era a coisa mais cool que podia existir. Na sua viagem pelas tretas do espaço tempo quem sabe você pudesse encontrar Lê Almeida, ainda novinho, olhando pra esses caras e pensando que quando crescer podia ser rockstar daqueles que jogam a guitarra no amplificador e pulam de costas na bateria.

Garage rock, fuzz, noise, shoegaze… chame do que quiser, a real é que o som do cara é típico de quem passou a juventude gastando os poucos trocados com pedais, distorções e baquetas quebradas. Só não pense você que estamos aqui falando do novo disco “metal castelo” da década, muito pelo contrário. Como eu estava dizendo, também teve o coração partido. Se os primeiros discos eram sobre trivialidades quaisquer, o novo registro tem um tanto de amor (ora amargurado, ora apaixonado), tudo fruto do seu recém termino de três anos de namoro. E quer saber? Isso aí é a cereja do bolo. Melodias simples e bem trabalhadas de voz e a guitarrinha sobreposta na sujeira é, definitivamente, a marca do cara. Todas aquelas bandas legais dos anos 90 ficariam de cara com a habilidade que o artista tem em produzir um som despretensioso sem soar inexperiente, um respiro em meio a tanta coisa sem graça que a gente vê por aí. Para os ainda não convencidos, recomendo a audição de “Fuck The New School”, novo hino indie de 11 minutos, “Céu do Quintal”, música com cara de The Cribs, e os singles “Bad Vibes” e “Indiscutível”, tudo rock sujinho, cantado em português, para aqueles que conseguirem ouvir a letra em meio a tanta camada de barulho.
Por fim, com o lançamento desse disco todo introspectivo de nome psicodélico, é esperado que saia pra dar um rolê por diversos festivais e palcos pelo Brasil afora. Como de costume, vamos ficar aqui na torcida pro cara visitar nossas terras são-carlenses. Não tenho dúvidas de que muita gente por aqui adoraria conferir essa nostalgia barulhenta toda que marca suas músicas!

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 10h, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. Desampar
  2. Ester
  3. Céu do Quintal

Terça-feira

  1. Voltando pro Interior
  2. Fuck The New School

Quarta-feira

  1. Bad Vibes
  2. Fim dos Céus

Quinta-feira

  1. Meus Argumentos
  2. Câncer dos Trópicos

Sexta-feira

  1. Indiscutível
  2. Desgraduado
  3. Lindomável
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