NÃ – Farpa

Escrito por em 23/05/2016

A banda paulistana lançou no final de abril o seu primeiro álbum chamado Farpa. Com uma sonoridade que incorpora elementos da música africana somado a riffs e arranjos do rock contemporâneo, a banda chega com um som único, forte nas ideias e pesado no som.

Esse grande grupo conta com Bjanka Vjunas, Fernanda Broggi e Rafael Noleto nos vocais, Thiago Babalu na bateria, Renato Ribeiro e Michel de Moura nas guitarras e Rogério Marttins no clarinete, percussão e samples. O álbum foi gravado no estúdio da Mata e no Family Mob no final do ano passado. A mixagem foi feita por Thiago Babalu e Fernando Sanches.

Para entender melhor sobre o grupo e seu excelente álbum, aqui vai uma entrevista que nós fizemos com a galera da .

Entrevista

NÃ é um projeto bem recente que traz o pessoal de várias outras bandas, dentre eles os ex-integrantes do Gigante Animal e três membros do Projeto da Mata, como foi o nascimento desse mega-grupo?

Bjanka: somos três do Projeto da Mata, eu, Michel e Thiago. Michel comentou comigo que ele queria sair com um projeto novo, com novas ideias e galera e já estava ensaiando com Thiago. Logo ele me chamou, já com as canções com uma certa forma e fomos ensaiar com a Fê e o Rafa. Depois chegou o Babalu pra bateria, que a gente conhecia do HAB com o Guilherme Valério, nosso amigo de Guarulhos e o Renato veio feito cereja do bolo pra selar com a gente.

Babalu: a banda é uma grande reunião feita por Michel e Thiago (que podem explicar melhor), mas eles saíram convidando um a um. Bjanka já tocava com eles no Da Mata, Fernanda e Rafael são parceiros deles da USP, na real, todos eles se conheceram por lá e já trocavam ideias. No fim da reta, Michel me chamou só pra arrumar as músicas e dar uma produzida (coisa nova pra mim) no disco junto com a banda; eles já tinham todo o repertório de Farpa. Como eu já tinha captado as músicas do Da Mata, rolou uma sincronia. Quando rolaram os primeiros ensaios, sentimos a necessidade de mais uma guitarra, foi aí que puxei o Renato, além de chapa de várias bandas, achei que a Nã tinha a cara dele. Num deu outra, rolou bonito! O Roger entrou já mais no fim da gravação do disco. Michel sentiu que faltava algo a mais e convidou o Roger, o processo dele foi bem livre, a gente disparava as músicas e ele gravava o que tava a fim, depois fizemos algumas edições e já era!

Podemos observar no disco Farpa grandes influências de ritmos brasileiros e africanos, porém, o som também tem um pé no rock contemporâneo, principalmente os timbres e arranjos do math rock. Como funciona o processo de criação do grupo? Como a união de oito cabeças chegou a uma sonoridade tão única?

Bjanka: diria que nossas influências são africanas, mais do que da África propriamente. O samba é uma criação brasileira, né? Nossa maior influência. Mas é de matriz africana. A gente vive num país miscigenado e que não valoriza sua cultura preta, sempre a diminuiu ou a tornou coisa exótica. Eu ouço muito samba, as músicas de terreiro, acompanho e partilho dos movimentos de mulheres negras e toda essa volta, busca nas raízes africanas pra enaltecer a cultura preta brasileira e isso é um processo de empoderamento do povo preto. Acho que por isso essas referências vem, é algo que a gente ouve, que a gente acha importante incorporar no som, mas acontecem de forma orgânica, isso surge pois tá na nossa referência sonora, além da referência política.

Babalu: as influências de samba e da África vem muito do Michel, Thiago, Bjanka, Fernanda e Rafael. As músicas são compostas por Michel e Thiago. As músicas já chegaram com uma estrutura mais ou menos pronta. Só precisava arranjar. Nos primeiros ensaios dei esse direcionamento mais no sentido de forma e do groove que daria a roupagem das músicas. Quando Renato entrou, a coisa da melodia tomou uma força maior. Quando estava perto de gravar o disco, todo mundo já  fazia os arranjos juntxs. Antes da minha entrada as músicas tinha mais essa cara samba, que eu achava massa, mas num sou bom pra samba, sou roqueiro durão. Acho que essa cara de rock contemporâneo, o math rock, veio muito por causa das baterias duronas que tentam conversar com a linguagem mais samba delxs. Na hora de gravar fui no rock mesmo, timbre sujão, bateria mais na cara e com mais sala na mix, tudo mais orgânico e sem muito tratamento.

Tanto o nome NÃ como o nome da faixa “Xangô”, primeiro single de trabalho de vocês, possuem referências à cultura indígena. De onde veio essa inspiração? Vocês trazem essa cultura apenas nas terminologias ou também procuram trazer essa influência para o som de vocês?

Thiago: a gente chegou nesse nome numa brincadeira. É complicado definir o nome de uma banda, tem que pensar em algo que se relacione bem, ou pelo menos não vá de encontro ao tipo de som, às ideias presentes nas músicas. Além disso, queríamos pensar num nome graficamente legal, algo que ficasse massa numa pichação, num adesivo. Algo que desse pra espalhar na cidade toda e que chamasse a atenção. Aí, numa brincadeira do nome o Renato disse, “Nã, de Jaçanã”. No processo de criação da banda e do disco Farpa, o estúdio que Babalu e Renato montaram no Jaçanã foi importantíssimo. Gravamos grande parte do álbum lá, e fizemos muitos ensaios ali também. E o Renato captou essa nossa relação com o Jaçanã, e propôs como brincadeira. Mas a brincadeira às vezes pode virar coisa séria e aí surgiu o nome! Depois que consideramos NÃ como nome da banda fomos atrás do significado de Jaçanã e outras relações que o nome suscitaria. Daí descobrimos que Jaçanã é uma ave, lembramos da Orixá Nanã…

A referência ao grupo linguístico Tupi que o nome levanta foi bem legal pra gente. Eu, Michel, Fernanda, Bjanka e Rafael temos contato com a antropologia e toda a problematização que a matéria coloca sobre as sociedades indígenas e a relação que estabelecemos com elas na história. “Unhas e Dentes” tem um verso sobre os Arawetes, o final de “Samba de Classes” tem relação com uma frase de um importante antropólogo brasileiro, Viveiros de Castro.

Além da sonoridade única, as letras são profundas e falam de temas como luta e resistência. De onde vem o interesse em tratar destes assuntos?

Thiago: Com exceção de “Santo Guerreiro”, todas as letras ou são do Michel ou são da parceria dele com outras pessoas. Em duas delas eu contribui. Vou falar aqui por mim, mas falando por todos. O interesse não só vem da nossa formação acadêmica, claro que a faculdade de ciências sociais contribui pra esse olhar mais focado nos conflitos que emergem na sociedade. Tem relação também com o tipo de música que escutamos. Vou falar de dois nomes da cena atual pra me explicar, mas outros compositores também influenciam a gente. Kiko Dinucci e Rodrigo Campos têm muito presente nas músicas deles o cotidiano, eles têm esse lance da “crônica” bem forte. Eles relatam aquilo que acontece num bairro, na vida de um cara, na relação entre duas pessoas. Acho que o cotidiano também aparece no som do NÃ, mas o cotidiano que aparece é um cotidiano de exploração, de conflitos, de manifestações, de desencontros. São os carros blindados, as balas da polícia militar, as quinas da cidade, os gritos das manifestações… os temas são de luta e resistência porque o que vemos no dia a dia é luta e resistência.

Bjanka: é, a gente acompanha de perto os movimentos sociais, as suas lutas. Acho que isso acaba sendo o que a gente tem a dizer, na verdade, é parte de nós. Eu sou militante do movimento feminista radical e esse tipo de atitude mais crítica é algo que a gente leva pra vida. Não à toa o som tem esse tom, nas interpretações das canções, na própria temática.

BANDA NÃ1                                                                                                                       by Ângelo Rubens

Vocês possuem algumas faixas como “Farpas/Samba de Classe” com uma pegada mais groove, dançante; já outras como “Unhas e Dentes” possuem uma pegada mais agressiva. Como o público vem recebendo o som de vocês? Quem cola nos shows é mais a galera do rock ou a galera do groove/mpb?

Babalu: Ainda somos muito novxs de NÃ, estamos no nosso quinto show, ainda não tem nada formado, o que é bom! Eu acho que por tocar em monte de banda de rock de estilos diferentes, posso trazer mais essa galera do rock, a galera que colava nos shows do Gigante, galera do hardcore que ainda tenho um contato e também por tocar com Guizado e o Hab, pude agregar a galera do instrumental, dos inferninhos… A Fernanda toca um monte no circuito de samba de SP com sua outra banda, O Banda de Tocaraí, Michel, Thiago e Bjanka tocam no Da Mata que é outra galera, eles também têm muito contato com a galera da USP e por aí vai… Mas de público não tem uma galera, um gueto… e quer saber? Acho que não estamos a fim de criar esse gueto não (eu mesmo não estou), acho que a música tem que chegar em todas as galeras. Tocar desde verdurada, balada da Vila Madalena a festivais independentes… A NÃ vai colar e fazer seu show…

Bjanka: eu tenho certas dúvidas se o nosso som é pra todo mundo. Sei lá, acho que a gente acaba produzindo pra pessoas feito a gente, dos nossos grupos. Mas o legal nesse encontro que virou a NÃ é que cada um trouxe pra ouvir a galera que acompanhava seus projetos paralelos. O Babalu e o Renato trouxeram a galera mais do rock, do hardcore.  A gente traz a galera que ia nos shows do Da Mata, uma pegada mais “ritmos brasileiros”, a Fê traz a galera que acompanha o Bando de Tocaraí, que é mais da night paulistana. Acho que a graça tá aí, na diversificação dos públicos. Já que a gente vem de lugares diferentes, isso pode aglutinar mais gente diferente pra ouvir nosso som. A gente quer tocar, né? Não importa muito onde ou pra quem, mas acaba que os nichos e interesses vão se criando.

O som da banda tem algumas semelhanças com o novo álbum da cantora Elza Soares e também com o som do Metá Metá. Vocês se veem como parte dessa sonoridade mais obscura e dissonante? Esse som mais “torto” pode ser considerado uma tendência da música brasileira contemporânea?

Babalu: eu (e acho que posso falar por todxs) conhecemos e gostamos muito da Elza e Metá Metá, se somos parte disso não sabemos porque não pensamos neles na hora de fazer nossa música, no sentindo de “faz tipo aquela música do Metá Metá”. Eu num sei classificar a nossa sonoridade, acho que por estar ainda no primeiro disco. Pra mim isso se firma mais a partir do segundo, terceiro álbum…  Sobre ser tendência ou não a gente não nos forçamos nem evitamos soar assim, rolou e agradou a gente. Mas sabe que eu penso nisso? Tem uns 6 anos que eu percebo os compositores brasileiros conversando e assumindo pra suas músicas outras linguagens, culturas e sonoridades. Percebo que tá rolando esse caminho mas ele está solto, sem rédeas. Por isso, eu num sei dizer se vai virar tendência, só com o tempo mesmo, mas acho que já tem uma galera vivendo isso e deixando seu som mais torto (gostei desse nome) naturalmente.

Bjanka: acho que nós queremos ser parte dessa cena musical (Metá Metá, Juçara Marçal, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes, se já não somos – Elza é uma das minhas grandes referências de cantora, mas ela assume outro lugar, muito mais reconhecida e há mais tempo). Com certeza eles têm influência no nosso trabalho, por serem os grandes artistas que são da nossa cena e que já estão sendo reconhecidos. A gente vai nos shows dela/deles, troca ideia com elas/eles com o Kiko Dinucci, a Juçara Marçal, o Rodrigo Campos, o Rômulo Fróes, sobre canção, encontra em eventos de arte, acompanha nas redes e divide espaços de shows. Além do mais, compartilhamos com elas/eles a mesma cidade, acaba que o que a gente lê nos jornais, compartilha por aí de coisas ruins e boas, é também o que elas/eles compartilham. Acho que os modos de produzir, aí a sonoridade, talvez por isso também, acabam seguindo tendências, se é que isso pode ser chamado assim.

Quais são os planos da NÃ para o futuro? São Carlos tá na lista de shows?

Babalu: O plano é seguir firme como toda banda que quer estrada. Acabamos de lançar (“parir” como a Bjanka diz) o Farpa, queremos tocar ele o máximo possível e nas melhores condições possíveis. Todo começo é um começo, mas queremos usar de nossa bagagem pra fazer a coisa bem feita. O NÃ é uma banda grande e os shows têm sido intensos, queremos preservar isso o máximo e sem dificultar a coisa acontecer! São Carlos mais que está na lista, tocamos (eu e Renato) aí 3 vezes com o Gigante Animal, um deles no Festival Contato e foi massa demais. Há pouco mais de um ano toquei com Guizado (também no Festival Contato). Vou entregar o jogo que até encontrei o Ricardo no SIM e entreguei uma material do pré-lançamento do Farpa! Vamos voltar a falar com a galera daí e logo menos articular algo e ir sempre pensando em voltar!

Valeu, galera, pela entrevista, se eu acabei não perguntando alguma coisa, por favor, fiquem à vontade para falarem, o espaço é de vocês.

Bjanka: eu chamo o disco de “A Farpa”, pra usar a palavra com seu artigo correspondente, no feminino. Pra o disco me representar também, enquanto mulher e militante feminista, já que sou uma das mulheres que o compõe. Eu acho que, como o nome significa quero que, o que eu diga na canção, nas leituras e interpretações, seja feito as farpas que se enfiam nos dedos alheios, a dúvida que ficou da última conversa, da última lida de jornal, de quem ouve, de quem vê, já que é a única coisa que eu posso fazer, me colocando enquanto artista: dizer das farpas do meu próprio mundo compartilhado.

***

Com uma atmosfera obscura, o primeiro disco da NÃ é uma tijolada na mente. Em suas letras políticas e agressivas, o groove se encontra com riffs hipnotizantes nos versos potentes, sinceros e afiados como farpa.

Hugo Safatle, programador musical na Rádio UFSCar


A seguir, a lista de faixas que você escuta de segunda a sexta, às 10h. Você também pode ouvir o álbum na íntegra no domingo, às 15h, aqui na 95,3 FM, escute diferente!

 

Segunda-feira

01 – Tudo que Tenho a Dizer

02 – Unhas e Dentes

Terça-feira

03 – Marcado de Lutas

04 – Farpas/Samba de Classe

Quarta-feira

05 – Ira

06 – Cara de Charles Bronson

Quinta-feira

07 – Xangô

08 – Nada Ficou

09 – Modernidade

Sexta-feira

10 – Homenagem

11 – Santo Guerreiro

12 – Como os Pássaros

 

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