Mónó – Mónó

Escrito por em 13/06/2016

Dando continuidade à série de bons registros que ninguém vai ouvir, o destaque desta semana é o split (disco conceitual compartilhado por mais de um artista) intitulado Mónó, elaborado e concebido a partir de uma reunião e convivência de cinco bandas paulistas e recém- lançado por meio de uma parceria entre a Bichano Records (RJ) e a Howlin’ Records (SP). Enquanto correspondentes cariocas e mineiros como Ventre, SLVDR e Lupe de Lupe parecem coexistir ainda sob a penumbra de uma cena sobrevivente na base do boca a boca digital e dos necessários shows para menos de 50 pessoas, aqui pelo estado de São Paulo a história abraçada neste singelo registro, gravado nos estúdios Kalundu (Thiago Babalu) e Subway (Anderson Lima e Hugo Costa), não poderia ser muito diferente.

Segundo o próprio release dos caras, Mónó tem a ver com o entrelaçamento de ideias, anseios e experiências vividas pelas cinco bandas, proporcionando algo que tivesse um pouco de cada um e, simultaneamente, representasse todos os envolvidos. Em resumo, o disco nada mais é do que uma parceria entre as bandas Chabad, Hollowood, Vapor, BLUES DRIVE MONSTER e We are Piano que, desde 2012, engatilhavam o lançamento deste split com três músicas inéditas de cada parte. Se o conceito do álbum pode ser confuso e pouco objetivo, até certo ponto, a sua existência está mais ligada às dificuldades e constatações práticas compartilhadas por todos, como custos, soluções e problemas existentes não apenas para as cinco bandas paulistas, mas para qualquer um que se propõe a levar um projeto musical sem muita estrutura, grana e requinte técnico.

Por mais que a parada da crítica ao status quo e ao modelo de vida imposto a nós, por si só, possa parecer um tanto impreciso e superficial por parte dos integrantes, no final, mais vale o retrato de uma geração que busca se firmar nas dificuldades deste mundo do que a mensagem crítica de fato. Afinal, qual seria o conflito? Se as soluções são tão imprecisas quanto as próprias dificuldades, o que resta é a união em torno de algo que possa valer a pena pra alimentar um sonho cada vez mais difícil, seja pela dificuldade de sobrevivência em meio ao caos urbano, ou seja pelo mal-estar de lidar com subempregos de meio período que mal servem pra pagar o aluguel abusivo do fim do mês.

mónó

A real é que o lance do hardcore meio que dá liga à sonoridade das cinco bandas do projeto, mas vale ressaltar aqui algumas diferenças um pouco mais perceptíveis ao ouvinte mais atento. Chabad, única das cinco que nasce fora da cidade de São Paulo, na vizinha Itapecerica da Serra, é formada por Dija Jones (baixo/voz), Guilherme Braz (guitarra) e Diego Champs (bateria); a banda é ainda, de longe, a mais ousada do split, acrescenta reggae ao barulho, jazz ao hardcore e regionalismo ao progressivo. Hollowood, por outro lado, peca pela pouca irreverência, mas se destaca pela técnica; a banda formada por Dan Carelli (voz/guitarra), Lucas Takejame (voz/guitarra), Renato Cruzatto (baixo/voz) e Vitor Kajiro (bateria), é o braço mais bem trabalhado do álbum, e vai das guitarras do math à progressão épica do metal, entregando em meio aos solos de guitarra um vocal torto e agudo, se destacando também por ser a única do split que opta pela composição exclusiva em inglês.

Vapor, formada por Diogo Dias (guitarra/vocal), Thiago “Mantega” Amarante (guitarra), Victor “Piru” Toso, (baixo/vocal) e Erik Yuji (bateria), é a mais classuda do disco; tem no stoner e na atmosfera meio bêbada de boteco falido suas origens, lembra os goianos da Black Drawing Chalks em certos momentos e, pelo resumo da obra final, parece ser também a mais acessível das cinco. BLUES DRIVE MONSTER é a banda que mais se aproxima do indie da segunda metade dos anos 2000; formada por Daniel Matsuko (vocal/guitarra), Paulo Moreira (guitarra/vocal), Rafael Pelegrini (baixo) e Felipe Hiroshi (bateria), o grupo é o único do registro que optou por menos gritos, guturais e distorções, e por mais melodias, danças e métricas. Por fim, a extinta We are Piano, banda do Vitor Almeida Lopes (guitarra/voz), Raul Teodoro (guitarra/voz), Guilherme Abreu (baixo/voz) e Eliton Silva (bateria/voz), deixou seu adeus registrado no Facebook recentemente; uma pena, já que apesar de ser a mais improvisada e imprevisível das cinco, é aqui que o emo e o post rock se perpetuam melhor, possivelmente até conseguindo uma abertura e aceitação maior, em um contexto no qual os subgêneros parecem tomar força novamente dentro e fora do país.

Ao final da audição, a impressão que fica é que isso aqui precisava existir independente do tempo e da qualidade final, até mais pelo lance simbólico da “união que vence os perrengue” do que por algum objetivo muito claro, anarquista e musical qualquer. Se o underground parece ganhar mais força e sobrevida ao passo que, em se tratando de rock, o mainstream não tem entregado nada de interessante há um bom tempo, fica aqui mais uma boa oportunidade de se ligar no que bandas fora do circuito estabelecido têm apresentado. Por fim, vale ainda dizer que se o “lado A” da indústria musical brasileira é praticamente escasso de bandas do gênero e o “lado B” parece cada vez menos interessado em dar oportunidade a artistas que fogem ao padrão “reconhecimento da crítica e público cativo”, resta mesmo ao nada popular e muito custoso “lado C” a dura responsabilidade de não deixar a cena falir de vez.

Raul Ribeiro, programador musical na Rádio UFSCar


A seguir, a lista de faixas que você escuta de segunda a sexta às 10h. Você também pode ouvir o álbum na íntegra no domingo às 15h, aqui na 95,3 FM, escute diferente!

Segunda-feira

1 – Chabad – Olhos Vermelhos, Dedos Amarelo

2 – Hollowood – Lazy

3 – Vapor – 3 Days

Terça-feira

3 – BLUES DRIVE MONSTER – O Caso de Charles Dexter Ward

4 – We are Piano – Octopus

6 – Chabad – Ode A Tony Montana

Quarta-feira

5 – Hollowood – M  E  S  S  A  G  E

8 – Vapor – Conte-me Mais

9 – BLUES DRIVE MONSTER – Náusea

Quinta-feira

10 – We are Piano – Ludoterapia

11 – Chabad – O Som

12 – Hollowood – Beta Rhythm

Sexta-feira

13 – Vapor – Já Dizia Nelson Rodrigues

14 – BLUES DRIVE MONSTER – Imóvel

15 – We are Piano – Mantra

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