Mahmed – Sobre a Vida em Comunidade

Escrito por em 15/06/2015

São bem poucas palavras – na verdade, quase nenhuma – as que percorrem os quase 40 minutos da audição de Sobre a Vida em Comunidade, o post rock onírico e tropical que os potiguares da Mahmed apresentam em seu álbum debuto. Formada por Walter, Ian, Dimetrius e Leandro, a banda é mais uma a encabeçar os lançamentos da paulistana Balaclava Records, selo independente de destaque, que tem chamado nossa atenção para bandas novas e interessantes do cenário underground brasileiro, como a carioca Séculos Apaixonados e os mineiros da Câmera.

Se o que você procura quando escuta um som vai de encontro com a sensação de transcendência e autorreflexão, o som do quarteto potiguar talvez seja a resposta para suas inquietações sonoras. Apesar do título esclarecidamente mundano, por aqui, cada acorde e frase melódica é um convite a expansão dos limites imaginários e criativos de cada um; uma viagem sonora sem pressa, e que não espera que o regresso ao ponto de partida seja a opção mais óbvia após jornadas por caminhos mais lisérgicos.

Por outro lado, o flerte onírico da banda acontece sem que se perca o vínculo com o real e a sutileza da alma. As músicas, ao se permitirem consumar todo o paradoxo da vida moderna, passam por momentos mais atribulados e outros mais tranquilos, mas sempre convergem para o aspecto mais essencial do ser: as suas relações. É como se os sussurros, as repetições e o encontro da atmosfera etérea com a instrumentação orgânica, carregassem muito mais verdade do que versos e rimas pudessem dizer. O esforço em fazer da música instrumental a própria fala e deixar que o discurso percorra ouvidos terceiros, antes de ser compreendido de maneira mais particular, não é algo fácil de ser desenvolvido. E em meio a muito trabalho nas gravações do estúdio caseiro Cantilena, do baterista da banda, com o objetivo muito claro de compor um material sincero e coeso, o esforço da banda não parece ter sido em vão.

Em termos mais práticos, como os próprios preferem falar sobre si mesmos: “soa como se o John Frusciante tivesse passado semanas descansando em praias brasileiras, surfando e ouvindo dream pop e Tortoise” ou seja, um experimento guitarristico de atmosfera eletrônica e que, somada aos ventos praianos da cidade de Natal (RN), fazem surgir um grupo de sonoridade indiscutivelmente bela. “AaaaAAAaAaAaA” dá início ao álbum e logo traz nas linhas de guitarra a influência direta do guitarrista da Red Hot Chilli Peppers, um som que se mistura à bateria meio torta de Ian Medeiros, e culmina nas vocalizações de JJ Nunes, artista de Macapá, que faz uso da própria voz como um instrumento, para contemplar a sofreguidão sugerida pelo título da música. Em “(Momentos) Antes de Dormir” a calmaria toma conta dos acordes, com poucas distorções e mudanças ao longo da música, dá espaço à imaginação e atua como um sonho lúcido, em que o sonhador é capaz de desenvolver consciência e, consequentemente, planejar seu próprio voo por entre viagens astrais. Diferente da anterior, “Shuva” – primeiro single do álbum – é a mais direta e aguçada de todas, dá espaço ao groove das linhas de baixo de Leandro Menezes e ao ritmo mais aflorado, tudo sem perder a unidade do disco.

“Vale das rrRosas”, segundo single do disco, é o conto de fada musicado, que faz uso da história do menino triste que saiu do Vale das Rosas para morar no castelo da Rainha Bondade e se tornar o Príncipe Alegre; é melancólica, mas também contemplativa e bucólica, e completa o certeiro arranjo melódico de cordas com uma linha harmônica de escaleta. O instrumento de sopro aparece também na cinematográfica “Quando os Olhos se Fecham”, de pegada regional – por conta da sanfonada latina – e ainda preenchida por samples de Miles Davis e Jards Macalé. Por fim, a ousadia fica por conta de “Ian Trip”, o trip hop de 7 minutos, que é basicamente um grande apunhalado de todas as investidas sonoras do disco; tem como destaque a virtuosa bateria de pegada jazzística, desenvolvida em meio a riffs e arranjos hipnóticos e tropicais.

Se em 2013 a Mahmed lançava o curtíssimo EP de 13 minutos Domínio das Águas e dos Céus, e se denominava como uma “quase banda”, hoje não sobra dúvidas que questionem a integridade e relevância do grupo. Como uma boa composição, livre de amarras comerciais, e livre também de preconceitos e limitações, a banda consegue dar espaço para o mais profundo da introspecção humana, ao deixar que seus instrumentos falem por si.

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 10h, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. AaaaAAAaAaAaA
  2. Recreio dos Deuses

Terça-feira

  1. (Momentos) Antes de Dormir
  2. Shuva

Quarta-feira

  1. Vale das rrRosas
  2. Mantra Tensão

Quinta-feira

  1. Ian Trip

Sexta-feira

8. Quando os Olhos se Fecham
9. Medo e Delírio

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