Luiza Lian – Luiza Lian

Escrito por em 20/04/2015

Discos que não vendem mais de um décimo do que antes se vendia, espetáculos e pequenos shows que batalham, diariamente, agenda e espaço com baladinhas muito mais atraentes para o grande público e, por fim, músicos e compositores que fazem valer a máxima do “artista igual pedreiro”. Se a última década tem sido um terror para gravadoras consolidadas, em se tratando de novos nomes de gêneros musicais menos populares, como o rock e suas vertentes, o mesmo não pode ser dito sobre a agitada, embora recente, iniciativa de selos que surgem pelos estados e cantos do Brasil afora a cada ano.

A grande verdade é que ninguém sabe muito bem ainda como se portar e sobreviver em meio a mudanças tão rápidas e drásticas no “mercado” da música. Pois é, não tá sendo fácil pra ninguém. No entanto, são reconfigurações, do tipo de que exige do músico – antes confortável na posição de “artista ídolo intocável” – uma posição de autogestor e “agilizador” da parada toda, que faz aparecer iniciativas como a do selo da capital de São Paulo – “Risco”. Um selo que nasce em meio a parcerias de bandas e artistas que compartilham de ideias e identidades musicais semelhantes.

E o disco nacional dessa semana, aqui na Rádio UFSCar, é reservado ao novo lançamento do selo paulistano. A jovem Luiza Lian, que acaba de colocar na roda o seu primeiro trabalho solo e autoral de nome auto-intitulado. Um disco gravado no estúdio Canoa, do Gui Jesus Toledo, e que, sonoramente, traz as marcas e a identidade de um trabalho inserido (e portanto parte) de uma cena musical muito bem definida e caracterizada. Com os arranjos assinados por integrantes das bandas o Terno, Charlie e os Marretas e a Grand Bazaar (todos integrantes do selo), o álbum busca, na junção de ritmos afrobrasileiros e na influências de bandas do cenário setentista, as suas maiores inspirações. Tudo isso, claro, sem deixar de lado a conecção com o que de mais contemporâneo tem sido produzido ao redor do planeta.

E se podemos creditar tal consistência sonora não somente a Luiza mas também a todos os integrantes da banda, muito também pode ser falado a respeito da individualidade da compositora. Luiza é formada em artes visuais, filha de pais músicos e, neste seu primeiro registro, por vezes se deixa falar por retratos bem pessoais. A proximidade com o grupo de umbamdaime reino do sol, do qual seu pai é um dos dirigentes, a infância na cidade de Trancoso (BA) e a sua relação com o sexo e o amor, são apenas alguns dos temas mais ocorrentes nas letras. Uma prova de que a garota também tem identidade própria e, por mais inserida que possa estar, ainda carrega suas verdades com as próprias pernas, pois o direcionamento ainda é todo seu.

As composições, divididas entre suas, de amigas e do próprio pai, passam por diversos estilos e momentos. Se o disco, por um lado, talvez falhe em não ser um completo sucesso no entrosamento entre músicos e cantora a todo momento, é preciso dizer que, quando essa “conversa” realmente acontece a coisa, de fato, fica interessante. Me arrisco a dizer que a primeira faixa e single do disco “Chororô” é uma das melhores do ano até agora, uma música que soma, de forma brilhante, a identidade latente do selo com as especificidades da artista. Músicas como “Chororô”, “Protetora” e “Falador” seguem o mesmo padrão e, em meio a linhas de guitarras e baixos da funk music com efeitos psicodélicos diretamente dos anos 70, deixam transparecer um aspecto muito particular da garota, um toque minucioso propriamente seu pra deixar a coisa toda com mais cara de Oxum e Iemanjá do que de Mutantes e James Brown.

Por fim, torço para que os shows tragam cada vez mais essa unidade e esse entrosamento benéfico para as próximas composições. E no que se trata da longevidade de selos independentes bem posicionados, como o “Risco” e artistas/pedreiros como Luiza e tantos outros por aí, as expectativas de um longo e bem sucedido trabalho são as mais altas possíveis, estamos a acompanhar!

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

 

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 10h, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. Chororô
  2. Me Tema
  3. Ônibus Lotado

Terça-feira

  1. Protetora
  2. Coroa de Flores

Quarta-feira

  1. Falador
  2. Gula

Quinta-feira

  1. Linda, Linda
  2. A Luz da Vela
  3. Escuta Zé

Sexta-feira

  1. Mississipi / Luz
  2. Jardim
  3. Luar

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