KROKODIL – KROKODIL

Escrito por em 11/05/2015

Semana passada eu tive a oportunidade de reencontrar meu irmão que passou seis anos no exterior. Com muito assunto a atualizar,  o tema música independente veio à tona. Estávamos assistindo um desses reality shows de televisão que recebem a banda e os juízes decidem qual vai pra próxima etapa e qual banda fica de fora. O vencedor leva a gravação e produção do disco. Ele disse que essa era uma oportunidade excelente para a divulgação e que admirava a atitude das bandas de comparecer ao programa. Em resposta eu disse que, por sorte, não são todas as bandas que precisam de um programa de TV para se desenvolver, para amadurecer e para conquistar seu espaço. Existe um nicho enorme de bandas que fazem o seu trabalho de maneira independente, original e que muitas vezes essas bandas superam a qualidade das bandas da TV; que, na verdade, o programa não deveria ser um parâmetro de qualidade. Mas para melhorar minha explicação, eu precisei de um exemplo: a banda KROKODIL. Pra quem não conhece, a banda foi fundada em São Carlos, interior de São Paulo e lançou no começo do mês seu primeiro álbum auto-intitulado.

O disco foi gravado por Rodolfo Nei no porão da produtora Pé de Macaco S/A que acontece de ser, também, a casa dos músicos. E mixado por Rafael Simões, o baixista da banda. Falando dessa forma, parece que é uma banda noob que toca rock de garagem e mal sabe o que está fazendo, mas na verdade, a banda sabia muito bem o que estava fazendo e decidiu ir muito além. Já no seu primeiro disco fez um álbum conceitual, introspectivo, sombrio e confuso. Foram cinco meses de trabalho intenso, cada detalhe do disco, cada instrumento, cada linha de vocal, cada transição foram meticulosamente construídos e trabalhados para trazer essa sensação de continuidade, de uma obra cíclica. O estudo de técnicas complexas de gravação, mixagem, masterização e o experimentalismo foi um desafio imposto pelos próprios integrantes da banda, que fizeram esse trabalho ser o que é. O objetivo de lançar um álbum completamente independente que obtivesse uma qualidade que não ficasse atrás dos grandes estúdios e grandes gravadoras foi alcançado com muito êxito, mérito total dos envolvidos.

O que dizer de KROKODIL, o álbum, senão uma obra brutal? A música que inicia o disco “Noble Truth” é uma pancada invejável, conduzida por um riff de baixo caótico, com um vocal que acabou de sair do inferno e um solo de guitarra nebuloso e barulhento. E olha que isso é só o começo. Na sequência vem o stoner noise psicodélico “Aesthetically Pleasing” que termina de maneira impetuosa abrindo as portas para a tijolada que é “Dangerous Dorfs”. Já a quarta faixa do disco, “Mantra” muda a cor do ambiente: ela parece ser o ritual sombrio de uma tribo furiosa, que tem como desfecho a destruição completa do ser que renasce na sinuosa “Surplus” a música que provavelmente tem a pegada mais punk do disco. “Denkyem” a sexta faixa do álbum e segundo single divulgado é uma obra sublime, os altos e baixos da música estão em perfeita harmonia, a calma antes da tempestade, o silêncio antes da explosão. A penúltima musica “ENEMY” é um prelúdio instrumental e agressivo para o grand finale, “Dead Peasant”.

No final das contas, o novo álbum da banda KROKODIL é especial não apenas pelo método de produção e superação dos desafios, mas pelo fato de ser uma banda que começou inovando no porão de casa e agora traz essa inovação para o resto do mundo. Eu não me arrisco a classificar a banda dentro de algum gênero especifico, existe o tempero de punk, de stoner, de noise rock, de metal, de psicodelia… mas a banda vai além disso; eles misturam e transformam as referências, cada gênero, cada ritmo é utilizado com muita sabedoria a favor da banda e das músicas. Uma banda que não pode ser classificada mas consegue ser apreciada, ultrapassa barreiras que muitas músicas que estão nos programas de TV jamais irão ultrapassar.

Hugo Maia Safatle

Bolsista em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 10h, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira:

  1. Noble Truth

Terça-feira:

  1. Aesthetically Pleasing

Quarta-feira:

  1. Dangerous Dorfs
  2. Mantra

Quinta-feira:

  1. Surplus
  2. Denkyem

Sexta-feira:

  1. ENEMY

8. Dead Peasant


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