Karina Buhr – Selvática

Escrito por em 19/10/2015

Queira você ou não, é inégavel que a compositora baiana, radicada em Pernambuco, Karina Buhr tem, sim, propriedade pra falar de feminismo. Ao contrário de tantos caras por aí, metidos a feministas. Karina, como mulher, abraça seriamente a causa e concretiza em uma obra todo o vigor necessário para lidar com situações as quais mulheres são submetidas diariamente.

Lançado pela recém parceria com o selo e estúdio paulistano YB Music, Selvática (2015), terceiro lançamento da compositora que debutou com Eu Menti Pra Você (2010) e se estabeleceu com Longe de Onde (2012), parte da ideia dos animais selváticos (ou selvagens, se preferir) e da representação das mulheres em antigos textos sagrados, criando o conceito das mulheres selváticas, inspiradas nas guerreiras do Daomé, do Brasil e do mundo a fora. Em resumo, é basicamente um tapa na cara de quem acha que mulher tem que ser “princesa, delicada, etc”, quer dizer, na verdade é um tapa na cara de quem se atreve a achar que mulher tem que ser uma coisa ou outra. Em Selvática e em suas próprias vidas, quem manda são elas, e pra você que se sente no direito de se intrometer na vida dos outros, é bom rever seus conceitos pra não sair por aí falando bobagem

De qualquer modo, no que diz respeito à sonoridade do álbum, Karina reuniu novamente seus bons parceiros de banda para garantir que as coisas fossem de encontro ao que ela, como compositora, gostaria. Com a novidade de Victor Rice (Easy Star All-Star, Firebug) assinando como um dos produtores do álbum, a artista se junta mais uma vez a Bruno Buarque, Mau, André Lima, Edgar Scandurra e Guizado para ir do reggae à mpb e da mpb ao punk, sem abandonar – em momento algum – a intensidade inerente à sua poesia, que por vezes chega a ser  gritada.

Karina também é de chegar logo com os dois pés batendo na porta. A capa e arte de Selvática, na qual a artista exibe os seios enquanto ostenta um punhal nas duas mãos, não poderia ser mais apropriada para o lançamento. Para aqueles que acham que papo feminista é coisa de décadas e águas passadas, basta a informação de que a capa do álbum foi proibida (sim, proibida) de ser veiculada pelo Sr. Facebook, com a desculpa de que a arte “não segue os padrões da rede social em relação à nudez”, um bom exemplo de que a discussão é atual e mais do que necessária.

E a artista provoca em alto e bom tom quando canta “Hoje eu não quero falar de beleza / Ouvir você me chamar de princesa / Eu sou um monstro”, em seu primeiro single “Eu Sou um Monstro”, algo como “vou ser o que eu bem quiser e se você não gostar, problema é seu”. A faixa que dá nome e finaliza ao álbum também é outra que evoca o tema, com participação de Denise Assumpção e Elke Maravilha, “Selvática” é um canto agressivo e profano contra todo o machismo reproduzido por nós homens (e por mulheres também), um punk sujo e barulhento pra ninguém vir com o velho papinho furado de que rock’n’roll não é coisa de mulher. Destaque também para “Cerca de Prédio”, pancadaria sonora com a participação do vocalista Cannibal, da banda Devotos, em que canta sobre a especulação imobiliária nas grandes cidades; e também para “Pic Nic”, na qual a artista repudia à descartabilidade e banalidade das coisas e pessoas.

Completamente inserida no atual questionamento e exigência a favor dos direitos humanos, Karina consegue – talvez até mesmo sem ter a pretensão – ser porta voz de tantas pessoas que são obrigadas a lidar diariamente com a pior versão do ser humano. Se as redes sociais conseguiram censurar a belíssima foto que a fotógrafa Priscilla Buhr preparou para o terceiro lançamento de sua irmã, não haverá censura que conseguirá diminuir o impacto e a representatividade histórica que Selvática possui.

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 10h. Você também pode ouvir o disco completo no domingo às 15h, aqui na 95,3 FM, escute diferente!

Segunda-feira

  1. Dragão
  2. Eu Sou um Monstro

Terça-feira

  1. Conta Gotas
  2. Pic Nic
  3. Esôfago

Quarta-feira

  1. Cerca de Prédio
  2. Vela e Navalha

Quinta-feira

  1. Rimã
  2. Alcunha de Ladrão

Sexta-feira

  1. Desperdiço-Te-Me
  2. Selvática
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