Goma-laca – Afrobrasilidades em 78 rpm

Escrito por em 25/08/2014

O Goma-laca é um projeto de pesquisa e resgate da música brasileira produzida entre 1930 e 1950, gravada no formato de disco 78 RPM em suportes de cera de carnaúba e goma-laca. O projeto é encabeçado por Biancamaria Binazzi e Ronaldo Evangelista, que em 2009 começaram, com muita paciência e dedicação, a garimpar o precioso acervo da discoteca Oneyda Alvarenga (para quem não sabe, Oneyda foi aluna e colaboradora do musicólogo, poeta e escritor, Mário de Andrade), que agora está hospedado no Centro Cultural São Paulo.

Uma primeira etapa do projeito se encerrou com a gravação de um cd, em 2011, intitulado Goma-Laca vol. 1, no qualo grupo instrumental Sambanzo, sob a direção musical de Thiago França, recebeu uma galera composta por novos nomes da música contemporânea brasileira, como Emicida, Juçara Marçal, Luisa Maita, Marcelo Pretto, Rodrigo Brandão e Bruno Morais.

Juntos, criaram um novo contexto para as músicas de autores que, (infelizmente) nos dias de hoje, poucos conhecem. Registros esquecidos das raízes mestiças do Brasil, cantos de trabalho, cantos religiosos, sambas e marchinhas ganharam arranjos modernos e novas interpretações, destacando o incrível caráter contemporâneo das composições originais.

 Nessa altura, o projeito Goma-laca não podia parar. O acervo à disposição se revelou uma mina de ouro e tinha muito para ser explorado. Então, numa segunda fase, o renomado maestro Letieres Leite foi convidado para ficar na direção musical, muitos o conhecem por ser o líder da Orkestra Rumpilezz, que de forma diferente faz o mesmo trabalho de recontextualização das raízes afro-brasileiras, mas seguindo um caminho autoral.

 Junto com ele, Karina Buhr, Lucas Santtana, Russo Passapusso, Juçara Marçal e os músicos Marcos Paiva, Hercules Gomes, Sergio Machado e Gabi Guedes reinventam um repertório de emboladas, canção praieira, coco-rojão, jongos e maracatus, entre as quais se destacam temas como “Batuque”, atribuído ao Quilombo dos Palmares, e “Babaô Miloquê”, primeiro batuque africano a ser gravado em disco, lançado em 1930 e interpretado Russo Passapusso, no qual é possível identificar aquele caráter peculiar (já profetizado pelo grande Chico Science), em que referências populares ancestrais encontram o groove, o jazz, o afrobeat, e a música brasileira.

Ainda temos os primeiros cantos de Candomblé lançados em discos: “Exu” e “Ogum”, na excelente interpretação da Juçara Marçal, autêntica musa, guardiã das antigas memórias africanas; e mais a embolada “Não Tenho Medo Não”, na qual Lucas Santtana se joga num divertido proto rap, acompanhado por um cativante groove.

Goma-laca é um disco precioso. Em cada faixa que o compõe cabe um universo sonoro que abrange o Brasil, a África e as raízes indígenas; o popular, a vanguarda e até o experimental. Um compêndio indispensável para mergulhar de cabeça e entender o enorme e diversificado repertório cultural brasileiro. Até agora, o melhor disco do ano!!!

 Paz!

 Mauro Lussi

Coordenador de Programação Musical e DJ da Rádio UFSCar

Segunda-feira

Exu

Batuque

Terça-feira

Minervina

Do Pila

Quarta-feira

Passarinho Bateu Azar

Vou Vender Meu Barco

 Quinta-feira

 Ogum

Babao Miloque

 Sexta-feira

 Guriata

Nao Tenho Medo Não

Cala boca Menino


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