Encarnado – Juçara Marçal

Escrito por em 17/03/2014

Juçara Marçal é uma veterana da música independente. Ao lado de rapazes muito talentosos como Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thiago França, ela fez trabalhos inspiradores como os dois discos do Metá Metá, o álbum Padê de Dinucci, e o projeto Ekundayo. Também podemos traçar um paralelo entre estes trabalhos e outros projetos da mesma turma, como o Passo Torto, com Romulo Fróes e Marcelo Cabral. Falar de Juçara é falar também de seus companheiros de som, pois cada um é responsável por um elemento específico na obra da cantora, por isso, quando Encarnado saiu, já era evidente que seria mais um trabalho de peso.

Quem já viu alguma performance de Juçara Marçal ao vivo sabe que parece coisa de outro mundo. Sua energia é muito poderosa e contagia a plateia logo nos primeiros acordes, e a partir daí sua voz nos leva a sentir sensações maravilhosas proporcionadas pela sua música. É difícil de explicar, é ver pra crer. Muito dessa energia vem dos pontos de Candomblé e canções que são incorporadas nas suas composições, coisa que também acontece em Encarnado, de forma que são músicas difíceis de ignorar, tamanha é sua carga.

No seu disco de estreia, Juçara explora temas pesados. Ela canta muito sobre a morte, por meio da poesia e das histórias dos Orixás, são letras pesadas, cheia de violência e ódio. Um contraste absurdo em relação à sua personalidade alegre e faceira, e sua voz tantas vezes doce e suave, mas não se deixem enganar, quando Juçara resolve usar todo o potencial de suas cordas vocais, ela se torna um instrumento poderoso.

Musicalmente, as canções são densas e caóticas. Bem a cara do Dinucci, que dá seu toque pessoal ao trabalho. Dinucci é mestre em trair a natureza da guitarra, em tocá-la de formas que se julga impossível, às vezes transformando-a em percussão, outras destilando acordes dissonantes, detalhes sonoros que contribuem perfeitamente para os temas sombrios que Juçara explora.

jucara

Encarnado é um disco autoral de Juçara, mas conta com músicas compostas pelos seus colegas, o que demonstra também seu talento como intérprete, pois ela se apodera das composições alheias e as transforma em suas, como é o caso de “Velho Amarelo” e “Ciranda do Aborto”, além de uma canção do Tom Zé e outra do Itamar Assumpção. Sua voz é papel de destaque nas composições e se torna a estrela guia das instrumentações de Rodrigo e Kiko. E as músicas realmente surpreendem. Temos desde canções extremamente sombrias, daquelas que dão arrepios de ouvir sozinho no quarto, como é o caso de “Odoya” e “Ciranda do Aborto”, canções provocativas como “E o Quico?” e até canções singelas como “Canção Para Ninar Oxum”, cá entre nós, se tem alguma voz nesse mundo que colocaria uma poderosa orixá pra dormir, seria a de Juçara.

Este álbum nada mais é que a revelação da personalidade de Juçara, toda a sua essência musical: sombria, densa, anárquica, subversiva, delirante e simplesmente incrível. Juçara Marçal, sua estrela brilha forte.

Diana Ragnole
estagiária em programação musical.

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 9h45, na Rádio UFSCar.

segunda-feira
1. Velho Amarelo
2. Damião
terça-feira
3. Queimando a Língua
4. Pena Mais que Perfeita
quarta-feira
5. Odoya
6. Ciranda do Aborto
quinta-feira
7. Canção para Ninar Oxum
8. E o Quico?
9. Não Tenha Ódio no Verão
sexta-feira
10. A Velha da Capa Preta
11. Presente de Casamento
12. João Carranca

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