Dônica – Continuidade dos Parques

Escrito por em 29/06/2015

Diz aí o que você espera de uma banda de cinco garotos de 17 e 18 anos de idade. Não, sério, na melhor das hipóteses um som bem gravadinho, uma certa faísca de talento aqui ou ali e ingênuidade de sobra. Tô mentindo?

Bom, pra começar a escrever um pouco sobre o recém-lançado Continuidade dos Parques, nome inspirado no poema de 1969 do escritor argentino Júlio Cortázar, gostaria de pedir, em primeiro lugar, que se libertasse de preconceitos que a pouca idade dos integrantes da carioca Dônica pudesse sugerir. Sei que não é uma das coisas mais fáceis do mundo, o óbvio é que com a idade a maturidade ajude a direcionar as boas ideias, mas se um contrato assinado com a Sony Music, um disco gravado e produzido no badalado Maravilha8 e um retrospecto musical de qualidade inquestionável são fatores intrínsecos ao grupo, somente uma audição sem preconceitos poderá dizer do que é que se trata o som da banda.

Não gostaria que isso parecesse como a parte mais importante do todo – até porque não é. Mas como fatos são fatos, não dá pra deixar de mencionar que a banda de Jozé Ibarra (piano, composições e voz), Lucas Nunes (guitarra), Miguima (baixo) e André Almeida (bateria), conta também com a participação do jovem e tímido Tom Veloso (composições), esse mesmo – filho de Caetano e de Paula Lavigne, que por incrível que pareça, ainda está se acostumando à ideia de subir ao palco com seus amigos de banda. E se o talento trabalhado em casa não é o bastante pra te convencer da relevância do lançamento, é bom ressaltar que a banda também é apadrinhada por ninguém menos que o mineiro Milton Nascimento, uma referência musical que, aliás, é muito presente no grupo que debutou com o EP autointitulado no final do ano passado.

E agora que o circo está montado, vamos ao que interessa de fato. Continuidade dos Parques é um desses discos que você vai pra primeira audição imaginando uma coisa e acaba se surpreendendo com outra. Não que isso seja ruim, mas o primeiro single lançado “Casa 180” talvez pudesse sugerir que o grupo viria com músicas mais delicadas, refrões chicletes e um tanto daquela suposta “vibe” carioca, trabalhada à exaustão por bandas como Los Hermanos e Cícero; mas a verdade, meu amigo, é que se tratando da sonoridade do disco, a “fritura” psicodélica e progressiva toma conta do imaginário dos virtuosos músicos desde o principio.

“É Oficial” da início ao álbum, já de cara desafiando aqueles que esperavam algo mais careta da banda. “904”, “Praga” “Inverno” e “Bicho Burro” são o “grosso” do trabalho, aquelas faixas nas quais as referências, que vão de Supertramp e Yes ao Clube da Esquina, se fazem presentes, uma prova de que o grupo sabe como poucos trabalhar a progressão musical de suas músicas. Destaque para a belíssima “Pintor”, com a participação mais do que certeira de Milton Nascimento e para “Assuntos Bons”, com arranjos e pegada de Novos Baianos. Ponto também pra consistência do álbum como um todo, quebrado apenas pelo groove esperto de “Macaco no Caiaque”, que apesar de bacana acabou sobrando em meio às outras faixas do disco.

Se por um lado é óbvio que os facilitadores, aqui mencionados, ajudaram a abrir as portas para a jovem banda, por outro, não dá pra negar que os garotos conseguiram lidar muito bem com a responsabilidade de se arriscar no mundo da música. Apesar de ainda ter muito em que avançar antes de ser posta ao lado de suas ousadas referências, Dônica é muito mais do que a “banda do filho do Caetano” ou “aquele esquema arranjado”, é sim – sem dúvida – um dos ótimos lançamentos nacionais do ano. E se você não acredita, convido-o a escutar o disco do começo ao fim, aposto que vai se surpreender.

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 10h, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. É Oficial
  2. Casa 180
  3. 904

Terça-feira

  1. Bicho Burro
  2. Pintor

Quarta-feira

  1. Macaco no Caiaque
  2. Carrossel

Quinta-feira

  1. Retorno para Cotegipe
  2. Praga

Sexta-feira

  1. Inverno (Instrumental)
  2. Assuntos Bons

 

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