Do Amor – Piracema

Escrito por em 22/07/2013

O grupo carioca Do Amor soube ocupar seu tempo durante os três anos que separam o homônimo de estreia e seu segundo disco, Piracema. Neste período, acumularam experiência, tocaram com muita gente diferente (a lista é extensa, mas merece menção honrosa o trabalho em parceria com Caetano Veloso) e, certamente, essa difusão de influências se fez pesar em Piracema: assim como na piracema dos peixes, o ouvinte deste segundo trabalho, se vê nadando contra uma forte correnteza de referências e ritmos difusos, diálogos entre presente e passado, nacional e estrangeiro, popular e experimental, tudo condensado em 18 pesadas faixas, que formam um robusto corpo de mais de uma hora de música.

Sim, Piracema é um disco difícil. Por vezes, se permite arrastar e confundir, o que pode desencorajar um ouvinte destreinado. Na primeira ouvida, parece não se decidir o tom: a melancolia de “Ar” se sobrepõe, pesadamente, ao clima ensolarado de “Ofusca”, que é seguida pela experimental “Minha mente”, tudo isso já na tríade de abertura do disco. Entretanto, ao longo do trabalho, Do Amor vai deixando claro que é esta a intenção: torna ponto forte a fluidez travada, utilizando-a para chamar a atenção para a versatilidade e pluralidade de ritmos e leituras contidas no disco.

Essa diversidade toda não é novidade no trabalho da Do Amor. A banda já vinha trabalhando com esse misto tropicália / indie rock desde o disco de estreia, pontuando bem essa mescla com as referências leves aos ritmos regionais brasileiros. O que acontece em Piracema é que estas experimentações são intensificadas, culminando em faixas como “Eu vou pra Belém” – a influência dos ritmos do norte passam do campo da homenagem e, tornam-se aqui, releituras. Ao mesmo tempo, o grupo  busca apelo internacional: alternam-se (e, muitas vezes, mesclam-se) letras em inglês e português, ritmos nacionais e estrangeiros, esta internacionalização do som da Do Amor se dá do meio para o final do disco, a partir de “May i bleed?” e culmina em “Ninguém vai deixar” (grande destaque do trabalho).

No final de Piracema temos a surpresa: o disco termina numa coesão supreendente, esuturando as quatro últimas músicas num único bloco sonoro, que fecha o álbum em tom alegre. Após um árduo trabalho de contemplação movido pela incerteza do que estaria para o fim do disco, o ouvinte é recompensado com um banho de sol reenergizante – mas tal sequência não teria tanto impacto se não fosse pelo caminho percorrido até ali. É por isso que ouvir Piracema na íntegra é uma experiência única, tal qual a viagem dos peixes no período da piracema: tortuosa, porém bela.

Henrique Gentil
Bolsista em programação musical da Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 9h45, na Rádio UFSCar.

segunda-feira
Ar
Ofusca
Minha mente
terça-feira
Mindingo
El cancioneiro
Life is
Esse fumo é bom
quarta-feira
Eu vou pra Belém
Pé na terra
May i bleed?
quinta-feira
I’m a drummer
Ir e vir
Quando ele chegar
Ninguém vai deixar
sexta-feira
Tears and fears away
No song
Piracema
Undum

Revisão: Sheila Castro

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