D MinGus – Fricção

Escrito por em 01/07/2013

Experimentações, psicodelia e uma pitada de brasilidade setentista é o que define o álbum Fricção, do pernambucano Domingos Sávio, também conhecido como D MinGus. O músico, entretanto, não chegou a essa sonoridade complexa e específica à toa. Até o ano passado, D MinGus dedicava-se a um bucolismo mais voltado para o folk, como é o caso do disco Canções do quarto de trás, cuja capa é o desenho de uma pessoa tocando violão numa rede. Mas a mudança se deu naturalmente, pois o músico e seu grupo sempre tiveram um pé no sintético e assumem isso por completo em Fricção.

Assim como a capa do disco anterior deixava claro um tom bucólico e sereno, Fricção tem uma capa quase esotérica: um centauro vestindo um macacão em sua parte humana e segurando uma garrafa, ele está saindo de um carro, ao lado de uma pirâmide inca, iluminada por um sol escrito ENO. Não vou entrar em detalhes em relação ao simbolismo e possíveis significados por trás da imagem. Mas uma coisa é bem óbvia: O ENO vem de Brian Eno, pois o disco tem uma faixa homônima em homenagem ao músico inglês, que faz uma espécie de retrospectiva pelo trabalho avant garde do compositor.

Seguindo essa lógica, é possível afirmar que existem outras homenagens no disco, bem menos explícitas, mas evidentes, diante das influências calcadas nas composições. Se D MinGus mostra que tem um pezinho no art rock de Eno, ele também deixa claro que tem as duas pernas afundadas até o joelho no krautrock. Em faixas como “Estroboscópica” há grande influência de bandas como Kraftwerk e Can!, por exemplo, e o experimentalismo do gênero está em praticamente todas as faixas.

Mas não é só de disso que se faz Fricção. Assumindo uma ausência de unidade, o disco vai e vem em faixas que carregam influências e experimentações diferentes. Se num momento temos o krautrock, no outro temos músicas como “Devoniano”, uma das faixas mais sintéticas do álbum, com uma letra cheia de imagens metafóricas, que brinca com os sons eletrônicos quase minimalistas. E D MinGus esbarra também no post rock na música “Quatro ventos”, por exemplo.

Como um bom brasileiro que se dedica às experimentações, D MinGus não deixa de fora as influências dos sons progressivos da tropicália. Os vocais em Fricção são, predominantemente, agudos, em falsete, o que nos leva a pensar no dream pop, mas muito disto já era trabalhado no rock brasileiro experimental dos anos 70 como os Mutantes e Secos & Molhados. Na faixa “Naturalmente punks”, por exemplo, os arranjos e a letra fazem lembrar muito do trabalho de Ney Matogrosso. “Autossabotagem”, outra faixa bastante sintética, traz uma pegada animada e é a que mais se assemelha ao trabalho dos lendários Mutantes. Além disso, há toda uma psicodelia presente tanto nos arranjos quanto nas próprias letras, aliás, em alguns momentos também nos faz lembrar do trabalho de Milton Nascimento em Clube da esquina.

Por conta de todas essas influências e experimentações, Fricção é um prato cheio para quem gosta de post rock e krautrock e, que, além disso, procura um gostinho do passado do rock brasileiro.

Diana Ragnole
Estagiária em Programação musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta às 9h45, na Rádio UFSCar.

segunda-feira
1. Frágil penugem nos ares gelados
2. De corpo presente
terça-feira
3. Buraco no tempo-espaço
4. Estroboscópica
5. Vendo um meteoro passar
quarta-feira
6. Naturalmente punks
7. Autossabotagem
8. Devoniano
quinta-feira
9. Quatro ventos
10. Trêmulo
11. Estrela do oriente
sexta-feira
12. Eno
13. O fantasma do underground

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