Chankas – Chankas

Escrito por em 26/07/2010

folderio Chankas é uma civilização e um grupo étnico do Peru contemporâneo aos Incas. E é também o pseudônimo de Fernando Cappi, guitarrista da banda paulistana Hurtmold, músico presente em vários outros projetos dessa vertente experimental, tendo participado de discos e turnês de Maurício Takara, Bodes & Elefantes e Joe Lally (Fugazi).

Pra quem não está familiarizado, o Hurtmold é uma banda formada em 1998 na capital paulista, com cinco discos lançados até aqui – o último sendo de 2007, homônimo. É comum vermos a musicalidade deste sexteto ser descrita como “post-rock”, mas na verdade, a banda, ao longo de seus mais de 10 anos de carreira, foi empilhando influências cada vez mais múltiplas e tornando as conversas entre seus diversos elementos cada vez mais interessantes, até que o rock se tornou só mais uma palavra entre várias outras – jazz, minimalismo, percussões, trilha sonora cotidiana. Além disso, o Hurtmold se juntou a Marcelo Camelo (Los Hermanos) para a gravação e turnê de seu primeiro disco, Sou, lançado em 2008.

O disco de Cappi é composto por 9 faixas calcadas basicamente no violão. Interessante pensar que a organicidade do Hurtmold é mais notada pelas percussões e sopros, que pelas mãos do guitarrista. Aqui, Fernando parece querer exercitar seu lado mais orgânico, mais simples e calmo. Nos remete bastante a um universo bucólico, rural, mas até intelectualizado em suas experimentações e sensações beirando o incomum – embora mantendo uma familiaridade. Esse “incomum” tem um tom xamânico e ritualístico, tocando no âmbito mais humano do espiritual. Vozes, tambores e cordas. Só. Até ouvimos o movimento das pernas das pessoas, girando em torno da banda – ou da fogueira?

Tudo isso já em Voleio, primeira faixa do disco. Em seguida, Zé Portinha se aproxima um pouco mais de Hurtmold, trazendo notas soltas e livres, trilhando sonoramente nosso entorno mundano com um pouco mais de poesia. Sapêco – ótimo nome – traz uma rítmica mais marcada e efeitos sonoros mais evidentes, além de assobios mais ensolarados e leves criando a melodia com a guitarra.

Noventa tem a participação do incrível Rob Mazurek no trompete, duelando com o violão de Cappi, todos elevados ao cubo e além. Aí vem o vibrafone e o equilíbrio está completo. A música mais bela do disco é essa quarta faixa – ou será a minha quedinha pelo trompete? O disco segue misturando o violão e percussões variadas com elementos mais sintetizados e até vocais – livres e naturais, simples como uma roda de cantos populares. A maior parte das faixas nos remete tanto a esse universo espiritual xamânico, quanto ao universo rural mais popular – o da viola caipira. É sempre um amanhecer, nos milhares de sentidos dessa palavra.

Chankas pode ser considerado realmente um projeto solo por nos propor conceito e narrativa próprios desse disco. Mas, além de Mazurek, temos também a participação de outros “hurtmolders” – como de praxe nos projetos paralelos dos amigos e integrantes da banda – e vale lembrar que Mário Cappi, irmão e também guitarrista do Hurtmold, acaba de lançar seu próprio disco solo, sob o nome de MDM. Tem muito mais de onde isso veio, aposto, e que venha logo!

Yasmin Muller
Programadora Musical da Rádio UFSCar
@djyasmina

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