Carne Doce – Carne Doce

Escrito por em 02/02/2015

Carne Doce é a estreia auto-intitulada de mais uma revelação da cena de Goiânia. A capital, “berço” do stoner rock no Brasil, e que agora vem se provando sólo fértil para produções psicodélicas, tem se destacado no cenário independente atual por produzir, cada vez mais, grupos excelentes dos mais diversos. A lista é grande: em seis anos já nos revelaram os Black Drawing Chalks, Cambriana, Hellbenders, Boogarins, e, agora, Carne Doce, cada um representante forte do estilo que se propôs a trabalhar.

Lançado no finalzinho de 2014, o debute do grupo goiano é sucessor do EP Dos Namorados (2013) que levantou a sobrancelha de críticos especializados pelos mais variados blogs quando foi lançado e fez a galera antecipar bastante o lançamento do primeiro LP, que, não à toa, marcou presença em praticamente todas as listas de melhores do ano de 2014.

A banda, que começou como um  duo formado pelo casal Salma Jô e Macloys Aquino, estendeu a família para cinco membros, adicionando Anderson Maia (ex-baixista de bandas consagradas de Goiânia), João Victor Santana e Ricardo Machado (que integram também a Luziluzia, grupo promissor da cena goiana), gravou o álbum no Coruja Estúdio, outro grande marco de Goiânia. Tudo isso pra dizer que Carne Doce (o álbum), respira e transpira a cidade de onde veio, e isto se reflete em cada letra.

Esse enraizamento sólido das origens da banda se faz valer em suas letras, todas muito bem trabalhadas, extremamente pessoais (qualidade que se manteve do EP de estreia do grupo), mas cantadas para o mundo de maneira expansiva pela voz de Salma – voz essa que é o grande destaque do álbum inteiro. Psicodélico, sim, mas um pouco mais sóbrio que seus conterrâneos da Boogarins (que inclusive participaram da composição de “Benzin”), Carne Doce reconfigura a tropicália e a MPB, com elementos de regionalismo musical ao longo do álbum todo, para criar paisagens sonoras neo-bucólicas que acompanham letras sinceras, por vezes imagéticas, que permeiam a estreia do quinteto.

A tríade de abertura do disco é o que agarra a atenção do ouvinte. São faixas que gradualmente se distanciam entre si, mostrando a versatilidade do grupo em questão. “Idéia” abre o álbum com uma guitarra chorada, que logo vem acompanhada dos poderosos agudos de Salma cantando sobre gente que “desmerece nossas ideias se não tiverem acento”. A faixa se desenrola num final lisérgico, que lembra um pouco um Mars Volta mais tranquilo, com direito a uma faixa percussiva e guitarras etéreas. “Sertão Urbano”, primeira das inéditas a cair na web, tem ritmo marcial, com uma Salma mais comportada nos vocais cantando sobre o dualismo cidade/campo de maneira bastante atual, reflexo, talvez, da cidade de onde veio, que cada vez mais se urbaniza em detrimento do Sertão. Encerrando a tríade, vem “Passivo”,  joia pop de Carne Doce, uma faixa que pega emprestado o batidão do funk carioca, colocando-o lado a lado com guitarras marcadas e uma linha de baixo intoxicante, pra falar dos desejos sexuais de Salma (soando como outra diva da música contemporânea brasileira, Tulipa Ruiz), que se empodera da voz, subvertendo papeis de gênero impostos pela nossa sociedade com linhas diretas como “Você só quer fazer bem / Mas eu não / Vem me fuder / Vem me fazer dar”.

O álbum se mantém numa linha tênue entre a lisergia e a MPB, com cada faixa merecendo destaque por suas letras bem construídas, a performance vocal estelar de Salma e pela forma como trabalha suas referências sonoras. Mas para me manter sucinto, cito aqui apenas alguns dos pontos altos do disco: “Amigo dos Bichos”, que fala sobre a infância do ponto de vista de uma mãe, tem um instrumental expansivo lindo, com os chocalhos e pratos abertos simulando a água da chuva batendo na janela; “Benzin” é a faixa composta em parceria com o Boogarins, e a mais psicodélica do álbum todo, que conta com a letra que fala sobre Goiânia, mas que se expande para o universal quando Salma canta sobre seus encontros e desencontros com sua cidade natal e a eventual realização de que pertence àquele lugar; “Fruta Elétrica”, faixa presente no EP de estreia do grupo, sofre uma repaginação aqui, em ritmo de baião lisérgico, que conta com uma das performances vocais mais potentes de Salma pelo disco inteiro.

Como eu disse, não há uma faixa sequer desse álbum que não mereça menção. Por isso, basta dizer que Carne Doce é mais uma doce revelação de Goiânia, e talvez a banda que mais se apropriou dessa grande cidade para dizer o que sente. Impossível separar Carne Doce do lugar de onde veio, assim como é impossível separar um Clube da Esquina de Minas Gerais. O contexto, tanto social quanto geográfico, é o que faz desse álbum a gema da música contemporânea brasileira que é no momento. Certamente um dos grandes lançamentos de 2014, e uma aposta sólida para 2015.

Henrique Gentil

Bolsista em Programação Musical da Rádio UFSCar

 

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 10h, na Rádio UFSCar

Segunda-feira

  1. Idéia
  2. Sertão Urbano

Terça-feira

  1. Passivo
  2. Preto Negro

Quarta-feira

  1. Amigo Dos Bichos
  2. Fetiche

Quinta-feira

  1. Canção de Amor
  2. Benzin

Sexta-feira

  1. Fruta Elétrica

10. Adoração

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