Boogarins – As Plantas que Curam

Escrito por em 09/12/2013

Se você não vive como um ermitão dentro de uma caverna escura e isolada do resto do mundo, é muito provável que já tenha ouvido falar de uma banda de Goiânia chamada Boogarins. Um grupo de jovens que faz um som entre Os Mutantes e Tame Impala, cantado em português, eles já conquistaram espaço lá na gringa, conseguindo inclusive, um contrato com a Fat Possum Records (selo de bandas como Black Keys, Dinosaur Jr e Iggy & The Stooges) para distribuição de seu disco de estreia no exterior. De um dia para o outro, a banda virou revelação nacional, a julgar pelo primeiro disco dos jovens goianienses, essa exposição é muito  merecida.

O Boogarins começou como uma dupla, era Fernando Almeida e Benke Ferraz gravando suas experimentações na garagem, na raça, regados a boas influências. O grupo se expandiu, agora são quatro integrantes, mas essa gênese garageira permanece viva e pulsante na sonoridade de As Plantas que Curam, disco de estreia.

Os efeitos bem crus de guitarra, voz e bateria dão a banda uma aura retrô cool, no melhor estilo Velvet Underground que, por um acaso do destino, combina bem com esse boom recente de repopularização da psicodelia com ótimos expoentes como Tame Impala, White Denim e o patrono Flaming Lips. Sabendo disso, o Boogarins apostou e acertou em cheio na mistura de influências nacionais e internacionais para criar seu estilo próprio. Semelhante ao que o Tame Impala fez, a banda suga toda essa influência do passado (como Kinks, Beatles, The Doors, Velvet Underground e uma boa dose de brasilidade com Os Mutantes) e devolve tudo de forma moderna, com melodias e temáticas adequadas a nossa época. É uma nova maneira de encarar a psicodelia que escapa do anacrônico. Isso fica claro nos primeiros testes de instrumentação do álbum na abertura de “Lucifernandis”. É tudo muito cru, muito sincero.

Passada a viciante abertura entra “Erre”, um dos grandes destaques do disco. Numa pegada transtornada, de tempo quebrado, com uma guitarra que soa mais como sintetizador levemente desafinado, a faixa é uma viagem psicodélica da maneira que não se ouvia há muito tempo. Na sequência vem “Infinu” que atesta para a capacidade singular do grupo em construir melodias viciantes, em meio às tóxicas distorções sonoras da faixa, há algo ali de pop, que vai te fazer cantarolar a música por muito tempo. O álbum dá uma desacelerada com “Despreocupar”, uma baladinha bluseira bem gostosa, depois  mergulha de vez n’Os Mutantes com “Hoje Aprendi de Verdade” e “Fim”, antes de partir para experimentar com a cacofonia sonora de “Doce” que começa normalmente, mas logo vai jogando uns detalhes pelo estéreo que culminam numa batalha sônica entre várias músicas. Daqui para frente a banda entra em território mais melancólico com “Eu Vou” e “Canção Perdida”. “Paul” é uma ótima jam que finaliza o álbum da melhor forma possível. Note que eu mencionei todas as faixas do álbum, porque, realmente, não dá pra pular uma só sequer.

Chega a ser intrigante porque os elementos com que o Boogarins flerta não são novidade. Guitarras crocantes, os efeitos etéreos de bateria e vocal, a capa do álbum e a identidade visual da banda… até parece que voltamos uns 50 anos no passado pra ouvir alguma banda bem underground da época. Ao mesmo tempo, a sonoridade dos caras transpira novidade, chega com  frescor a cena atual que é difícil de ignorar. Vai ver está aí o segredo: o som do Boogarins é aquele misto perfeito entre o inédito e o nostálgico, uma reinterpretação de um estilo que marcou tanto uma década, rearranjado para fazer sentido nos dias atuais. Tudo isso numa produção e execução impecáveis, pelas mãos de jovens, mas promissores compositores. É realmente impressionante.

Henrique Gentil Marcusso
Bolsista em Programação musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta às 9h45, na Rádio UFSCar.

segunda-feira
01 – Lucifernandis
02 – Erre
terça-feira
03 – Infinu
04 – Despreocupar
quarta-feira
05 – Hoje Aprendi de Verdade
06 – Fim
quinta-feira
07 – Doce
08 – Eu Vou
sexta-feira
09 – Canção Perdida
10 – Paul

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