André Abujamra – Mafaro

Escrito por em 03/05/2010

mafaro“Mafaro” é assim uma miscelânea auditiva de muito bom gosto! Acho que esta será a frase que mais se aproximará do álbum de André Abujamra, neste texto. Sinto muito leitores, mas aqui vocês só encontrarão um menu que pouco se aproxima do sabor do banquete a ser apreciado (e já aviso que o restaurante não é típico).

Abujamra é cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor musical, ator e cineasta, ufa! Está no cenário musical desde o fim da década de oitenta com os Mulheres Negras, produziu e participou do Karnak, compôs músicas para peças teatrais e trilhas para o cinema e televisão. E agora lançou seu terceiro álbum solo: “Mafaro”.

O álbum é um “misturex” de várias línguas musicais, nas letras, nos timbres, nos ritmos. Nele podemos reconhecer o som de culturas africanas, nordestinas, orientais e a coisa não para por aí, não, amigo. Apesar desta liquidificação acústica, nada é gratuito: não é uma colagem sem pé nem cabeça, não causa enjôo pela quantidade. Pelo contrário, é medido sem ser comedido, na dose certa e com uma pitada de algo mais para cada faixa, mesmo que parte delas se encaixe perfeitamente uma na outra evidenciando a colagem coerente ou que, dentro de cada faixa, encontremos uma diversidade sonora impressionante. As faixas surpreendem por sua sonoridade diversificada, por de repente darem espaço a um outro som, mas também por muitas vezes se encaixarem uma na outra quase como se uma fosse consequência da seguinte.

“Mafaro” usa e abusa de variados instrumentos (elétricos, de percussão, metais, cordas, efeitos, etc.) e, além disso, a voz, a letra e a sua sonoridade são tão importantes para a obra quanto esta variedade de timbres instrumentais – como na faixa “Uma a uma” em que o título é o cantar de uma ladainha. É a exploração da poesia na cantoria da palavra, na audição e no trabalho de suas particularidades fonéticas.

A palavra mafaro quer dizer alegria na língua do Zimbabwe e depois de ouvir algumas vezes o álbum (sem a licença de nenhum Ministério, advirto: escutar apenas uma vez o CD não traz saciedade) tomo a liberdade de discordar em parte da informação. “Mafaro”, a obra, não é só alegria; é amor, não no sentido romântico-meloso, mas daquele que tem cuidado e esmero. “Mafaro” é um mosaico de pedras escolhidas e lapidadas com apuro, canta e defende a alegria como aquilo que é o mais simples, propondo que o mínimo (mas precioso) seja observado mais de perto, com olhar atento. E soando em tantas línguas diferentes prova que isto – mafaro, alegria ou amor – é perceptível em qualquer parte do planeta. Prato cheio para ouvidos famintos!

Erika Kogui
Bolsista da Rádio UFSCar

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