Aeroplano – Ditadura da Felicidade

Escrito por em 01/06/2014

Pop rock de letras agridoces e observações peculiares – mas bem pertinentes – sobre as relações sociais deste século XXI. Esta é a Aeroplano, banda do Belém do Pará, que lançou recentemente seu segundo registro de estúdio, Ditadura da Felicidade.

De nome autoexplicativo, o álbum gira em torno de uma temática que se encontra em sintonia com a geração atual. Jovens que cresceram sobre a pressão da aceitação, a importância de se manter as aparências num mundo em que fotos de perfil e atualizações de status do facebook rapidamente substituem nossas principais formas de interação social – e nesse mundo, é pecado capital parecer mal. Ditadura da Felicidade, de certa forma, é uma revindicação do direito à solidão. Não entenda mal, o disco passa longe de ser apenas uma dor de cotovelo por se estar triste e sozinho. Muito pelo contrário, ele é até bem humorado, justamente porque quebra a ideia de que a solidão tem que estar associada à melancolia. Nós criamos a premissa de que é fundamental estarmos o tempo todo conectados, e temos necessidade de provar como nossa vida é incrível, como somos felizes, cheio de opiniões, amigos e realizações. Acabamos esquecendo que a solidão não é o mal do século e não é sinônimo de infelicidade. A solidão é necessária e bem-vinda nos momentos certos.

 Por esse aspecto, Ditadura da Felicidade é um trabalho crítico e antenado; seu tema principal abre um escopo de assuntos diversos e extremamente contemporâneos, de forma que o disco aborda questões como a família, os múltiplos tipos de amor, as tradições, tabus, individualismo e aparência, crises existenciais, etc. O casamento gay, os direitos LGBT, o poliamor, a transgeneração e outros assuntos, que discutem as formas de relacionamento e identidade de gênero, questões importantes que têm sido amplamente discutidas pela sociedade atual. E é um tema abordado na música “Em Defesa da Família”, por exemplo, cujo refrão defende que “só, ou a dois, ou a três, tanto faz/ O que importa é viver em paz”. Seguindo essa mesma linha das questões polêmicas, temos a faixa “Drogaditos”, com uma pegada mais bem-humorada (mas ainda assim com um subtexto depressivo), convida todos a se drogarem, dizendo que, às vezes, um Dorflex é necessário “pra quem quer poder dormir/ mas não vê mais solução”. Afinal de contas, que atire a primeira pedra quem nunca se deparou com o pensamento de que o mundo não tem mais jeito, e a única saída é estar o mais entorpecido possível.

A internet e a conexão constante gerou outra discussão bastante atual sobre a quantidade absurda de informações que recebemos todos os dias e que não conseguimos absorver. A banda britânica Savages fez um disco inteiro criticando esse aspecto da nossa sociedade moderna e é um tema que não escapa à Aeroplano. Ele é abordado na faixa “Bazar”, que começa com o verso “Tempo de arrumar tudo que está/ A entulhar os meus sentidos/ Reaproveitar formas de sentir/ Outra chance pro que há ao meu redor”, basicamente um apelo pela vida real, pelas sensações, por estímulos não virtuais e pela possibilidade de respirar em meio à tanta informação desnecessária. As críticas não param por aí. Os hipsters, a geração millenials e suas revoltas de facebook também levam suas patadas na canção “Blasé” (o nome fala por si só, cá entre nós), que critica a tendência nas redes sociais da “galera moderninha” em se achar sempre dona da razão, como podemos facilmente concluir pelo verso “Só você sabe o que é bom/ Só você sabe o que presta/ Nada mais importa”.

A banda Aeroplano acertou em cheio quando apostou no estilo simples do pop rock, com composições e letras acessíveis, de fácil identificação e ainda assim recheadas de reflexões: a representação da juventude, as críticas, e o apelo pelo direito de estar sozinho e se sentir feliz com isso. Além da temática que pesa durante toda a experiência do álbum, um sentimento muito em sintonia com a geração atual, a tal Ditadura da Felicidade.

 Diana Ragnole, estagiária em Programação Musical.

 A seguir, a lista de músicas que você confere de segunda a sexta, às 9h45, na Rádio UFSCar.

 Segunda-feira

1. Ditadura da Felicidade

2. Rabugem

Terça-feira

3. Em Defesa da Familia

4. Drogaditos

Quarta-feira

5. 11

6. Bazar

Quinta-feira

7. Blasé

8. Em Si

Sexta-feira

9. Paz

10. Ginastas

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