Viet Cong – Viet Cong

Escrito por em 02/03/2015

Agosto de 1972 e um dos maiores conflitos armados que a humanidade já presenciou. Após mais de 7 anos de ocupação, os EUA finalmente retiravam suas últimas tropas do Vietnã e abriam espaço para que, três anos depois, as tropas do norte e os chamados Viet Congs, aliados ao sistema comunista, finalmente declarassem vitória sobre as tropas do sul e sobre o sistema capitalista. Cerca de 2 milhões de civis, militares de mortos e uma atmosfera degradante que marcou para sempre a história dos envolvidos e de toda a humanidade.

Indo direto ao ponto, Viet Cong é também o nome do projeto liderado por Matt Flegel e Mike Wallace, antigos membros da extinta Women, banda canadense de art rock que teve fim após uma briga no palco entre os integrantes, culminando no cancelamento de todo o restante da turnê. O nome agressivo e histórico, não poderia ser mais apropriado para a banda. Após o trágico falecimento de Cris Reimer, talentoso guitarrista e parceiro do Women, Matt Flegel e Mike Wallace fundaram o Viet Cong. São vencedores e sobreviventes, portanto, assim como numa guerra, carregam as marcas e os traumas de um conflito externo e interno.

Seguido do também recém lançado EP Cassettes de 2014, Viet Cong, disco homônimo da banda, é bem diferente de seu antecessor. Se no EP a banda parecia mais interessada em declarar referências claras ao antigo projeto com passagens à la David Bowie e Roxy Music, no LP o grupo parece ter finalmente assumido os traumas do passado e concretizado em apenas 7 músicas um disco que mistura a agressividade e melancolia post-punk de grupos como Joy Division e Echo and the Bunnymen, com nuances de experimentação. Grupos mais contemporâneos como Interpol e Walkmen também estão presentes nos acordes das canções, no entanto, tudo com uma roupagem mais densa e frenética;  as diferenciando das referências citadas ao caminhar em direção ao noise, com suas guitarras distorcidas e loops de sintetizadores pouco usuais.

“Newspaper Spoons”, a primeira faixa do disco, dá início ao conflito musical da banda. Cantando sobre degradação, a música embala em timbres pesados uma percussão que parece tentar levar o ouvinte para o clima de guerra, que só retoma quando, com acordes limpos, a melodia da voz vem pra mostrar também o lado mais pop do grupo. A partir de então, o convite ao post-punk está feito.

“Pointless Experience”, a intensa “Bunker Buster” e o frenético single “Silhouettes” são aquelas que Paul Banks (Interpol) teria feito se ainda tivesse hoje aquela mesma inspiração e frescor que levou a banda ao estrelato nos anos 2000. O single, aliás, é sem dúvida o ponto mais acessível do grupo, é a faixa de fazer dançar ao estilo Ian Curtis (Joy Division), com uma pegada que em muito lembra o último e aclamado disco do White Lies, o Big TV.

Eu estaria aqui falando de mais um daqueles revivals de bandas do final dos anos 70, e você poderia pensar “ok, próxima banda” se a coisa toda ficasse por aí. “March of Progress” e –  o também single –  “Continental Sheif”, é quando finalmente começamos a entender o porquê da banda estar sendo apontada pela crítica como uma das revelações do ano. A experiência de ouvir um grupo que encontrou um ponto singular entre o experimental e o popular é sempre bem interessante, e o resultado pode ser um tanto revelador se, ao nos livrarmos das estruturas pré-estabelecidas de cada gênero, começarmos a nos atentar para as misturas e flertes musicais assumidos nas composições.

Deste modo, a última do disco, “Death”, é quando a coisa realmente se faz valer a aposta. A música – uma das fortes candidatas a melhores do ano – leva o ouvinte a 11 minutos de tudo aquilo que a gente adora: barulho e intensidade. As guitarras falam por si só e a mudança rítmica de compassos só vem a demonstrar o quão relevante é o grupo. Se até esse momento do disco você ainda achava tudo meio careta, te convido a colocar o volume no alto e deixar que a atmosfera carregada de raiva e melancolia tome conta do seu ambiente.

Viet Cong é então, sem dúvida, aquele som pra você ouvir quando estiver de saco cheio de tudo aquilo  que é consumido em massa hoje em dia. Não garanto uma audição fácil e muito menos um amor à primeira vista. Prepare sua energia e deixe a música rolar, que, no melhor dos casos, motivo pra extravasar seus conflitos e sua raiva com um som que não economiza em distorções barulhentas de primeira qualidade não faltarão, isso eu garanto.

Raul Ribeiro
Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. Newspaper Spoons
  2. Pointless Experience

Terça-feira

  1. March of Progress

Quarta-feira

  1. Bunker Buster

Quinta-feira

  1. Continental Sheif
  2. Silhouettes

Sexta-feira

  1. Death
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