Tricky – False Idols

Escrito por em 29/07/2013

Em 1995 Tricky lançava Maxinquaye. Seu primeiro – e mais importante – disco. O trabalho era de uma força e originalidade tão grande, que nomeou todo um novo gênero que marcou os anos 90: o trip hop. A popularidade do músico atingia seu auge e só o faria despencar com o passar dos anos. Tricky seria, então, uma vítima do próprio talento, para sempre preso às injustas comparações com o início de sua carreira, para sempre ofuscado pela sombra do próprio trabalho.

Verdade seja dita, Maxinquaye continua sendo – e provavelmente sempre será – seu trabalho definitivo, sua magnum opus. Ainda assim, isso não quer dizer que o artista não tenha mais nada a oferecer.

Mesmo empurrado para o underground ao longo dos anos, com a crítica e o público recebendo-o mal – ou simplesmente ignorando – seus novos lançamentos, Tricky não parou de produzir, trabalhou duro para adaptar seu som tão característico à nova década e, agora, em 2013, parece ter conseguido.

O que diferencia False Idols de seus predecessores parece ser essencialmente o foco. Há muito tempo – adivinha? desde Maxinquaye – que o músico não construía uma obra com tamanho senso de unidade. Tricky parecia atirar para todos os lados, tomando um novo caminho a cada faixa, nunca desenvolvendo o que trabalhara anteriormente. Essa bipolaridade, embora seja sinal de versatilidade, não ajudava muito o artista, cujo ponto forte sempre fora a hipnose sonora, o transe. Neste novo disco Tricky percebeu isso. E explora este artifício à exaustão.

Sombrio como sempre, as faixas de False Idols implodem, numa beleza contida. São espaciais, mas não expansivas – muito pelo contrário. A faixa de abertura, “Somebody’s Sins” (releitura não muito ortodoxa de Gloria, Patti Smith) dá o tom: a música entoada pelos vocais contrastantes de Francesca Belmonte e Tricky, parece presa à promessa de explosão, terminando, desconcertantemente, sem sair do lugar (e é aí que as composições de Tricky parecem encontrar sua força). O disco segue numa sequência arrebatadora: “Nothing Matters” conta com os vocais da cantora ativista nigeriana-alemã, Nneka, traz essa contenção para um cenário mais pop (vibrante, dentro da limitada paleta de cores do compositor), e é logo seguida por um sample de Chet Baker na tensa “Valentine”.

Mas é a partir de “Bonnie & Clyde” que o disco realmente desponta: um riff repetitivo, abafado e hipnótico acompanha as vozes de Francesca e Tricky numa das mais sexys faixas do álbum. E então vem “Parenthesis” , a faixa que pega o som autoral de Tricky e coloca no novo milênio.

Depois dela o disco podia muito bem parar por aí, mas False Idols continua sem perder força. Não há uma única música passável no álbum inteiro – são todas cativantes e  merecem menção: “Nothing’s Changed”, “Is That Your Life”, “Tribal Drums”, “We Don’t Die”, “Does It”, “Passion of The Christ”… é difícil não se empolgar e falar de todas.

False Idols é, de certa forma, um disco saudosista. Tricky revisita boa parte da sonoridade de seu debut neste novo disco, e com razão. False Idols foi inclusive divulgado como um “retorno às origens”. Entretanto, esse retorno passa pelo filtro de um compositor muito mais maduro, ciente de seus próprios truques. Ao contrário do que se tinha em seu disco de estreia, False Idols é bem menos espontâneo: cada momento de tensão, cada ataque claustrofóbico é tudo meticulosamente calculado – e ridiculamente eficiente.

Quase vinte anos após sua estreia, Tricky ressurge das cinzas, produzindo um disco atemporal, finalmente digno de suceder seu início de carreira.

Henrique Gentil
Bolsista em programação musical da Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar

segunda-feira
Somebody’s Sins
Nothing Matters
Valentine
terça-feira
Bonnie & Clyde
Parenthesis
Nothing’s Changed
quarta-feira
If Only I Knew
Is That Your Life
Tribal Drums
quinta-feira
We Don’t Die
Chinese Interlude
Does It
sexta-feira
I’m Ready
Hey Love
Passion Of The Christ

Revisão: Sheila Castro

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