Tricky – Adrian Thaws

Escrito por em 22/09/2014

Em julho do ano passado, resenhei o disco False Idols, nono da discografia de um dos maiores expoentes da cena trip hop do meio dos anos noventa: Tricky. Participante ativo do movimento surgido em Bristol, que marcou boa parte daquela década, sendo membro honorário do Massive Attack e dono de uma prolífica carreira solo, havia dito, em 2013, que False Idols representava uma espécie de retorno às raízes para o artista, um álbum mais focado que seus últimos trabalhos, que vinham achando dificuldade para penetrar o mainstream como Maxinquaye, sua estreia. Agora, apenas um ano após sua volta triunfal, Tricky lança seu décimo trabalho.

O disco, que carrega o nome verdadeiro do autor em seu título, Adrian Thaws, assume, de certa forma, um conceito mais intimista – claro, tudo à forma enigmática do próprio Tricky. Muito mais expansivo que seu antecessor, que buscava uma reinterpretação de sua própria obra para a modernidade, numa tentativa (bem sucedida) de se atualizar à nova década, o décimo álbum da carreira do músico é um avanço em sua sonoridade. Assumindo referências tecno extraídas diretamente de raves inglesas, combinadas à sede por experimentalismo e o universo sombrio inerente à obra do próprio autor, Adrian Thaws é um avanço seguro para a sonoridade já característica do músico.

É claro que, como tudo relacionado a Tricky, podemos esperar algumas coisas já patentes de sua marca. O contraste entre seus sussurros reptilianos e vozes femininas suaves continua firme e forte, representando a dualidade de personalidade tão cara a sua obra. Nesse sentido, parcerias que deram certo em False Idols voltam com a mesma potência. A voz suave de Francesca Belmonte aparece em mais três faixas desse novo disco, funcionando muito bem especialmente em “Nicotine Love” e seu refrão compartilhado. A cantora nígero-alemã Nneka, responsável por uma das mais brilhantes parcerias de Tricky em False Idols, faz um retorno igualmente interessante em “Keep Me In Your Shake”, faixa que flerta com o dubstep e o blues de raíz em iguais medidas. Mas além de parcerias antigas, Tricky também encontra novos nomes para adicionar à lista, dois deles se destacando bastante: primeiramente, a voz suave de Tirzah parece ter caído como uma luva em faixas como “Sun Down” e “Silly Games”, conferindo unidade às experimentações cacofônicas de Tricky, e funcionando como um contraponto extremo à grave interpretação do cantor; e, encerrando a lista de participações, temos o agressivo rap de Bella Gotti, numa das faixas mais pesadas do disco, “Why Don’t You”.

Adrian Thaws traz um Tricky inspirado, no auge de suas experimentações, que parece ter encontrado as pessoas certas para se cercar. Com referências ao rock, reggae, blues, hip hop, tecno, downtempo, jazz e aquele toque autoral que permeia toda a obra do músico, a décimo disco da carreira de Adrian é talvez um de seus mais desafiadores. Se com False Idols Tricky promovia um reboot de sua carreira, com Adrian Thaws o músico sopra nova vida a todo um gênero considerado por muitos como morto: o trip hop.

Henrique Gentil

Bolsista em programação musical da Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar

Segunda-feira

Sun Down

Lonnie Listen

Terça-feira

Something In The Way

Keep Me In Your Shake

The Unloved (Skit)

Quarta-feira

Nicotine Love

Gangster Chronicle

Quinta-feira

I Had a Dream

My Palestine Girl

Why Don’t You

Sexta-feira

Silly Games

Right Here

Silver Tongue – When You Go

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