Toro y Moi – What For?

Escrito por em 27/04/2015

É inegável que com o tempo, artistas – antes conectados e atentos – possam se tornar óbvios ao entrarem em uma espiral do bloqueio criativo que os impede de avançar e produzir aquilo que se espera deles: um olhar inquieto e uma obra carregada de sentimentos sinceros que vão além de qualquer zona de conforto que possa existir. Chega um momento em que, para fazer valer o esforço desprendido na produção de uma nova obra que justifique seu lançamento, é preciso que o próprio assuma (e se coloque) em uma posição diferente das anteriores. E não são poucos os casos de compositores e músicos que souberam se deixar levar por seus sentimentos mutáveis e fizeram da transformação e apropriação um estilo de vida. Bowie, Beatles e a a diva do pop Madonna são apenas alguns dos exemplos óbvios dos casos em que, por vezes, o autoquestionamento e o desafio de se colocarem a prova foram motivo para concretizar um trabalho e se manterem vivos enquanto artistas e compositores.

 E o quarto álbum de estúdio do principal projeto de Chaz Bundick, líder e compositor da Toro Y Moi, chega aos nossos ouvidos com características diferentes do que seus trabalhos anteriores já apresentaram, ou quase isso. Recém-lançado pela sempre parceira Carpark Records, o disco What For?, apesar de soar como novidade quando em comparação com seus bem recebidos três primeiros trabalhos, pra quem acompanha de perto tudo o que o cara faz, pode não ser uma surpresa tão grande assim. Em 2012, ao lançar o pouquíssimo repercutido June 2009, trabalho com sobras da época do Causers of This, Chaz já apontava para o que esperava que sua banda se tornasse, mesmo antes de ser febre na galera descolada. E sim, era algo bem diferente do que se convencionou por Toro Y Moi. E não pense você que o som esta mais próximo do recém projeto solo de Chaz, o Les Sins, lançado em novembro do ano passado, em que o compositor experimenta de vez com a música eletrônica e suas vertentes, como o trap e o EDM (que você pode ler sobre clicando aqui), quando se trata da direção de seu projeto principal, o direcionamento é completamente oposto.

 Apesar de ser frequentemente creditado como o responsável por lançar uma sonoridade indie eletrônica, inovadora e nostálgica ao mesmo tempo, caracterizada pelo clima etéreo, pelo downbeat e pelo flerte R&B oitentista – batizada de chillwave, é preciso dizer que o Toro Y Moi parece estar mesmo cada vez mais distante daquilo que o colocou como queridinho das revistas alternativas. Se June 2009 já mostrava que Chaz flertava muito mais com o indie do que com a música eletrônica, mesmo antes de ele se lançar como tal, a chegada de What For? não nos deixa mais nenhuma dúvida disso. Carregado de sentimentos ensolarados e melodias e trabalhos vocais à la The Beach Boys, o novo álbum parece ser uma afronta ao próprio processo criativo de Chaz. Em recentes entrevistas, o compositor afirma que, muito do que ele imaginava para o novo trabalho, era ver até onde era capaz de ir de forma diferente ao que já havia feito, então, como consequência, partiu para melodias e arranjos pensados de forma mais orgânica e mais semelhante a praticada nos palcos, seguindo o que parece ser uma tendência no rock contemporâneo, tão pasteurizado pela música eletrônica nos últimos anos.

 Com a mudança de direção, Chaz trouxe consigo também um tanto de ingenuidade. É verdade que What For? é o trabalho mais pop, acessível e de letras mais leves do compositor, o que aliás lhe rendeu diversas críticas por deixar de ser tão “intrigante”. No entanto, no que cabe a minha avaliação, a mudança de ares só veio a acrescentar em sua carreira como compositor. É admirável que Chaz não se deixe levar pelo conforto, sendo que mesmo encarado como um dos melhores compositores da nova geração, cada disco seu é uma obra bem diferente da outra. Enquanto que em Underneath The Pine a chillwave do primeiro disco se misturava a linhas da disco music e do funk/soul setentista, e em Anything in Return a guinada para o eletrodance e para o hip hop se fazia presente, em What For? músicas como o single “Empty Nesters” e as ótimas “Lilly”, “Half Dome” e “The Flight” mostram que a chillwave do passado, mesmo que não mais etérea e nebulosa, e cada vez mais distante daquilo que foi em sua origem, ainda existe em sintonia com suas guitarras e sua melodia ensolarada, remetendo até mesmo a bandas mais trabalhadas neste sentido, como Temples e Tame Impala.

 Por fim, o que fica desta história toda de artistas e mudanças é que, de fato, ninguém aguenta ouvir a mesma coisa pra sempre. A mudança é necessária, e os novos ares, quando trabalhados de forma responsável, podem ser o respiro fundamental na carreira de um artista. Se Chaz Bundick inovou e criou a “pós-chillwave” com seu novo trabalho, só o tempo dirá. Até onde me cabe a escrita aqui, o que me resta é ressaltar a satisfação de ver um grupo tão bacana como a Toro Y Moi compondo e tocando como uma banda de verdade, e não como um kit de aparelhagem eletrônica importado de países emergentes.

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar


 

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. What You Want
  2. Buffalo

Terça-feira

  1. The Flight
  2. Empty Nesters

Quarta-feira

  1. Ratcliff
  2. Lilly

Quinta-feira

  1. Spell It Out
  2. Half Dome

Sexta-feira

  1. Run Baby Run
  2. Yeah Right

 

 


Opinião dos Leitores

Deixe um Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos Obrigatórios *


Rádio UFSCar

Tocando agora
TITULO
ARTISTA