Thom Yorke – Tomorrow’s Modern Boxes

Escrito por em 06/10/2014

Semana passada duas coisas muito legais aconteceram com o meu acervo musical: eu finalmente baixei o app da Apple feito especialmente para deletar as músicas do U2 que apareceram magicamente por ali, obviamente apenas após analisar minuciosamente se o conteúdo merecia ou não seu espaço em meu computador (tarefa que consistiu, basicamente em checar o nome da banda responsável pelo lançamento), depois baixei o novo álbum solo do Thom Yorke pelo bitTorrent, ao mesmo tempo em que apoiava o artista com razoáveis 6 dólares.

Piadas com o Bono postas de lado (desculpe, não pude resistir), o novo esquema “descoberto” pelo célebre frontman do Radiohead pode não ter atingido a indústria musical da mesma forma que o lançamento de In Rainbows fez em 2007, mas certamente se provou eficaz: os downloads ultrapassaram a marca dos 400.000 num fim de semana. É claro, não me senti comprando o disco diretamente do próprio Thom Yorke, como parecia ter sido a intenção do músico e seu comparsa Nigel Godrich, em carta revelada publicamente junto ao lançamento, mas foi muito bom usar o torrent para comprar Tomorrow’s Modern Boxes, e confesso que fiquei aliviado de ver que um cara, que eu admiro tanto, não estava adotando as mesmas táticas invasivas de marketing empregadas pela banda de uma certa marca de bolachas (droga, eu tinha prometido que ia parar.)

Até aí tudo certo, Yorke fez o dever de casa direitinho e soube modernizar seu modo de distribuição de forma bem sucedida, no lançamento mais low key possível para uma pessoa com a sua fama. Mas o álbum em si vale o esforço? Ora, a resposta é bem fácil: se você anda acompanhando o trabalho de Thom e seus mil projetos há muito tempo, sim; se você ainda se lembra do Radiohead como aquela banda que tocava “Creep”, provavelmente não. Tomorrow’s Modern Boxes é tão tímido quanto seu lançamento repentino. O álbum vai direto ao ponto desde a abertura, com o groove torto, frio e eletrônico de “A Brain In A Bottle” remetendo imediatamente à “Lotus Flower”, e, assim, à exata faceta do músico que será trabalhada por aqui. Uma extensão da obsessão pelos ruídos eletrônicos nutrida pelo cantor desde o início da década passada, com o lançamento do essencial Kid A, Tomorrow’s Modern Boxes evolui no mesmo espectro sonoro que viemos a aprender, e a esperar, vindo dos projetos paralelos de Yorke.

O interessante é que justamente por ser seu primeiro disco “solo” desde The Eraser, de 2006, a gente consegue visualizar bem melhor a evolução na sonoridade de Yorke. Naturalmente, comparando as multicamadas rítmicas de Tomorrow’s Modern Boxes com as melodias humanas e cativantes de The Eraser, já nos fazem ver o quão longe trilhou Thom em sua busca por unir homem e máquina numa única massa cacofônica e indistinguível de som. Feito sob medida para dias tão cinzentos quanto sua capa, a música “do futuro” de Thom Yorke é impiedosamente distópica, e a voz suave do cantor, aqui submetida a tantas modulações a ponto de se tornar, por vezes, mais um instrumento percussivo, é aquela pitada de esperança que a gente sempre tenta se agarrar, apenas para sentir o poder devastador do ambiente sobre o ser.

Intimamente claustrofóbico, o segundo disco solo de Thom Yorke deve ser apreciado com a luz baixa, de preferência sozinho, entre quatro escuras paredes, com um excelente sistema de som pra conseguir captar todas as sutilezas da produção de Godrich. Um disco curto, porém belíssimo e desafiador, que te faz embarcar numa jornada quase que espiritual. Claro, o álbum não carrega o mesmo peso puramente inovador de uma obra como Kid A, e pode até ser menos impactante que seus antecessores temáticos, mas, se dado o tempo necessário, a experiência de abrir as Tomorrow’s Modern Boxes de Yorke pode se provar extremamente compensadora.

Henrique Gentil- bolsista em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar

Segunda-feira

A Brain In A Bottle

Terça-feira

Guess Again!

Interference

Quarta-feira

The Mother Lorde

Quinta-feira

Truth Ray

Sexta-feira

There Is No Ice (For My Drink)

Pink Section

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