The Roots – …And Then You Shoot Your Cousin

Escrito por em 30/06/2014

 The Roots é um grupo ocupado. Entre uma colaboração com Elvis Costello (que rendeu um dos melhores discos do ano passado) e o usual trampo de banda de apoio de um dos mais famosos talk shows dos EUA, é de se surpreender que Questlove e companhia tenham conseguido tempo para conceber um álbum tão denso quanto “…And Then You Shoot You Cousin”.

 Anti-rap, como o grupo bem colocou ao descrever seu novo álbum, é o conceito que permeia esse disco pra lá de complicado. Basicamente, …And Then You Shoot Your Cousin é a visão do Roots, um grupo que já atingiu status de realeza no gênero, para o que o hip hop mainstream poderia atingir, não fosse a insistência de seus grandes representantes em manter a pose de bem sucedidos. “I’m down to 95 dollars, that’s the extent of my riches // Out of 99 problems, 98 of ‘em is bitches” canta Greg Porn, uma das três vozes que comanda os microfones nesse disco, no single “When The People Cheer”, numa desconstrução do discurso ostentação da icônica “99 Problems” do Jay Z. Liricamente, …And Then You Shoot Your Cousin bate pesado no rap mainstream, direto e com precisão, repleto de referências emperoladas como essa. Acima de tudo, é uma desconstrução do típico “herói” do rap norte-americano: tanto Greg Porn quanto seus comparsas Black Thought e Dice Raw soam como “gangstas”, conservam na voz toda a pose de um Kanye West ou 50 Cent, mas narram uma história frustrante, repleta de crises financeiras e existenciais. “People ask for God // Until the day he comes”, observa Dice Raw em “Understand”, num dos muitos momentos reflexivos do disco.

 Mas não é apenas na temática lírica que se dá a desconstrução musical do que o Roots entende por anti-rap. …And Then You Shoot Your Cousin é um dos projetos mais ambiciosos do grupo – e isso é dizer muito quando a banda em questão é o The Roots -, misturando as tradicionais referências do jazz e do soul que tornaram a pegada do grupo famosa com instrumentações eruditas, tanto o disco quanto as músicas são segmentadas. Não bastasse as três vinhetas que pontuam o álbum em si, é comum as próprias músicas entrarem em queda livre, assumindo instrumentações atonais repentinas, numa recusa em adotar qualquer formato de fácil digestão. Não, …And Then You Shoot Your Cousin não é para ser consumido em massa, como a maioria dos álbuns de seus companheiros de gênero: é um disco conceitual, que exige muito tempo para digerir, e às vezes é até frustrante – como suas próprias histórias. Muito embora isto esteja perfeitamente aliado ao conceito do álbum, e funcione muito bem (como em “The Dark (Trinity)”, uma das faixas mais potentes do disco), às vezes o Roots perde a mão e sai com faixas como “The Coming”, um tanto cabeças demais. Afinal de contas, ainda é na simplicidade e honestidade de faixas como “Black Rock” e “Understand”, que adotam um formato mais comportado em que se encontra o ouro.

Fechando com pouco menos de 40 minutos, …And Then You Shoot Your Cousin é uma experiência densa, e o Roots fez bem em torná-la o mais concisa possível para não cansar. Mais uma vez, Questlove e companhia conseguem fazer um trabalho que se destaca, tanto pela pretensão quanto pelo apuro técnico, embora não cheguem com a força de renovar um gênero inteiro, certamente deixaram sua mensagem muito clara.

 Henrique Gentil, bolsista de Programação Musical.

 

A seguir, a lista de músicas que você confere de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar.

Segunda-feira

1. Theme From The Middle Of The Night

2. Never

Terça-feira

3. When The People Cheer

4. The Devil

5. Black Rock

Quarta-feira

6. Understand

7. Dies Irae

8. The Coming

Quinta-feira

9. The Dark (Trinity)

10. The Unraveling

Sexta-feira

11. Tomorrow

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