The Black Keys – Turn Blue

Escrito por em 19/05/2014

Tendo conhecido o Black Keys na época do excelente Thickfreakness, ainda fico confuso quando vejo que o que não falta hoje em dia em festivais é adolescente vestindo camisa da dupla. Sério, é um choque. Desde El Camino a fama do duo parece ter tomado proporções inimagináveis – por favor, o que começou com dois caras tocando numa garagem pra um público de duas pessoas (provavelmente o melhor amigo e o técnico de som) se transformou numa “banda lota estádio”, praticamente de um disco para o outro! Minto, o Black Keys vinha se popularizando desde que Danger Mouse emprestou seu toque mágico em Attack & Release, mas ainda assim, El Camino foi o álbum que bombou mesmo, inclusive revelando outras gemas pop da discografia da dupla, como o álbum Brothers.

 De fato, quem conheceu o Black Keys nessa onda do El Camino tem uma ideia totalmente diferente que um fã de longa data teria sobre o grupo. Essa divisão distinta de fãs colocou a dupla numa saia justa durante a composição de Turn Blue. A banda parecia ter dois caminhos claramente possíveis na frente: ou fazia um retorno às raízes e arriscava cair de volta no esquecimento, ou fazia mais uma coletânea arrebatadora de hits, repetindo a mesma fórmula para agradar os novos fãs, e perdia créditos perante aos de longa data. A solução para esse dilema? Pro Black Keys foi simplesmente não ligar. Não à toa, a faixa que abre o álbum (e que, segundo entrevistas, foi a primeira a sair do disco novo) é uma jam psicodélica de quase 7 minutos, com direito até a um solo de guitarra digno de um David Gilmour. E por mais surpreendente que isso possa parecer, deu certo.

 Turn Blue não lembra nada que Dan Auerbach e Patrick Carney já tenham tentado. É um disco grandioso, que trabalha com uma ampla gama de instrumentos e timbres. Ora psicodélico, ora pop (mas nada tão ridiculamente grudento como Lonely Boy), muitas vezes na mesma música, o oitavo adendo à discografia da banda é bipolar, porém coeso. Diferente de El Camino, que se entregava de primeira pra qualquer ouvinte, Turn Blue requer certa insistência para ser compreendido. No início o Keys pode soar totalmente descaracterizado, mas com o tempo dá para perceber que a essência da banda está aí, nas guitarras crocantes, nas baterias saturadas, no vocal rasgado (e nos eventuais falsetes) de Dan Auerbach. Embora ele estejam rearranjados e com novas referências, que vão da psicodelia clássica ao rock progressivo, passando pelo hip hop e o funk ácido da década de 70.

 Vale ressaltar aqui que Danger Mouse assumiu novamente seu posto como produtor do Black Keys, e seu papel é crucial em Turn Blue. Assumindo a coautoria da maioria das músicas, e dividindo a produção com os próprios membros da banda, seu trabalho não foi tanto atrás da mesa de som quanto dentro do próprio estúdio, emprestando teclados, samples e instrumentações derivadas de seus outros projetos. Basta ouvir faixas como “Bullet In The Brain” e “Waiting On Words” e compará-las com faixas de Rome, disco de 2011 do produtor, para entender o que estou falando.

 O resultado desse trabalho colaborativo e descompromissado é um disco divertido, que não tem medo de soar estranho às vezes. Um sopro de ar fresco para o Black Keys, Turn Blue serve de garantia para aqueles que se preocupavam com o futuro do grupo. Fica claro, desde os primeiros acordes de “Weight Of Love” até o destoante road rock que é o encerramento de “Gotta Get Away” que o duo não tem planos de repetir uma fórmula de sucesso, por mais que ela tenha sido um acerto em El Camino. Se fosse para especular sobre o futuro do Black Keys a partir desse disco novo, só uma palavra poderia vir à mente: incerto. E isso, no caso, é animador.

 Henrique Gentil, bolsista de Programação Musical.

 A seguir, a lista de músicas que você confere de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar.

 Segunda-feira

1. Weight Of Love

2. In Time

Terça-feira

3. Turn Blue

4.Fever

Quarta-feira

5. Year In Review

6. Bullet In The Brain

7. It’s Up To You Now

Quinta-feira

8. Waiting On Words

9. Lovers

Sexta-feira

10. In Our Prime

11. Gotta Get Away


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