Sleater Kinney – No Cities To Love

Escrito por em 09/02/2015

Olha, se eu aprendi uma coisa acompanhando bandas dos anos 90 durante essa nova década foi não me empolgar muito com o retorno das ditas cujas. Talvez porque essas reuniões aconteçam por “outros interesses” (leia dinheiro), talvez por uma inerente incapacidade em se adaptar ao panorama musical moderno compartilhada por tudo dessa época, fato é que a grande maioria dos “retornos” que presenciamos por aí não têm sido lá muito “triunfantes”.

Por isso mesmo que confesso: permaneci cético quanto à volta do Sleater Kinney. E duvido que muitas pessoas tenham antecipado o que estava por vir também. Querendo ou não, 10 anos de hiato são mais que suficientes pra enterrar qualquer banda, quanto mais um representante (por maior que seja) do underground noventista norte-americano. Isso somado a mais uma série de fatores relacionados a recentes decepções, na minha cabeça, justificaram meu dar de ombros ao lançamento de No Cities To Love durante o começo desse ano. Por sorte, trombei com uma galera falando muito bem dele e decidi dar uma chance. A surpresa não poderia ser mais agradável.

Com mais de 21 anos na cara e 8 discos nas costas, o power trio encabeçado por Carrie Brownstein, Corin Tucker e Janet Weiss cativa desde os primeiros acordes sujos de “Price Tag”. São os primeiros grunhidos da Sleater Kinney que ouvimos em 10 anos, e cara, como o grupo envelheceu bem. Carregando tanta – ou mais – energia quanto em qualquer outro lançamento do grupo, No Cities To Love é a prova viva e pulsante de que o rock não morreu – ele vai “muito bem, obrigado” na verdade.

Estamos falando aqui de indie rock “da gema”! Aquele que realmente surgiu de uma cena independente, que não apela pra clichês de um gênero saturado, que tem algo a dizer, e que parte de uma necessidade sincera de tocar seus instrumentos em alto e bom som. Não à toa que o disco foi lançado pela Sub Pop (que alguns vão reconhecer como a mesma gravadora do Nirvana).

Sem baixo e sem firulas (a banda assume a incomum formação de duas guitarras  uma bateria), as garotas do Sleater Kinney conseguem se firmar bem em suas raízes punk que lhe renderam espaço crucial no movimento riot girl dos anos 90. Claro, os tempos são diferentes, a sonoridade do grupo nunca foi mais polida e acessível quanto hoje (prova disso são os ganchos viciantes da faixa título), mas a banda consegue balancear bem melodias pop, excentricidade sônica e letras inteligentes num pacote completo que o rock mainstream vem carecendo ultimamente. Aliás, as letras são destaque aqui: é surpreendente a facilidade que a banda tem em tratar de temas complexos como a crise econômica, o “zeitgeist”, a sociedade de consumo, representatividade de gênero, caos social e empoderamento feminino em suas crônicas, tudo de uma forma bem mastigada que não espanta o ouvinte, mas o faz refletir bastante – tudo isso interpretado pelos vocais poderosos de Tucker, agora uma mãe proletária que ainda grita contra o sistema com a mesma disposição que a garota que montou uma banda no maior estilo do It yourself ( “faça você mesmo”) há 21 anos atrás.

Contra todas as expectativas, o Sleater Kinney está de volta. Com fôlego renovado, e carregando um dos discos mais interessantes a sair durante esse começo de 2015.

Henrique Gentil

Estagiário em Áudio da Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 16h00, na Rádio UFSCar

Segunda-feira

  1. Price Tag
  2. Fangless

Terça-feira

  1. Surface Envy
  2. No Cities To Love

Quarta-feira

  1. A New Wave
  2. No Anthems

Quinta-feira

  1. Gimme Love
  2. Bury Our Friends

Sexta-feira

  1. Hey Darling
  2. Fade
Marcado como

Opinião dos Leitores

Deixe um Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos Obrigatórios *


Rádio UFSCar

Tocando agora
TITULO
ARTISTA