Radiohead – A Moon Shaped Pool

Escrito por em 16/05/2016

No domingo, oito de maio, a banda britânica Radiohead lançou seu tão esperado nono álbum de estúdio chamado A Moon Shaped Pool. Profundo e sinestésico, o novo trabalho do grupo traz belos timbres e sensíveis texturas sonoras em faixas introspectivas e psicodélicas. Com arranjos mais orgânicos e menos robóticos, o disco surpreende com belas melodias, percussões elaboradas, acordes diatônicos, belos arpejos do piano e a voz de Yorke, ora suave, ora sofrida, dá um tom muito singular ao álbum.

A canção que abre a obra, “Burn The Witch”, foi o primeiro single do disco e um excelente cartão de entrada. A música faz alusão ao comportamento de líderes radicais contra imigrantes que, com seu discurso xenofóbico, manipulam a opinião pública incorporando no povo o sentimento de “queimem as bruxas”. De fato, não existe contexto histórico melhor do que o que estamos vivendo agora e essa canção resume muito o cenário político brasileiro e mundial. Porém, o disco não é só uma crítica política. A faixa seguinte e segundo single lançado “Day Dreaming”, já apresenta uma abordagem bem diferente. Com o piano em primeiro plano, a canção cria uma atmosfera melancólica que te leva para um sonho frio e solitário. Vale lembrar que, no ano passado, Thom Yorke, líder do grupo, passou por um processo de divórcio que deu fim a um casamento de vinte e três anos. Seguindo na mesma direção, “Identikit” reforça essa ideia de coração partido. Identikit significa retratar uma pessoa, reconstruí-la a partir da descrição fragmentária da testemunha; método muito utilizado pela polícia para auxiliar na busca de uma pessoa procurada por algum crime. Sem dúvida, o nome da música está se referindo a como nós construímos, reconstruímos e desconstruímos as pessoas em nossas mentes e nos tornamos amargos e ressentidos em relação a elas.

Mas há uma luz no fim do túnel na quarta faixa do álbum, “Desert Island Disk” traz um clima bem folk, com o violão à la Neil Young. Aqui a canção fala sobre renascimento, diferente de “Day Dreaming”, ele está disposto a encontrar um recomeço. Algumas faixas presentes no disco, que já eram tocadas pela banda, tiveram a gravação renovada, como a “Present Tense”, que traz um tempero do samba brasileiro, e a antiga “True Love Waits”, que foi tocada pela primeira vez em 95 e está no setlist da Radiohead desde então.

radiohead

De fato, A Moon Shaped Pool é um trabalho muito sincero e intimista. Se em In Rainbows o tema explorado foi a emoção que vem com os relacionamentos, em A Moon Shaped Pool podemos perceber que a questão explorada é o vazio, as cores frias, a separação e os novos começos. Afinal, quatro anos depois de  The King Of LImbs, é a própria banda se encontra em um recomeço.

Não é certo afirmar que o novo álbum é conceitual, muito pelo fato do reaproveitamento de antigas canções, mas, ao mesmo tempo, foi o momento exato para tal uso. Além disso, a comparação de um álbum com outro se torna pouco significativa se separar os trabalhos de seu contexto histórico. A Moon Shaped Pool em nenhum aspecto fica atrás de seus antecessores, ele é magnifico à sua própria maneira. O disco te transporta para uma atmosfera de solidão, conformismo e dor, mas também traz pingos de esperança. Se tem uma coisa que Thom Yorke sabe fazer, e muito bem, é expressar seus sentimentos e incorporar no ouvinte a empatia.

Então A Moon Shaped Pool não é um novo capítulo da religião Radiohead, não é uma revolução acima de outras formas artísticas e Thom Yorke não é um deus. Ele, assim como os outros integrantes da banda são apenas humanos que, assim como eu e você, possuem sentimentos, angústias, medos, desejos e alegrias. Observando dessa forma, o disco conseguiu o seu êxito maior ao penetrar na nossa consciência e nos fazer sentir o que eles sentem. Da crítica à sociedade moderna às junções e desatinos, o Radiohead continua trabalhando para nos tornar seres humanos mais sensíveis, sinceros e tolerantes uns com os outros e para a arte não precisamos de mais que isso.

Hugo Safatle, programador musical na Rádio UFSCar


A seguir, a lista de faixas que você escuta de segunda a sexta, às 15h30. Você também pode ouvir o álbum na íntegra no sábado, às 15h, aqui na 95,3 FM, escute diferente!

Segunda-feira

1 – Burn The Witch

2 – Day Dreaming

Terça-feira

3 – Decks Dark

4 – Desert Island Disk

Quarta-feira

5 – Ful Stop

6 – Glass Eyes

Quinta-feira

7 – Identikit

8 – The Numbers

Sexta-feira

9 – Present Tense

10 – Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief

11 – True Love Waits

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