Queens of the stone age – …Like Clockwork

Escrito por em 17/06/2013

Vou começar esta resenha com um aviso: ela é bem pessoal. Não tem como ser diferente, afinal de contas, o Queens of the stone age é uma das minhas bandas favoritas. Poucos grupos me influenciaram tanto quanto o projeto musical de Josh Homme, seja no modo de pensar a bateria (meu instrumento de trabalho), seja na forma de encarar o próprio gênero do rock n’ roll. Enfim, eu sou o tipo de fã que foi fisgado pelo trabalho de Homme em Songs for the deaf  e,  desde então, tenho acompanhado cada lançamento ferrenhamente, sempre boquiaberto com os novos horizontes explorados pelo frontman e sua sempre mutável trupe de instrumentistas.

Naturalmente, eu acompanhei de perto a promoção do novo álbum e fui atingido em cheio pela onda de expectativa gerada pelos anúncios salivantes de participações especiais. Só a presença de Dave Grohl, Mark Lanegan e Nick Oliveri já bastariam pra elevar minha antecipação a níveis descomunais, mas nomes como os de Alex Turner, Trent Reznor, Jake Shears e – pasmem – Elton John tinham que pipocar para aumentar ainda mais a hype do projeto. A promoção do álbum também não ajudou a me conter: mensagens repletas de mistério, cunhadas pela própria banda, afirmavam que ...Like Clockwork seria algo grandioso até mesmo para os padrões já elevados da banda, e, claro, eu comprei a ideia.

Jogar com essa quantidade de expectativa é complicado: se aprendi algo com antecipações calorosas de discos é que, geralmente, a decepção é proporcional à expectativa. Ainda assim, eu estava presente no Lollapalooza quando o Queens Of The Stone Age estreou, tanto o baterista novo (Jon Theodore, ex Mars Volta, monstro das baquetas) quanto a música de trabalho “My god is the sun”, e posso dizer que valeu a pena toda a espera: ...Like Clockwork é um dos raros casos no mundo da música em que a hype é satisfeita – e isso é tão bom, cara.

É necessário reafirmar o que todo mundo tem falado por aí: o disco novo do Queens é um dos melhores de 2013, e tem lugar de destaque na (nada modesta) discografia do grupo. …Like Clockwork é um monstruoso apanhado de tudo que definiu a essência do Queens ao longo desses 17 anos de banda. Um álbum que é, ao mesmo tempo, muscular, sexy, radiofônico, gloriosamente focado, consistente e – porque não? – conceitual.

Dadas as circunstâncias que acompanharam o processo de composição do álbum, não é exagero dizer que …Like Clockwork é um mergulho na luta interna de Josh Homme contra seus próprios demônios. Afinal de contas, o frontman passou por uma experiência de quase morte ano passado, quando complicações, no que seria uma simples cirurgia no joelho, o  levaram ao estado de coma. Esse tipo de coisa mexe com as pessoas e, naturalmente, o disco tem uma pegada muito mais pesada liricamente. Faixa a faixa, Homme cava fundo no próprio peito suas maiores incertezas, numa necessidade urgente de expor ao público seu estado de espírito, ao ponto que faixas como “The vampyre of time and memory” e a titular “Like clockwork” chegam a soar como súplicas por ajuda em meio a um oceano de tormentos (essas duas faixas, aliás, contam com um instrumento pouco convencional nas composições do Queens: o piano).

Ainda assim, ...Like Clockwork também reserva faixas pesadas: “Keep your eyes peeled”, faixa de abertura, dá o recado, com linha de baixo e bateria hipnótica, num ritmo arrastado, servindo de espinha dorsal para que as agressivas distorções de guitarra e a mística linha de vocal e synth penetrem na cabeça do ouvinte. É sombria e pesada, como o bom e velho Queens of the stone age sempre foi. Em contraponto, “I sat by the ocean”, que vem logo em seguida, é dos melhores exemplos do pop pervertido do grupo: é viva, pulsante e alegre. Detém o riff mais grudento da discografia do Queens.

A faceta sexy da banda também brilha, com faixas como “If i had a tail” e “Smooth sailing” fazendo jus ao homem que escreveu “I wanna make it wit chu”. A primeira, diga-se de passagem, conta com a muito bem vinda participação de Alex Turner, que manda um solo de guitarra verdadeiramente inspirado. É também uma das melhores músicas para se ouvir na estrada.

Embora o elenco de …Like clockwork seja estelar, as participações especiais não se impõem tanto quanto se esperaria. É como se a presença de Josh Homme, ali no estúdio, canalizasse todas essas pessoas de vertentes extremamente diferentes numa coisa só – isto é, apesar dos participantes díspares, …Like Clockwork é um álbum bastante coeso. Claro, dá pra sentir a mão de Trent Reznor numa faixa como “Kalopsia”, mas  não chega a destoar do resto do álbum. É daí que deriva parte da força das composições desse disco, é quase como se o Queens incorporasse seus convidados como parte da banda. É só checar “Fairweather friends”, faixa que reúne praticamente todos os colaboradores numa obra só, e que soa tão Queens como qualquer outra música do disco.

Enfim, não vou estragar a experiência do álbum. Assista aos vídeos clipes brilhantemente produzidos pelo artista Boneface, pire nas teorias da conspiração, coloque esse disco constantemente no replay e acompanhe as letras. Mergulhe, de fato, no mundo pós apocalíptico que Homme criou com ...Like Clockwork, porque vale a pena. O Queens of the stone age ressurgiu das cinzas com a obra mais envolvente do ano. É bom você não perder essa viagem.
O disco é foda!

Henrique Gentil
Bolsista em Programação musical da Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar.
segunda-feira
Keep your eyes peeled
I Sat By The ocean
terça-feira
The vampyre of time and memory
If i had a tail
quarta-feira
My god is the sun
Kalopsia
quinta-feira
Fairweather friends
Smooth sailing
sexta-feira
I appear missing
Like clockwork

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