Panda Bear – Panda Bear Meets the Grim Reaper

Escrito por em 02/02/2015

 

Se pelas descobertas de sua trajetória musical, você já entrou em contato com o trabalho experimental/psicodélico da Animal Collective, banda de mais de 15 anos de notoriedade, é bem possível que, em algum momento deste eterno percurso, você também já tenha se deparado com a bem sucedida carreira solo do músico Noah Lennox.

Panda Bear Meets The Grim Reaper, o título pode até assustar, mas neste quinto álbum de estúdio de Noah e seu avatar Panda Bear, recém-lançado pelo selo parceiro Dominó Records e seguido do EP Mr. Noah, a morte é muito mais uma dúvida do que uma certeza.

Desde Person Pitch, terceiro álbum do artista, o músico surpreende com uma sonoridade de melodias doces e dançantes, tudo construído na base de sintetizadores que mais parecem ter saído de um encontro da new age, com o trabalho vocal dos Beach Boys em sua melhor forma. É difícil dizer que, ainda hoje o músico tenha abandonado este estilo do qual foi um dos precursores – a chillwave. No entanto, pelo título de seu mais recente álbum e pelas letras que desfilam mudanças e novos ares, é necessário estabelecer que amadurecimento e crise de identidade são retratos constantes deste seu novo trabalho.

Como o próprio músico já afirmou em recente entrevista para a Rolling Stones, o novo álbum vem repleto de referências de grupos dos anos 90, como nas pesadas batidas dos Dust Brothers e na influência do recente álbum R.A.M (Random Access Memories) do Daft Punk, da qual Panda Bear participou da composição na faixa “Doin’it Right”. Tudo isso, claro, sem abandonar aquela usual exprerimentação psicodélica regada a complexas melodias vocais, que se tornaram a marca do artista. Dessa vez, porém, Panda Bear adiciona pitadas fantasmagóricas e nebulosas ao disco, que vão desde a escolha de timbres macabros até a opção por tratar de temas dificeis ao compositor, como a perda do próprio pai e o desafio de lidar com as responsabilidades que a maturidade lhe trouxe.

Panda Bear, que não se afirma como um expert em psicodelia, mas diz ter encontrado a parte dela que mais lhe interessa, constrói texturas sonoras que muitas vezes são de difícil discernimento entre o que é orgânico e o que é, de fato, eletrônico. Uma confusão sonora que permeia grande parte do disco e acerta em cheio o público fã de seu trabalho, mas que, justamente, continua a ser um obstáculo na hora de ganhar novos ouvintes.

O álbum, claramente dividido em lado A e lado B, apresenta aos ouvintes dois momentos do compositor, o primeiro mais agressivo e relutante consigo mesmo pela continuidade de sua personalidade já enfraquecida de Panda Bear; o segundo, a aceitação do próprio desgaste e a reinvenção, com um lado mais quieto do artista que, muito provavelmente, aponta para onde caminha sua própria trajetória.

Há faixas mais experimentais e excêntricas como a densa “Butcher Baker Candlestick Maker”, que apresenta um lado mais lo-fi de Noah, a “Come To Your Senses”, ápice psicodélico/experimental do disco e também “Mr. Noah”, faixa que define muito bem o tom dado ao lado A do disco. Outras, como “Crosswords” e o single “Boys Latin” são bem mais agradáveis aos ouvidos de iniciantes. O single, inclusive, é uma baita homenagem a influência da surf music dos Beach Boys, pois apresenta um belo trabalho de tempo e contratempo nas textutas de voz.

As intimistas “Tropic Of Cancer” e “Lonely Wanderer” são, sem dúvida, o ponto alto do álbum. Ambas dão o tom necessário ao lado B do compacto quando quebram com a estrutura e os timbres desenvolvidos até então, tornando a audição completa bem menos repetitiva e desinteressante. Por fim, “Selfish Gene” e “Acid Wash” são as canções de despedida do disco e resumem a vibe toda que permeia o interior de Noah Lennox.

Resta saber se o disco é, de fato, o adeus a personalidade de Panda Bear. Se, por um lado, a morte é tema presente pro artista, é importante lembrar que, por outro, o mesmo apenas flerta com ela, o que não necessariamente quer dizer que briga e assume para si as suas dores. Como o próprio já afirmou, tudo vai depender muito de como se der seus próximos projetos. Então, só o que nos cabe aqui é o convite a audição deste belo registro e aguardar pelos próximos que, seja como Panda Bear ou não, ainda virão.

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical da Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às16h, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. Sequential Circuits
  2. Mr. Noah

Terça-feira

  1. Crosswords
  2. Butcher Baker Candlestick Maker

Quarta-feira

  1. Boys Latin
  2. Come Yo Your Senses

Quinta-feira

  1. Tropic Of Cancer
  2. Lonely Wanderer

Sexta-feira

  1. Principe Real
  2. Selfish Gene
  3. Acid Wash
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