P.O.S – We Don’t Even Live Here

Escrito por em 05/11/2012

Co-fundador do coletivo de hip hop alternativo, Doomtree, P.O.S pode ser muitas coisas. Original de Minneapolis, passou a juventude ouvindo Minor Threat, a adolescência em bandas de punk-rock e a vida adulta no hip hop. Naturalmente, o som de Stefon Alexander só pode ser definido como punk-rap, e, devido ao histórico de suas influências, suas rimas são tão politicamente carregadas quanto seria de se esperar.

We Don’t Even Live Here, mais novo trabalho de uma carreira solo que já chega ao quarto disco, começa com a percussiva “Bumper”. Misturando uma bateria orgânica com sintetizadores e bass drops do dubstep, P.O.S manda rimas agressivas sobre a superficialidade do rap comercial e se apresenta como a solução.

We Don’t Even Live Here pode não ser tão influenciado pelo punk quanto seu antecessor, o também excelente Never Better (2009), que inclusive ganhou destaque por misturar barulhentos riffs de guitarra e vocais gritados com as bases do hip hop, mas a influência está lá, pois, sistematicamente, sempre que P.O.S  faz uma rima ele destrói o sistema.  A prova disso é “Fuck Your Stuff”, com um clipe satirizando o chamado “rap de ostentação” e rimas como “Open a book, discussing Christopher Hitchens / Or how to make bombs with shit you find in your kitchen” (“Abra um livro, discutindo Chritopher Hitchens / Ou como fazer bombas com coisas que você acha na sua cozinha”), ou, mais diretamente “We came to riot, here to incite – we don’t want any of your stuff” (“Nós viemos para nos rebelar, aqui para agitar – nós não queremos nenhuma das suas coisas”).

Stefon Alexander não deixa ninguém escapar. Não sobram críticas aos movimentos de ocupação americanos (Occupy Wall Street e semelhantes) que há pouco tempo atrás ganharam as manchetes mundiais. Em “All Of It”, P.O.S clama por uma ativismo mais agressivo: “I’m probably not welcome at your protest, say I’m outta my damn mind / looking to break glass, not holding a damn sign… Occupy bedsheets, Occupy everything differently” (“Provavelmente eu não sou bem vindo em seu protesto, dizem que estou louco / Querendo quebrar vidro, sem segurar nenhum cartaz… Ocupe lençóis, Ocupe tudo de forma diferente”). Já em “Wanted Wasted”, faixa mais autobiográfica do álbum, em dose menos raivosa há também um crítica ao governo Obama e como pouco (ou nada) realmente mudou. “Black President – hooray for history / The shit’s still totally pretend, I mean” (“Presidente negro – urra para a história / Essa merda ainda é uma total mentira, quero dizer”).

“How We Land” se destaca no disco por ir contra a corrente. O refrão tem uma das melhores e mais sinceras linhas do álbum inteiro (“We’re on our own trip, falling in love by the miligram” “Estamos em nossa própria viagem, nos apaixonando a cada miligrama”), e é assistido pelo inesperado, mas perfeito vocal de Justin Vernon (do Bon Iver), servindo de eficiente contraste para as sujas rimas do rapper.

Da violenta “Bumper” a toxicamente dançante “Get Down”, “We Don’t Even Live Here” é promovida a volta às raízes do hip hop por um rapper punk. Mas o que P.O.S conseguiu com esse álbum é algo muito maior: sua música e suas rimas oferecem um resumo sucinto e honesto do atual quadro político dos EUA, e, de certa forma, mundial.

Stefon Alexander não poupa ninguém, sem medo de expor nomes e agitar protestos. We Don’t Even Live Here é tão relevante do ponto de vista político como o é do musical. Esse é o tipo de álbum que simplesmente deve ser ouvido.

Henrique Gentil
Bolsista de Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você ouve de segunda a sexta às 15h45, na Rádio UFSCar:

segunda-feira
1. Bumper
2. Fuck Your Stuff
terça-feira
3. How We Land
4. Wanted/Wasted
quarta-feira
5. They Can’t Come
6. Lock-picks, Knives, Bricks And Bats
quinta-feira
7. Fire In The Hole/Arrtow To The Action
8. Get Down
sexta-feira
10. Weird Friends (We Don’t Even Live Here)
11. Piano Hits

Revisão: Sheila Castro

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