of Montreal – Aureate Gloom

Escrito por em 16/03/2015

E of Montreal tá de volta. Kevin Barnes, vocalista e líder da banda, com a sua mente inquieta e seu oceano de referências e experimentações, é, sabidamente, um dos compositores norte-americanos mais produtivos das últimas duas décadas. Não pra menos, Aureate Gloom não é apenas o mais novo lançamento da banda, mas sim o décimo terceiro disco da carreira do compositor.

É sempre uma tarefa um tanto complicada se manter sólido e vivo no imenso mar de bandas que, dia após dia, aparecem com um novo single radiofônico e o visual descolado da vez. Kevin Barnes, em seu mais recente trabalho, parece ter se aproximado o suficiente daquele difícil limiar entre agradar antigos fãs e, mesmo assim, ter material fresco para justificar o lançamento de um novo disco.

Mantendo sua essência glam/psicodélica e diferente do que mostrou em seus últimos dois lançamentos, Lousy With Sylvianbriar (2013) e Paralytic Stalks (2012), o álbum vem cheio de referências ao estilo Nova Iorque do final dos anos 70. Influência tão latente, que o próprio compositor faz questão de desfilar nomes, em recentes entrevistas, como o de Talking Heads, Television e do próprio David Bowie, figura mais assimilável de todos os seus trabalhos. Não é como se o compositor nunca tivesse se reinventado, aqueles que acompanham o trabalho da of Montreal poderão facilmente dizer que a história está apenas se repetindo. No entanto, para os menos chegados, pode parecer um tanto estranho que praticamente toda música do disco soe como um grande emaranhado de referências, ora psicodélicas, ora punk, às vezes pop, um pouco funk…. enfim, uma enorme dose de experimentação que o músico apresenta de forma realmente única.

O que pode não ser novidade para os fãs, é que Aureate Gloom, é, sem dúvida, o disco mais pessoal do compositor. Com o recente término do casamento de mais de 11 anos, Kevin Barnes saiu numa dessas viagens de redescoberta de identidade. Levou consigo alguns poucos instrumentos, algumas ideias e referências, e pouco tempo depois já estava com todas as músicas gravadas em uma demo, que viria a se tornar o novo álbum pouco tempo depois. O compositor se mostra sensível o bastante para não entender o término do relacionamento como uma tragédia ou uma depressão, o disco definitivamente não é sobre isso. Ao invés dessa abordagem, Barnes simplesmente entrega que seu relacionamento já havia chegado em uma desconfortável e desgastante relação para os dois. Algo que, de fato, se reflete nas músicas, que ao invés de soarem melancólicas ou algo do gênero, se demonstram rápidas e por vezes confusas, quase como se mostrasse a sua própria inquietude e seus conflitos internos.

Se podemos começar a falar das músicas a partir do primeiro e dançante single “Bassem Sabry”, talvez só possamos falar dela apenas uma única vez. A fórmula simplesmente não se repete, cada música apresenta uma influência e uma vertente diferente. De semelhança mesmo, talvez apenas o fato de conterem, em apenas alguns minutos de canção, uma estrutura que sai de um oposto e vai justamente para o outro.

Diferente da psicodelia/funk do primeiro single, “Last Rites at The Jane Hotel” e “Empyrean Abattoir” já aparentam conversar muito mais com aquele punk meio glam do final dos anos 70. Por vezes conseguimos escutar algo de uma psicodelia moderna de bandas como Tame Impala, no entanto com um direcionamento e um esforço em parecer cru e direto. “Monolithic Egress” e “Aluminium Crown” são outras que apostam na completa junção de diferentes elementos, partindo de momentos mais lisérgicos até chegar em guitarras mais diretas, algo que lembra discos célebres como o “Yoshime Battle The Pink Robot” do Flaming Lips.

Se por um lado o álbum nos apresenta mais dessa usual junção de estilos da of Montreal, por outro é necessário ressaltar que o disco ainda está distante de se tornar relevante como o “Hissing Fauna, Are You The Destorcer?” (2008), álbum mais aclamado da banda. É inegável que Barnes tenha muito o que dizer e o faça sempre de maneira desafiadora. No entanto, uma das críticas possíveis a este novo disco é que, talvez, a mistura não tenha ficado tão clara assim, e falte ao disco aquela consistência necessária para os grandes álbuns, por mais inovadores que possam ser.

De qualquer maneira, é sempre interessante estar diante de uma banda que não aceitou a condição de envelhecer e que, mesmo após 20 anos de carreira, ainda propõe novas sonoridades. Fica aí uma boa pedida pra 2015!

Ouça o álbum via streaming.

Raul Ribeiro
Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. Bassem Sabry
  2. Last Rites At The Jane Hotel

Terça-feira

  1. Empyrean Abattoir
  2. Aluminium Crown

Quarta-feira

  1. Virgilian Lots
    6. Monolithic Egress

Quinta-feira

  1. Apollyon Of Blue Room
  2. Estocadas

Sexta-feira

  1. Chtonian Dirge For Uruk The Other
  2. Like Ashoka’s Inferno of Memory
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