Nine Inch Nails – Hesitation Marks

Escrito por em 23/09/2013

Após 5 anos de abstinência, parecia certo para os fãs de Nine Inch Nails que o mais próximo que teriam do grupo seriam os álbuns do How To Destroy Angels (projeto paralelo de Reznor com sua esposa). O cantor se encontrava confortável demais em sua posição de trilheiro cinematográfico bem sucedido para voltar atrás com o projeto que lhe rendera a fama. Entretanto, eis que chega Hesitation Marks e o hype  não podia ser maior.

Uma faixa atmosférica tensa prepara o cenário para as venenosas linhas de sintetizadores e batidas eletrônicas que comandam “Copy of A” antes de ouvirmos as primeiras palavras desta faixa, na voz de Reznor, “Eu sou só uma cópia de uma cópia de uma cópia”. Conscientemente, o cantor condensa todo o conceito do disco num só verso. Hesitation Marks é um álbum repleto de autorreferências que, no fundo, esconde, sob a falsa ideia de mesmice, um embate claro entre as urgentes necessidades artísticas do compositor e suas dúvidas quanto a própria relevância de seu trabalho. Esse questionamento permeará o disco do início ao fim e justifica as similaridades de Hesitation Marks com os outros trabalhos de Reznor, ao mesmo tempo em que impulsiona o grupo a explorar novos horizontes.

Diferentemente da pegada mais orgânica de The Slip (2008), antecedente direto de Hesitation Marks, o foco aqui fica para os sintetizadores e as baterias eletrônicas, empregadas de forma maravilhosamente espacial, semelhante ao que já foi trabalhado em Year Zero e Ghosts I-IV (de 2007 e 2008, respectivamente). Ainda assim, muita coisa icônica do som clássico do NIN permanece e se faz notar, como por exemplo,os dissonantes nostálgicos que parecem confortar os ouvidos dos fãs de longa data do grupo.

Agora, falando mais objetivamente sobre as músicas: o disco é dividido em duas metades igualmente ricas, mas de tonalidades diferentes e quase contrastantes. Todo o potencial comercial dessa nova encarnação do NIN é condensado nas 7 primeiras músicas do álbum. Faixas como “Came Back Haunted” e “All Time Low” apostam no familiar para abocanhar uma identificação instantânea e, com certeza, agradarão tanto aos fãs quanto aos curiosos. Entretanto, após o escorregão que é “Everything” (uma ode aos anos 80, executada de forma no mínimo estranha por um Reznor sarcasticamente feliz, chega “Satellite”, abrindo um novo bloco de composições mais densas. De repente, novas camadas são adicionadas às músicas, e o NIN começa a trabalhar numa dinâmica muito mais interessante (embora desencorajante para aqueles menos pacientes). “Various Methods Of Escape” traduz bem isso: a faixa começa calma, cresce e logo seu clímax é cortado apenas para se reconstruir até o final da música de forma ainda mais potente. Essa quebra de expectativa volta a aparecer em “In Two”, que é abruptamente cortada pelo combo final de “While I’m Still Here” e “Black Noise”, que propiciam uma espécie de anti-clímax para o final da obra.

Enfim, o fator principal a se notar aqui é o tempo. Muita coisa aconteceu desde The Downward Spiral, obra prima da discografia do grupo, e qualquer um que for de encontro a Hesitation Marks esperando algo semelhante está cavando a própria cova. O Trent junkie, niilista, autodepreciativo e autodestrutivo de antigamente simplesmente não se sustenta mais. Reznor finalmente parece em paz com a vida, um pai de família, de carreira bem sucedida (inclusive levando um Oscar nas mãos) e que, provavelmente, nunca mais vai escrever uma canção como “Hurt”. Isso não quer dizer, entretanto, que ainda não haja inquietude suficiente na cabeça de Reznor para justificar um novo disco sob a alcunha do Nine Inch Nails. Muito pelo contrário, Hesitation Marks é um álbum de alta carga confessional, revelador em certos momentos, só que entregado de forma mais sutil e contida que seus antecessores. De certo marca uma nova fase para o NIN: uma banda que superou os flagelos da juventude e agora se aventura numa estética mais madura, sofisticada e consciente de si.

Henrique Gentil
Bolsista em Programação musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar

segunda-feira
The Eater Of Dreams
Copy Of A
Came Back haunted

terça-feira
Find My Way
All Time Low

quarta-feira
Disappointed
Everything
Satellite

quinta-feira
Variou Methods Of Escape
Running
I Would For You

sexta-feira
In Two
While I’m Still Here
Black Noise

Marcado como

Opinião dos Leitores

Deixe um Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos Obrigatórios *


Rádio UFSCar

Tocando agora
TITULO
ARTISTA