Neneh Cherry – Blank Project

Escrito por em 24/03/2014

Uma breve introdução é obrigatória para quem não conhece, ou conhece só parcialmente, o percurso dessa artista  que tem início no final dos anos 70, quando dividia o apartamento em Londres com Ari Up, fundadora e integrante da banda punk feminina The Slits. Mas antes disso, é necessário saber que Neneh é a enteada do  lendário jazzista Don Cherry e, consequentemente, meia irmã de Eagle Eye Cherry. Com estas premissas, foi quase inevitável que a jovem Neneh não seguisse o caminho da música.

A música sempre foi presente na vida da jovem, com 16 anos ela estava no epicentro do revolução que já podia se definir como post-punk. Ela se envolveu nos processos criativos de várias bandas que exploravam novas linguagens, muitas delas formadas só por mulheres, as vozes femininas ganhavam um novo espaço, tanto no sentido musical  quanto político.

Conta a lenda que as suas primeiras experiências foram durante a gravação do álbum Germfree Adolescents dos X-Ray Spex, no qual sua voz aparece acompanhando o refrão em uma das faixas  mas, oficialmente, ela aparece como vocalista nos créditos dos primeiros e únicos três discos da banda Rip Rig + Panic, banda revolucionária, a frente ainda da revolução, que misturava punk, funk, free jazz, com um ativismo político e social explícito. Os  Rip Rig + Panic se formaram em 1981 e acabaram em 1983, tempo suficiente para gravarem três discos fundamentais, antes de exaurir a raivosa veia criativa.

Nesta altura, a voz da Neneh Cherry tinha se destacado no cenário musical britânico da época e ela começou várias parcerias e colaborações com outros artistas. Em 1989, Cherry lançou seu primeiro trabalho solo intitulado Raw Like Sushi, com a colaboração de Robert Del Naja e Andrew Vowlesdo do Massive Attack, desse trabalho foi extraído o primeiro single “Dollar” com a b-side Buffalo Stance, que num segundo tempo se tornará o verdadeiro sucesso do disco, num remix do Tim Simeon AKA Bomb The Bass.neneh

Em 1992, veio Homebrew que conta com a participação de nomes ilustres do cenário pop da época, apesar que não alcançou popularidade na estreia. Em 1996, com o disco Man, Neneh ganhou maior visibilidade graças aos singles “Woman” resposta à música de James Brown “It’s a Man’s Man’s Man’s World”, “7 Seconds” em parceria com Youssou N’Dour e “Trouble Man”, cover de Marvin Gaye. Esse disco pode ser definido, sem dúvida, como o mais pop dessa talentosa artista.

Em 2011, depois de 15 anos ausente do panorama musical, Cherry reapareceu participando do projeto The Cherry Thing junto com o trio norueguense/sueco de jazz experimental The Thing, com certeza a abordagem é difícil, se comparado aos trabalhos dos anos 90, mas isso não surpreendeu quem conhecia a Neneh Cherry da década anterior.

No começo deste ano veio a surpresa, Black Project chega como um meteorito na imobilidade de um panorama pop estagnante, cheio de clichês, de músicas criadas para justificar rótulos “hype”, da moda que corre atrás de um mercado em constante mutação.

Em Blank Project não encontramos a Cherry dos anos 90, nem dos 80, e nem os experimentalismos de jazz sempre recorrente nos trabalhos dela (o sobrenome Cherry é um herança que, sem dúvida, marca a sua vida), nos deparamos com um fino trabalho de moldura melódica em equilíbrio com às novas tendências da musica Pop. Minimalista, com ênfase nos graves como em “Across the Water”,  quase gospel, que abre o disco acompanhada só de um tambor, com um tom baixo e tribal, que logo deixa espaço para a frenética e eletrônica faixa título, um dos momentos altos do disco aliado ao primeiro single “Out of the Black”, com a participação da cantora sueca Robyn. Neste momento, dá para perceber que por trás de tudo isso, só poderia estar um dos nomes mais conceituados da música eletrônica atual, ou seja, Kieran “Four Tet” Hebden, que produziu e mixou o disco. É graças a ele que Blank Project se tornou aquilo que pode ser considerado a mistura perfeita entre o orgânico, encontrado na peculiaridade da voz da artista, e a perfeição, com as sonoridades sintéticas e ásperas do alquimista Kieran.

Então, quem esperava encontrar uma Neneh Cherry FM ficará desiludido, embora o pop dela seja de qualidade superior. É uma obra para quem está sempre à procura de uma faísca que acenda a chama da curiosidade, sem  que para isso precise mergulhar em territórios obscuros.

Paz!

Mauro Lussi
Coordenador de Programação musical e DJ da Rádio Ufscar

A seguir, a lista de músicas que você confere de segunda a sexta, às 13h45 na rádio UFSCar.

Segunda-feira
1. Across the Water
2. Blank Project
Terça-feira
3. Naked
4. Spit Three Times
Quarta-feira
5. Weightless
6. Cynical
Quinta-feira
7. 422
8. Out of the Black (feat. Robyn)
Sexta-feira
9. Dossier
10. Everything

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