Mitski – Puberty 2

Escrito por em 04/07/2016

Antes de deixar as guitarras de lado pra se tornar uma caricatura do que outrora foi, Rivers Cuomo (Weezer) costumava escrever suas melhores canções para amores platônicos que moravam no Japão, país que o encantava tanto pela cultura, quanto pelas garotas. No caso de “El Scorcho”, primeiro single de Pinkerton (1996), álbum considerado por muitos como o melhor do grupo, o vocalista e compositor escrevia para uma garota adolescente, metade japonesa e que, mesmo morando distante, correspondia à sua inocente projeção dos sentimentos e sua óbvia dificuldade em superar os dramas da adolescência.

Pois veja bem, é aí que mora a grande surpresa. Exatos 20 anos após o lançamento do single, a jovem Mitski, nascida no Japão e estabelecida na mesma terra de seus precursores, devia ter não mais do que meia década de idade na época das paixões platônicas do compositor. Fato esse que não a impediu de ser hoje uma das herdeiras diretas da sonoridade e da lírica tão bem desenvolvida por personalidades como Rivers e PJ Harvey no começo e metade da décana de 90.

E a puberdade é realmente uma etapa interessante. Se as descobertas deste momento estão ligadas ao desenvolvimento do próprio corpo e do crescimento e compreensão mais generalizada do mundo, o recém-lançado quarto disco da compositora, intitulado apenas como Puberty 2 (2016, Dead Oceans) e produzido por Patrick Hyland, se utiliza da mesma premissa da descoberta e do crescimento pessoal pra falar de maneira sensata e realista não sobre a primeira, mas sim sobre a “segunda puberdade”. Momento que diz muito a respeito do que já viveu a artista, uma “jovem adulta”, formada há pouco tempo e ainda em busca de se estabelecer em um mundo no qual sentimentos como a ansiedade, a insegurança, a depressão e os relacionamentos problemáticos parecem não colaborar.

Mitski

A abertura com “Happy”, ao mesmo tempo que aparenta ser o lado mais fácil e otimista da artista, é também a faixa mais ousada e elaborada do álbum; apresentando uma instrumentação pouco usual, que parte de batidas eletrônicas que simulam o trem de partida mencionado na letra e se desdobram em guitarras distorcidas e texturas de saxofones quase dissonantes. O conflito de um adolescente em depressão visto em “Dan the Dancer”, a confissão sobre a propensão a relacionamentos complicados de “I Bet on Losing Dogs” e o amor pouco correspondido de “A Loving Feelings” colaboram bastante para a imagem rockeira e noventista da artista; fato melhor explorado ainda na ansiedade escancarada de sons e versos de “My Body’s Made of Crushed Little Stars”, e no primeiro single do disco “Your Best American Girl”, que ao mostrar maturidade por compreender quando um relacionamento é querido, porém impossível em sua essência, consegue destoar facilmente como uma das melhores faixas do ano.

E felizmente a artista também não se limita apenas às referências dos anos 90, ao demonstrar maestria para adicionar temas ligados ao folk e ao dream pop de precursores como Cocteau Twins e atuais como Beach House. “Once More to See You” tem a atmosfera dark, o baixo trevoso e a melodia fácil que caracteriza o estilo; e as eletrônicas “Thursday Girl” e “Crack Baby” garantem que o pessimismo e a rejeição façam valer o clima de insegurança que permeia o disco; a segunda parecendo até mesmo ter saído diretamente de um disco da Lana Del Rey, ao comparar a ausência de felicidade à abstinência de cocaína. Por fim, as sintéticas “Fireworks” e “A Burning Hill” evocam nomes como o de Sharon Van Etten, a última com o objetivo de finalizar o disco de maneira sutil, com uma levada básica no violão para deixar o recado sobre a importância de abrir mão de um relacionamento de falsas promessas, para então voltar a se apaixonar pelos pequenos prazeres da vida solitária.

Com uma facilidade invejável para compor melodias e texturas precisas, a compositora japonesa/norte-americana consegue entregar um dos melhores registros do ano. Se em 2014, a também norte-americana St. Vincent apresentava ao mundo a sua elogiadíssima obra autointitulada, e no ano passado a australiana Courtney Barnett, com seu belíssimo disco de estreia Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, tomava para si o protagonismo das guitarras, o melhor do rock, prático e direto em sua essência como bem conhecemos, acaba de escrever seu nome no ano, e o nome dela é Mitski.

Raul Ribeiro, programador musical na Rádio UFSCar


A seguir, a lista de faixas que você escuta de segunda a sexta às 15h30. Você também pode ouvir o álbum na íntegra no sábado às 15h, aqui na 95,3 FM, escute diferente!

Segunda-feira

1 – Happy

2 – Dan the Dancer

Terça-feira

3 – Once More to See You

4 – Fireworks

Quarta-feira

5 – Your Best American Girl

6 – I Bet on Losing Dogs

Quinta-feira

7 – My Body’s Made of Crushed Little Stars

8 – Thursday Girl

9 – A Loving Feeling

Sexta-feira

10 – Crack Baby

11 – A Burning Hill


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