Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly

Escrito por em 30/03/2015

“…Mas enquanto meus entes queridos travavam uma guerra contínua na cidade, eu entrava em outra. Uma guerra baseada em apartheid e discriminação. Me fez querer voltar a cidade e contar aos meus amigos o que havia aprendido. A palavra era respeito. Só porque você usa uma cor diferente da minha isso não quer dizer que não posso te respeitar como negro. Deixando para trás toda a dor e mágoa que causamos uns aos outros nestas ruas, se te respeito nos unimos e impedimos o inimigo de nos matar. Mas eu não sei. Eu não sou mortal. Talvez seja só mais um crioulo” – Kendrick Lamar

É assim, com alguns dos versos do poema, que o jovem rapper de Compton, CA – Kendrick Lamar – repete e acrescenta durante boa parte do disco, que começo a buscar inspiração e informação o bastante para escrever sobre o que considero ser uma obra-prima moderna, um registro de importância local e mundial, canções que nos mostram o interior e o exterior de um artista conflituoso, denso e incomodado. Um reflexo de nossas emblemáticas questões sociais e raciais, consequência de nossa infeliz configuração histórica.

Lançado pela gigante Interscope, pela gravadora de Dr. Dre (Aftermath) e pela Top Dawg, To Pimp a Butterfly, terceiro registro de estúdio do rapper, finalmente chega às lojas, após a grande repercussão causada pelo lançamento de good kid m.A.A.d city em 2012. Disco que, aliás, ganhou amplo destaque, sendo apontado como o melhor do ano em diversos canais de repercussão mundial, o que rendeu comparações com o nome de Kendrick  a de eternos ídolos como Tupac, por exemplo.

Se o disco anterior foi um marco na história do hip hop moderno, somente o que podemos dizer sobre o recém-lançamento é que Kendrick, de fato, conseguiu colocar o seu nome como um dos mais relevantes da música contemporânea dos últimos anos, independente de gêneros musicais ou qualquer coisa do tipo. To Pimp a Butterfly é mais do que se esperava, é um disco extremamente pessoal, que reflete a transformação da condição do rapper enquanto cidadão negro do gueto em artista mundialmente reconhecido, daí a metáfora que acompanha o título do álbum.

A polêmica capa com homens, mulheres e crianças negras festejando em frente à Casa Branca, com um juiz morto jogado ao chão, já adianta que o rapper tem, sim, a intenção de lançar o disco como um manifesto enquanto negro norte-americano historicamente marginalizado. Tudo com um quê de provocação e muita sinceridade. No entanto, como o próprio artista já afirmou em recente entrevista ao New York Times, encarar este disco como apenas político “seria nivelá-lo por baixo”, já que “é um disco cheio de força, coragem e honestidade”, bem como “amadurecimento, reconhecimento e negação”. E de fato, seu discurso é todo construído de maneira bem pessoal, um relato sobre a sua condição de artista, sua insegurança sobre estar em destaque e, principalmente, sobre amor e ódio próprio, tudo dito sem soar como um estatístico cuspindo informação e pedindo para que se importe e se emocione com a sua arte e sua causa.

Com o lançamento do single “i”, no final do ano passado – música que inclusive ganhou Grammy de melhor canção de rap – era esperado que o disco viesse com letras otimistas e uma sonoridade mais trabalhada no gênero pop. No entanto, versos de canções como “The Blacker The Belly” e “u” nos mostram que o álbum passeia por climas bem diferentes. Se há momentos em que escutamos o rapper cantar sobre sua própria insegurança, literalmente bêbado, com uma garrafa na mão (“u”), também ouvimos ele cantar sobre amor próprio e confiança (“i”). O rapper ainda manda diversos recados para a indústria do entretenimento (“Hood Politics”) e apresenta letras diretas sobre discriminação (“These Walls” e “How Much a Dollar Cost”).

No entanto, a maior surpresa está na última música do álbum, “Mortal Man”, em que Kendrick sampleia uma entrevista que o rapper Tupac Shakur deu a uma rádio sueca, em 1994, antes de morrer. O diálogo de mais de 12 minutos é literalmente uma conversa com os mortos, e temas como fama, música e representação são discutidos entre os dois, quem sabe, maiores rappers estadunidenses dos últimos tempos. É realmente surpreendente como as palavras de Tupac ainda soam atuais mesmo quase 20 anos após a sua morte, e Kendrick as complementa de maneira a fazer do momento algo realmente singular na história da música.

Sobre  a sonoridade do álbum, é importante lembrar que o disco conta com muito mais recursos que seus últimos dois lançamentos. São inúmeras as parcerias que acrescentam um peso ao disco, como George Clinton, Snoop Dogg, Rhapsody, Anna Wise… entre outros que participam também da produção do álbum, como Pharrell Williams, Thundercat e Flying Lotus. Este último, inclusive, repetindo a parceria de sucesso do último disco de Flying Lotus, You’re Dead, em que podemos conferir as rimas de Kendrick em uma atmosfera experimental e de free jazz, como se seguiu em seu terceiro lançamento.

Todas essas contribuições são, inclusive, a parte mais fundamental do disco, em se tratando de sua sonoridade. Falar sobre a levada do álbum é buscar compreender todo o mar de referências da música negra norte-americana que se encontra no disco. Flying Lotus, como já citado,  apesar de não assinar a produção de todas as músicas, é muito presente nas sonoridades que permeiam as passagens, como em “For Free (Interlude)”. O funk de George Clinton e James Brown também é lembrado em “Wesley’s Theory” e “King Kunta”. Por fim, o soul e o R&B também aparecem, tanto na parceria com o compositor Bilal em “Institutionalized” quanto na easy-listening “These Walls”.

Dificilmente um artista como Kendrick Lamar, que canta de forma tão autoral e com uma sonoridade tão rebuscada, consegue atingir o número um das paradas de sucesso. Mas esse, definitivamente, não é o caso. Mais de 10 milhões de pessoas ouviram o disco nas plataformas de streaming só em seu primeiro dia de lançamento, número que continua crescendo sem parar e que já garantiu recordes de vendas e audição online.

Se podemos afirmar que discos clássicos são raros e que precisam ser escutados diversas vezes para serem colocados à prova do desgaste dos anos, somente o tempo poderá dizer sobre a relevância de To Pimp a Butterfly para a história do hip hop e da música. No entanto, se considerarmos a importância que tem sido atrelada ao álbum, mesmo agora com o lançamento ainda recente, a audição deste disco é quase que obrigatória, não somente para os fãs do rap e do hip hop, mas, sim, para qualquer um que se importe com música boa.

Ouça o disco!

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h45, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. Wesley’s Theory
  2. For Free? (Interlude)
  3. King Kunta
  4. Institutionalized

Terça-feira

  1. These Walls
  2. u
  3. Alright

Quarta-feira

  1. For Sale (Interlude)
  2. Momma
  3. Hood Politics
  4. How Much a Dollar Cost

Quinta-feira

  1. Complexion (A Zulu Love)
  2. The Blacker The Belly
  3. You Ain’t Gotta Lie (Momma Said)

Sexta-feira

  1. i
  2. Mortal Man

 

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