Jamie XX – In Colour

Escrito por em 22/06/2015

Se daqui uns vinte ou trinta anos me perguntarem “e aí cara, como é que era a música lá dos anos 2010 e pouco?”, em primeiro lugar, eu me sentiria muito velho, em segundo, desejaria não ter vivido a época da internet – em que produzir estando ligado ao uso de referências distintas é não mais do que obrigação – e por fim, em terceiro, buscaria por discos como o recém lançado debuto de Jamie XXIn Colour – pra tentar arrancar alguma coisa dessa suposta identidade musical contemporânea, se é que isso ainda é possível.

Jamie Smith, o garoto prodígio de apenas 26 anos, tem sido produtor e integrante do trio britânico, de enorme relevância (queira você, ou não), do mundinho indie – o The XX – pelos últimos 10 anos. O músico, que já dava sinais de sua investida fora do grupo desde 2011, quando lançou o disco de remix We’re New Here em parceria com o falecido Gil Scott-Heron, finalmente veio à tona com seu primeiro trabalho solo. In Colour, disco composto de maneira fragmentada pelos últimos cinco anos de sua carreira e lançado pela parceria XL Recordings/Young Turks, apesar de aparentar ser diferente do material produzido pelo trio, segue linhas semelhantes às traçadas pelo grupo, que revelou o artista aos fãs: introspectivo, minimalista e íntimo; salvo que no trabalho solo de Jamie (que não perde tempo em logo assumir o “XX” artísticamente), o músico ainda tem olhares para o que considero ser o ponto máximo da década, a ressignificação.

A menos que você seja um desses puristas de papo pro ar, que adoram descer a lenha em tudo que não seja do seu gosto, você tem que concordar, que já a um tempo, a música eletrônica deixou de ser uma exclusividade, para se tornar um elemento quase que obrigatório a qualquer um que se proponha a produzir música contemporânea, independente de estilos musicais. E convenhamos, isso não é novidade alguma. Desde que Brian Eno, Giorgio Moroder e grupos como o Kraftwerk (e até mesmo outros antes desses) começaram a brincar com sintetizadores lá nos 70, as coisas foram se tornando cada vez mais nebulosas em se tratando de gêneros e exclusividade no meio eletrônico. Culminando nos dias de hoje, em que professor YouTube e cursinhos online de Ableton Live e semelhantes estão aí com alta demanda e preços cada vez mais acessíveis.

E por que raios estou falando de Jamie XX como o cara da pós modernidade musical? Bom, se por um lado o uso da música eletrônica como um pontapé da miscelânea musical é mais do que o óbvio, por outro, o músico consegue, como poucos, fazer do remix uma atividade criativa. Tudo que ouvimos em In Colour remete às percepções do artista sobre suas influências. Não é como se fazendo uso de samples do coletivo The Persuasions no ótimo single “I Know There’s Gonna Be (Good Times)”, o artista fizesse um “tributo” ou algo do tipo aos grupos à cappella dos anos 70. Muito pelo contrário, a música é uma baladinha hip hop radiofônica de sorriso grande, nada a ver com as motivações dos remixados. Em resumo, quase aquilo que nos últimos anos a galera maluca da vaporwave e das outras “waves” (como a minha preferida, a “faustãowave“) tem feito na zueira e sacanagem.Tudo sem deixar de ser um recorte muito fiel à cultura digital presente em nosso dia a dia contemporâneo.

E a audição do álbum segue toda nessa mesma linha. Se você tiver um tanto de interesse, pode até ir atrás deste artigo da galera da vice sobre cada referência trabalhada no álbum. “Gosh” é o abre-alas do disco, com ritmo crescente, começa como um batidão de poucas notas e termina num emaranhado de camadas e melodias, dá a sensação de ser um disco um pouco mais EDM do que realmente é. “Sleep Sound”, “Seesaw” e “Strangers In a Room” são exatamente aquilo que se espera de um trabalho solo mais baladinha do beatmaker que trouxe as canções minimalistas e sensuais do XX ao mundo, partem da atmosfera melancólica para saudar a subcultura de clubes londrinos dos anos 90; as duas últimas ainda contam com a participação de outros dois integrantes do trio britânico, Romy e Oliver Sim. A acessibilidade do single “Loud Places” contrasta bastante com as colagens mais experimentais de “Girl” e “Hold Tight”. E por fim, a surpresa fica mesmo por conta da faixa “Obvs”, com uma mistura inesperada de post rock e chillwave, que começa parecendo um remix da também contemporânea Beach House e acaba num timbre guitarrístico de muito bom gosto lá pelos dois minutos da história.

Pois é, não dá pra negar que mesmo nascendo na época dos fliperamas e do DOS, também sou filho da mesma internet que hoje se faz presente 24h. Época do acesso democratizado e da cultura da reciclagem, na qual com alguns poucos cliques podemos aprender mais sobre o paradoxo do gato e do pão com manteiga, num exemplo aleatório qualquer. Se Jaime XX conseguiu atribuir valor ao seu trabalho a partir da releitura e da pesquisa (ou remix bem feito, se preferir) somada a seu tino musical bem afinado (sempre bom recordar), é bem provável que daqui pra frente a coisa acabe indo mais fundo nessa direção e aspecto. Espero estar vivo daqui uns trinta pra conferir onde é que a zueira vai estar.

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h30, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. Gosh
  2. Sleep Sound

Terça-feira

  1. SeeSaw (feat. Romy)
  2. Obvs
  3. Just Saying

Quarta-feira

  1. Stranger In A Room (feat Oliver Sim)
  2. Hold Tight

Quinta-feira

  1. Loud Places (feat Romy)
  2. I Know There’s Gonna Be (Good Times) (feat. Young Thug & Popcaan)

Sexta-feira

  1. The Rest Is Noise
  2. Girl
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