Hot Chip – Why Make Sense?

Escrito por em 08/06/2015

Escrever sobre o Hot Chip é uma parada quase que pessoal. Eu, assim como outros brasileiros, tive a oportunidade de conhecer a banda lá em meados de 2007, quando o grupo se apresentou numa noite de domingo, em um show repleto de problemas técnicos. Era, até então, a segunda banda do dia. Apesar de toda hype criada, dá pra afirmar que eram poucos os que tinham levantado naquele dia pra ver a apresentação dos caras no extinto Tim Festival. Talvez tenha sido a edição em que a pivetada (inclusive eu) mais colou em peso, consequência óbvia de atrações como Arctic Monkeys e The Killers, que se apresentavam na mesma noite e lugar que o grupo de Londres. É, meu amigo, que dia. Lembro de olhar pro palco com cara de poucos amigos e ver uns 5 ou 6 marmanjos, com pelo menos 10 anos a mais do que eu, carregando o lado nerd e introspectivo do rock, com texturas de sintetizadores e muita métrica planejada. Tudo isso, com apenas um detalhe: a banda não perdia em momento algum o ritmo aflorado, característico das pistas de dança. Era uma porrada de sons eletrônicos, feito por um bando de nerd com formação de banda de rock e, ainda por cima, com vibe de baladinha. Em resumo, um grotesco mindfuck na cabeça de 16 anos da pessoa que aqui escreve. Lembro de sair de lá renovado, confuso e com a única certeza de que precisava ir mais a fundo e entender do que é que se tratava aquele som, afinal.

E hoje, mais do que nunca, tamo aí com o disco novo dos caras. Why Make Sense?, lançado pela gigante do indie Domino Records, é  literalmente uma resposta ao garoto que tava naquela plateia 8 anos atrás. Fazer sentido pra quê? Pra poder ser cultuado por meia dúzia, e estampado com seu “rótulo” musical nas prateleiras físicas e virtuais?!. Ninguém dá a mínima se esse ou aquele é o melhor ou pior disco do ano, é tudo falatório e no fim ilusão. As pessoas deveriam estar interessadas apenas na música, afinal é sobre isso que estamos falando. Se você é daqueles que cultuam o retrospecto, a grandeza do contexto, a coesão das referências trabalhadas e todo esse papo da indústria e dos fãs, esse disco, definitivamente, não é pra você. É claro que é fácil falar isso de uma banda que já está em seu sexto lançamento (aliás, um feito no mínimo interessante para bandas que nunca foram grandes), enquanto muito de tudo isso já fora trabalhado à exaustão em discos anteriores. Mas a real, é que o amadurecimento uma hora acontece, e muito daqueles objetivos musicais que antes faziam todo o sentido do mundo, uma hora já não fazem mais.

O Hot Chip por muito tempo foi a banda em que os integrantes passavam dias em computadores e dispositivos eletrônicos/musicais para encontrar sua própria identidade. Hoje o grupo apresenta um disco no limite do cru e do espontâneo. Com agendas e responsabilidades que vão além do mundo da música, fica cada vez mais difícil levar um esquema de maneira juvenil e inspiradora, como antes. O resumo da ópera se traduz em um disco pensado em algo próximo a uma semana de convivência, com uma banda que, aliás, procurou se distanciar ao máximo do seu esquema anterior de composição. Com um objetivo de ser menos milimétrico e rebuscado, os integrantes se reuniram pra tocar e compor em grupo, a fim de trazer a energia das apresentações ao vivo pro estúdio e soar mais como uma banda de fato do que um computador bem programado. Algo que, em se tratando de Hot Chip, poderia parecer como um completo desastre se não fosse todo o entrosamento da banda de Alexis Taylor; experiência de 15 anos tocando juntos, que mesmo em processo diferenciado, trouxe coesão pelo simples fato de surgir de uma sonoridade muito própria já estabelecida, e não pela imposição ou procura por uma linha de coerência qualquer.

“Huarache Lights”, que dá início ao disco, foi lançada como primeiro single de Why Make Sense?, e logo entrega que este será um álbum de poucos hits. Longe do frescor de “Over And Over” e “Ready For The Floor”, a música não empolga mas também não decepciona, traz um vocoder utilizado na medida e boas progressões, como sempre. “Love Is The Future” tem a mesma delicadeza melódica de In Our Heads (2012), e uma levada à la Gorillaz – fase Plastic Beach (2010) – jeitinho de hino 90’s com direito a verso cantado pelo rapper Posdnuos, da eterna De La Soul. “Cry For You” e a faixa título do álbum são aquelas que levam ao pé da letra o lance de não fazer sentido, misturam de tudo e passeiam por todas as fases do grupo, mas são bacanas até por isso. “Started Right”, “Easy To Get” e o R&B de arrebatar coração “White Wine And Fried Chicken”, pelo contrário, mais uma vez confirmam que a banda sempre bebeu da mesma água que grupos que embalavam as noites nos anos 80. Destaque também pro segundo single do disco “Need You Now”, essa com ventos do pop e das pistas de dança modernas, mostrando que 15 anos de estrada não são o bastante para a banda deixar de fazer um som contemporâneo de qualidade.

O Hot Chip pode até não ser mais aquela banda que cheirava novidade na década passada e que causava confusões mentais em garotos de 16 anos. Mas a considerar por sua trajetória musical e por ter encontrado, de fato, uma sonoridade que lhe é indiscutivelmente característica, não é bobagem dizer que a banda já sobreviveu ao desgaste do tempo, e ficará para sempre como uma das representantes daquilo que de mais relevante aconteceu na música ao redor do mundo na virada do século.

Raul Ribeiro

Estagiário em programação musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 15h30, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

  1. Huarache Lights
  2. Love Is The Future

Terça-feira

  1. Cry For You
  2. Started Right

Quarta-feira

  1. White Wine And Fried Chicken
  2. Dark Night

Quinta-feira

  1. Easy To Get
  2. Need You Now

Sexta-feira

  1. So Much Further To Go

10. Why Make Sense?

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