Father John Misty – I Love You Honeybear

Escrito por em 16/02/2015

 

Segundos disco são sempre polêmicos. Não tem jeito, é assim que funciona. Sempre vai ter aquele pra dizer que o artista era mais sincero antes, que dessa vez ele exagerou, se perdeu e que o sucesso, infelizmente, subiu a cabeça. Outros, dirão que os músicos finalmente se encontraram, que o artista está muito mais maduro e preparado, e, claro, sempre vai ter alguém pra mandar o clássico “esse aí traiu o movimento!”. Há quem diga que seus discos favoritos são sempre os segundos, talvez pela pressão a qual o artista está submetido,  que o faz muitas vezes sair de sua  zona de conforto. Aplicando o caso ao recém lançado I Love You Honeybear do folk/showman Father John Misty, devo dizer que, dessa opinião, eu também compartilho.

Poucos dias após ser visto cantando seus dois novos singles em uma das campanhas de lançamento mais simpáticas do ano, o músico Josh Tilllman, mais conhecido pela alcunha de Father John Misty, lança seu segundo álbum, pelo selo SubPop, em meio a grande expectativa por parte dos fãs e crítica. O compositor, que deu as caras em 2012 com o disco Fear Fun, já demonstrou ter muita coragem ao largar a carreira próspera, como baterista da Fleet Foxes, para se arriscar em projeto solo. Dessa vez, o desafio é simplesmente o de se manter intacto.

Mais intimista dessa vez, o novo disco é, sim, uma declaração de amor do compositor a sua esposa Emma. Aquele disco que te faz ora se cansar de tamanha delicadeza, ora se emocionar com a simplicidade e sinceridade dos versos. Tudo, diga-se passagem, de um extremo bom gosto em se tratando de termos musicais como timbres e arranjos. Uma produção musical que, aliás, conta com a colaboração do próprio compositor, iniciativa que por vezes lhe deu a liberdade para dar um tratamento mais grandioso ao disco, com orquestra de violinos, pianos e tudo mais o que grandes produções têm direito.

Falando desta maneira, é bem provável que talvez você pense que o disco se trata de mais uma daquelas tentativas de ser popular e eterno, que a bem da verdade é uma baita pretensão e enchessão de saco ao maior estilo Paul Mccartney carreira solo, pronto falei.

No entanto, salvo por sua inerente condição sarcástica e irônica, John Misty, em diversos momentos, parece apenas conversar consigo mesmo, tirando onda de sua própria virtude, de suas escolhas, da vida romântica e da maneira como encara as coisas simples da vida. O cara desfila sinceridade e isso é inegável, dá pra senti-la em cada palavra e cada verso de suas músicas. A maneira como conversa e passa a sua mensagem não deixa o disco cair, de forma alguma, na eterna mesmisse dos cantores pop/folks que, dia após dia, aparecem com uma canção fofinha pra tocar em tudo o que é rádio. Sim, é uma linha tênue e complicada, e o músico sabe muito bem disso, basta assistir a sua recente apresentação no programa do Letterman e o resto falará por si só.

A faixa-título do álbum, que dá início ao setlist do disco, já mostra bem a que veio o compositor. É tudo muito consistente, não se deve esperar por reinvencões. Nada muito diferente daquele clássico violão dedilhado, guitarrinha folk/blues, pouca percussão e instrumentos como violinos e piano. Diferente disso, vale destacar apenas a eletrônica “True Affection”, praticamente uma exceção na audição completa do disco, uma faixa que me lembrou muito o lado eletrônico da também banda folk Beirut. Aquela coisa que mesmo quando encontra a diversidade de timbres possíveis em um sintetizador, se mantém de certa forma intacta em suas raízes.

Difícil dizer qual das faixas mais se destacam, são tantas as melodias e letras que te fazem sair cantando assim que a canção acaba. “The Night Josh Tillman Came To Our Apartament” ou a “Nothing Good Ever Happens At The Goddamn Thirsty Crow”, são musicas que mostram a capacidade do músico de emocionar mesmo quando o que se espera são risadas de deboche em suas palavras. Algo que, aliás, literalmente acontece na “Bored In The USA”, faixa de óbvia referência a Bruce Springsteen, em que John Misty tira onda de seu próprio estilo stand up comedy, ao colocar na música aquelas clássicas risadinhas de sitcom. A escrachada “The Ideal Husband”, de pegada mais rock’n’roll, relembrando ídolos do britpop; e a singela “I Went To The Store One Day”, faixa mais intimista do disco, de fazer chorar mesmo, que ganhou versão filmada lindona na invejável série de vídeos Lá Blogothèque, que você pode conferir no vídeo da semana aqui da Rádio UFSCar.

Gosto de afirmar que Josh Tillman seria um péssimo músico se não tivesse essa inerente pegada cômica, e o contrário também é válido. Felizmente, para nós ouvintes, nesse caso em específico, uma coisa não só complementa a outra, mas simplesmente dá vida e sentido. Um disco que merece ser ouvido não só por aqueles que desfrutam da vida romântica, mas por todos que, por vezes, se sentem confusos e confiantes em relação aos próprios sentimentos e, de uma forma ou de outra, aprendem que, em certos momentos, a única saída pode ser apenas rir de si mesmo.

Raul Ribeiro

Estagiário em Programação Musical na Rádio UFSCar

A seguir, a lista de músicas que você escuta de segunda a sexta, às 16h, na Rádio UFSCar:

Segunda-feira

1. I Love You Honeybear

2. Chateau Lobby 4 (In C For Two Virgins)

Terça-feira

3. True Affection

4. The Night Josh Tillman Came To Our Apartment

Quarta-feira

5. When You’re Smiling And Astride Me

6. Nothing Good Ever Happens At The Goddamn Thirsty Crow

Quinta-feira

7. Strange Encounter

8. The Ideal Husband

Sexta-feira

9. Bored In The USA

10. Holy Shit

11. I Went To The Store One Day

 

Marcado como

Opinião dos Leitores

Deixe um Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Campos Obrigatórios *


Rádio UFSCar

Tocando agora
TITULO
ARTISTA